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ESPECIAL ANIVERSÁRIO | TURISMO »

Niemeyer muito além de Brasília

Um roteiro por cidades que também têm obras do respeitado profissional que colocou a capital do Brasil no mapa da arquitetura mundial

Carolina Cotta - Publicação:29/04/2016 14:18Atualização:29/04/2016 15:38
Não se vive Brasília sem vivenciar Oscar Niemeyer. Mesmo os que não cruzam o Eixo Monumental – e se presenteiam quase que obrigatoriamente com a vista da Catedral Metropolitana Nossa Senhora Aparecida, o Conjunto Cultural da República e os palácios em torno da Praça dos Três Poderes –, todos que moram na capital federal estão como que “vigiados” pela Flor do Serrado: a Torre de TV digital, que marca nosso horizonte.

 

Por aqui não é preciso sequer ver uma das 50 obras deixadas pelo arquiteto carioca para sentir sua presença. Niemeyer pensou e criou a cidade com Lucio Costa e Juscelino Kubitschek. E muito do que faz de Brasília o que ela é vem desse homem que colocou o Brasil, especialmente sua capital, no mapa da arquitetura mundial.

 
Mas o fato de concentrar a maior parte de sua obra não faz de Brasília unanimidade. Pelo menos não para os estudiosos. “Brasília é capítulo significativo na obra de Niemeyer, mas não é o mais importante”, explica Rodrigo Queiroz, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (USP), que se debruçou sobre a obra do mestre durante o mestrado, quando pesquisou o arquiteto em Brasília, e no doutorado, mostrando como o brasileiro influenciou até o arquiteto suíço Le Corbusier. Para Queiroz, as criações de Niemeyer na capital federal representam um marco em direção a uma nova linguagem em sua arquitetura, mais próxima da simplificação formal, da ausência de variedade, de construções mais sintéticas.Rodrigo Queiroz explica que, não tão concentradas como aqui, mas várias cidades do Brasil, e mesmo do exterior, reúnem conjunto de criações, ou edifícios-ícones da obra de Niemeyer.

Aos brasileiros mais presenteados pela arquitetura do carioca, Encontro Brasília lança um convite: percorrer, inicialmente em nossas páginas, algumas das mais importantes delas, na seleção de Rodrigo Queiroz. Uma oportunidade de encontrar semelhanças, e mesmo inspirações. Diante de tamanha contribuição, o pesquisador também elenca seu Niemeyer preferido em Brasília: “Impossível avaliar prédio a prédio, mas para mim o mais emocionante é o Itamaraty, quando se sobe ao terraço e se olha Brasília de dentro para fora, a partir dos seus arcos.”

 (Sergio Moraes/Reprodução)

Niterói
 
Depois de Brasília, Niterói reúne o segundo maior conjunto arquitetônico do profissional: o Caminho Niemeyer. O inconfundível Museu de Arte Contemporânea (MAC) – que muitos remetem a um disco voador, embora tenha sido concebido como uma flor na ponta do caule – e os demais equipamentos culturais colocaram a cidade na rota turística de quem visita sua vizinha ilustre, o Rio de Janeiro. Aflorando de um espelho d’água, como se fosse um eco do mar ao fundo, o MAC tornou-se cartão-postal da cidade e uma das obras mais conhecidas do arquiteto. Em uma extensão de 11 km, o Caminho Niemeyer, criado para revitalizar a orla da baía de Guanabara e a parte central de Niterói, reúne ainda o Teatro Popular, a praça Juscelino Kubitschek, o Memorial Roberto Silveira, o Centro Petrobras de Cinema, a Fundação Oscar Niemeyer e o Terminal das Barcas de Charitas. “Assim como JK, outros executivos queriam fazer de Niemeyer seu arquiteto oficial, na tentativa de aliar sua imagem de modernidade às suas gestões”, diz Queiroz.
 
 (Reprodução)
São Paulo
 
A capital São Paulo só perde para Brasília em número de edifícios assinados por Niemeyer. O grande destaque, além do icônico Copan, é o Complexo Arquitetônico do Parque do Ibirapuera, formado por cinco prédios interligados por uma grande marquise. Criado para as comemorações dos 400 anos da cidade, nos anos 1950, a proposta era centralizar todas as manifestações comemorativas do aniversário para representar a grandiosidade e posição de vanguarda com a qual a cidade se apresentava. Assim, Niemeyer criou o Pavilhão Cicillo Matarazzo (também conhecido como Pavilhão da Bienal de São Paulo), o Museu de Arte Contemporânea, o Museu Afro Brasil, a Oca e o Auditório Ibirapuera, implantado já no século 21. Esses dois últimos eram enfatizados pelo arquiteto como elementos de maior importância arquitetônica e plástica para o parque. Todos os edifícios são interligados por uma extensão da marquise, que visava garantir a unidade arquitetônica do conjunto. 
 
Curitiba
 
A capital do Paraná não tem o volume de edifícios das outras cidades, mas o Museu Oscar Niemeyer (MON) deu a Curitiba uma nova perspectiva turística a partir de 2002. Além de abrigar referências importantes da produção artística nacional e internacional, é hoje considerado o maior museu de arte da América Latina. Também conhecido como “Museu do Olho”, em função do formato de sua galeria mais alta, o espaço foi eleito um dos 20 museus mais bonitos do mundo, e um dos 20 lugares mais bonitos do Brasil. A ideia do projeto era transformar uma escola existente, também de Niemeyer, em um grande museu de arte. À época, ele chegou a reconhecer que o prédio anterior prestava-se, perfeitamente, a isso. “Era bonita, suspensa sobre pilotis e tão atualizada estruturalmente que seus apoios tinham afastamentos de 30 e 60 metros. A minha primeira ideia foi desenhar um novo museu em sua cobertura, com a mesma audácia estrutural que distinguia aquela construção”, afirmou Niemeyer. Para Rodrigo Queiroz, trata-se de uma obra importante de atualização de linguagem.
 
 (Jackson Romanelli/DA Press)
Belo Horizonte
 
É na capital mineira que se encontra a principal criação de Niemeyer, na opinião de muitos críticos: a Igreja de São Francisco. Ao lado de Juscelino Kubitschek, então prefeito de Belo Horizonte, ele apresentou ao mundo, na década de 1940, uma revolução: o Conjunto Arquitetônico e Paisagístico da Pampulha, candidato a Patrimônio Cultural da Humanidade. Flutuando sobre o espaço, as linhas curvas da “igrejinha da Pampulha”, da Casa do Baile, do Cassino hoje Museu de Arte da Pampulha) e do Iate Clube fizeram de Niemeyer um dos maiores arquitetos de todos os tempos. “Pampulha foi onde o jovem e promissor arquiteto se desvinculou de sua filiação à arquitetura moderna. É o conjunto em torno da lagoa que vai definir sua linguagem particular”, diz Rodrigo Queiroz, que destaca ainda o edifício Niemeyer, que chama de um “Copan potencializado”, e a Biblioteca Pública Estadual Luiz de Bessa, ambos na praça da Liberdade, além da Cidade Administrativa, sede do governo e construção mais recente.
 
 (Moises Garcia/Divulgação)
Paris, Milão e Avilés
 
Conhecido mundialmente por ter dado leveza ao concreto armado, Oscar Niemeyer deixou mais de 600 obras espalhadas pelo mundo. Fora do Brasil, Rodrigo Queiroz destaca três delas. Em Paris, onde se exilou durante a ditadura militar brasileira, Niemeyer deixou a sede do Partido Comunista Francês, projetado em 1965 e tombado como patrimônio histórico da cidade. Já o Centro Cultural Internacional Oscar Niemeyer, aberto em 2011, na cidade de Avilés, é a única obra do arquiteto brasileiro na Espanha, e foi descrita pelo próprio como “uma praça aberta a todo mundo, um lugar para a educação, a cultura e a paz.” O auditório, a cúpula, a torre-mirante, o edifício polivalente e a praça aberta são os cinco espaços que compõem o centro. E em Milão, na Itália, destaca-se a Sede Mondadori. O dono da editora italiana teria se encantado de tal forma com o Palácio do Itamaraty, em Brasília, que pediu a Niemeyer que usasse a mesma referência dos arcos em seu edifício. Por sua vez, a solução dos arcos sustentando os andares inspiraria a Cidade Administrativa de Minas Gerais, em Belo Horizonte.
 
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EDIÇÃO 55 | Julho de 2017