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ESPECIAL ANIVERSÁRIO | LITERATURA »

Motivadoras páginas

Para crianças ou adultos, brasilienses ou não: qualquer pessoa que tenha curiosidade sobre a cidade deveria ler o livro de Elisa Leonel

Paloma Oliveto - Publicação:29/04/2016 15:54Atualização:05/05/2016 09:56
Especializada em educação patrimonial, a historiadora Elisa Leonel escreveu Gabriel em Brasília- a cidade com asas: a própria autora está traduzindo a obra para o francês  (Ana Rayssa/Esp.CB/DA Press)
Especializada em educação patrimonial, a historiadora Elisa Leonel escreveu Gabriel em Brasília- a cidade com asas: a própria autora está traduzindo a obra para o francês
Por muito tempo, Brasília foi uma terra de migrantes. E quanta estranheza causava nas pessoas que aqui chegavam. “Cidade-maquete”, criticavam alguns. “Celeiro de políticos e politicagens”, diziam outros. “Cadê as esquinas, os nomes de rua, as calçadas para o pedestre andar?”, questionaram todos. Eles tinham razão. Despir-se de preconceitos para compreender as idiossincrasias do novo não é fácil para quem carrega no peito e na memória seus próprios ideais de cidade. Brasília desafia todos eles.

Foi com olhar estrangeiro que a historiadora Elisa Leonel enxergou a capital quando chegou de São Paulo, em 1982. “Estranhei bastante. Não tinha nada. Era só terra, poeira, seca, escuridão”, recorda. Não demorou, porém, para que ela se sentisse generosamente acolhida e adotada. “Brasília tem uma série de problemas. Mas que cidade maravilhosa”, encanta-se. Mesmo vivendo há 10 anos em Paris, eventualmente Elisa retorna para rever a sua Brasília. Aqui, sente-se em casa. E é assim que deseja que todos se sintam.

Especializada em educação patrimonial, ela é autora do livro Gabriel em Brasília – a cidade com asas, editado no fim do ano passado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Ricamente ilustrada no estilo mangá por Washington Rayk e com dinâmico projeto gráfico de Mauricio Chades, a obra teve tiragem de 4 mil exemplares e começou a ser distribuída, neste semestre, às escolas públicas do Distrito Federal.

A ideia é desvendar a cidade para seus pequenos moradores, de forma que, ao compreendê-la, possam se sentir ainda mais parte dela. “É essa sensação de pertencimento que a educação patrimonial tem de desenvolver. A sensação de que você é da cidade, e a cidade é sua. É se aproximar, se apropriar”, explica. Para isso, Elisa criou um personagem. O menino Gabriel, inspirado no filho de uma amiga, hoje já adulto. No romance, ele mora em São Paulo e foi convidado pela tia arquiteta para conhecer Brasília. O desânimo se abate sobre o garoto: fazer o que na capital, um lugar que só tem político? O estereótipo tão conhecido – e combatido – por brasilienses permeia o pensamento do estudante, que fica tentado a recusar a oferta, mesmo tendo se divertido com a tia em passeios anteriores.

No entanto, como todo adolescente, ele começa a se interessar mais ao saber que, em Brasília, terá companhia de uma menina, Joana, filha da dona da casa que hospeda Gabriel e a tia. Mal desembarca e o garoto já percebe que não está em um lugar qualquer. “Tive a impressão de estar em outro planeta, muito diferente da Terra”, observa, depois de passar por tesouras, eixos, balões, superquadras. O estranho, porém, não desagrada. Ao contrário, instiga o personagem a desvendar os segredos da cidade.

Nas andanças de Gabriel, ele vai conhecendo não só os pontos turísticos, como a Catedral, o Palácio do Planalto, o Congresso Nacional, o Itamaraty, a Torre de TV. O menino também começa a se familiarizar com os elementos que fazem de Brasília a cidade que ela é. As cigarras, as árvores baixas e secas do cerrado, a banca de jornais da 108 Sul, o Cine Brasília, o Buraco do Tatu. Na volta, Gabriel reflete sobre o que disse a mãe da amiga Joana: “Este patrimônio é meu, é seu, é de todos nós”. “Ela tem toda a razão. A gente percebe como ela e a Joana se identificam com a cidade onde vivem, como elas falam de Brasília, e não só pelo seu patrimônio, é também por tudo o que tem ali e que faz parte da vida delas (...)”.

Trechos do livro: multidisciplinar, o material pode ser aproveitado em aulas de artes, português, história e até de matemática. Ou pode ser 'somente' apreciado por quem quer compreender melhor a cidade (Reprodução)
Trechos do livro: multidisciplinar, o material pode ser aproveitado em aulas de artes, português, história e até de matemática. Ou pode ser "somente" apreciado por quem quer compreender melhor a cidade

O passeio de Gabriel é uma oportunidade não apenas para os estudantes da rede pública do DF, mas para qualquer pessoa, inclusive adultos, compreender melhor a cidade, sem o tom professoral que muitas publicações do gênero acabam adotando. Com naturalidade, Elisa Leonel toma o leitor pela mão e o conduz por uma cidade diferente, mas que, no fim das contas, não é tão estranha assim. “Podemos considerar o livro um 'romance de aprendizagem'. Nas escolas, como material de apoio multidisciplinar, poderá ser aproveitado de diversas formas: nas aulas de artes plásticas, português, história e até de matemática”, sugere.

Para se aventurar no mundo da literatura infantojuvenil, Elisa, uma leitora apaixonada e voraz, recheou as prateleiras das estantes com livros do gênero, além de estudar métodos de escrita de romance. A experiência foi tão prazerosa que a escritora franco-brasileira já planeja um guia de Paris no mesmo estilo de Gabriel em Brasília. Em breve, as aventuras do menino pela capital brasileira também poderão chegar à cidade-luz. Elisa está traduzindo a obra para o francês. Afinal, Brasília não é só de candangos e brasileiros. Brasília é a utopia universal.
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EDIÇÃO 55 | Julho de 2017