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ESPECIAL ANIVERSÁRIO | CLUBES »

Verão o ano inteiro

Ainda na rotina dos sócios mais antigos, os clubes ganham adesão dos mais jovens principalmente pela variedade esportiva

Jéssica Germano - Redação Rodrigo Craveiro - Redação Publicação:02/05/2016 10:15Atualização:05/05/2016 09:57
Quando pensou Brasília, o presidente Juscelino Kubitschek idealizou a orla do lago Paranoá como ponto de encontro e de lazer da sociedade. O próprio JK ancorava sua lancha Gilda no Iate Clube de Brasília. Hoje, o busto do patrono está lá estampado na praça principal. Também foi ele o primeiro sócio e presidente de honra do Minas Brasília Tênis Clube.

Mais de meio século depois, os clubes continuam fiéis ao propósito do fundador de Brasília. Além de fonte de amizades e de relaxamento, tornaram-se um investimento e um patrimônio material. Aos finais de tarde, não são raros os encontros dos sócios mais antigos nas dependências das associações, que se dividem entre o setor sul, norte e militar urbano da cidade. Ao todo, segundo o Observatório do Turismo da Universidade de Brasília, estão inventariados 13 clubes, que, nas últimas décadas, buscaram se reinventar para manter atualizada a carta de sócios, principalmente os mais novos.

Todos os anos, cerca de 900 mil pessoas passam pelas catracas do Iate Clube em busca de uma série de atrativos. Só a academia oferece cerca de 30 modalidades esportivas, incluindo ginástica localizada, dança do ventre, musculação, pilates e a sensação kangoo jump, que simula passos de canguru, com o uso de uma bota especial. A estrutura física localizada no Setor de Clubes Norte inclui, ainda, salão de sinuca, quadras de peteca, patinação, polo aquático, squash, cibercafé, salas de estudo para concurseiros, entre outras opções.

Ponto de diversão do brasiliense: o Iate Clube, onde JK ancorava sua lancha, é um dos mais badalados da cidade e recebe anualmente cerca de 900 mil pessoas (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
Ponto de diversão do brasiliense: o Iate Clube, onde JK ancorava sua lancha, é um dos mais badalados da cidade e recebe anualmente cerca de 900 mil pessoas

 
 (Arte/Encontro)
“Nos primeiros anos da cidade, as alternativas para se divertir em Brasília eram poucas”, recorda o atual comodoro – título dado ao presidente –, Edison Garcia, há mais de 43 anos frequentador e sócio do Iate. Filho de parlamentar que firmou residência no Planalto, ele conta que o conceito de clube foi, por muito tempo, o ponto de diversão do brasiliense. “Na época, o Iate Clube já era esse centro de convivência social referência na cidade”, complementa, relacionando rapidamente as lembranças a uma memória afetiva de infância.

E a referência de status ainda acompanha os frequentadores. Não à toa, há mais de duas décadas a secretaria não dispõe de títulos para vender. As transações atuais dependem de proprietários que estejam dispostos a abrir mão do privilégio (cotado em torno dos 90 mil reais) de adquirir um plano de contribuinte temporário, com validade de três anos, ou torna-se usuário do título de terceiros. Nesses dois últimos casos, as mensalidades variam entre 660 e 990 reais. “Conviver no Iate é conviver com pessoas diferenciadas”, exalta, ainda hoje, o comodoro.

Bem perto dali, o Minas Brasília Tênis Clube (MBTC) é outra opção de lazer que, atualmente, soma aproximadamente 4.500 sócios titulares. O nome é uma referência ao Minas Tênis Clube, de Belo Horizonte. “Fundado em novembro de 1960 por um grupo de pioneiros que ajudou a construir a capital federal, o MBTC é, hoje, uma das instituições de esporte, cultura e lazer mais tradicionais da cidade.” A constatação é de Clarival Rocha, mais conhecido como “Liliu”, assessor da presidência do clube. Para quem deseja fazer parte do quadro de sócios, o título proprietário está disponível ao valor de 9 mil reais, podendo ser parcelado em até 30 vezes.

A estrutura do clube o tornou um local de tradição esportiva no cerrado. Ao todo, são quatro piscinas – uma olímpica, uma semiolímpica e duas infantis –, uma academia de ginástica e outra de boxe (do pugilista Popó), além de aulas de tênis, hidroginástica, natação, futevôlei, polo aquático, vôlei e futsal.  “Temos um dos melhores campeonatos de futebol amador do Brasil, que vai da categoria pré-mirim até a dos cinquentões”, orgulha-se Liliu. Para ele, os clubes ainda são, genuinamente, pontos de encontro. “Temos adeptos de modalidades que frequentam aqui há mais de quatro décadas”, conta. E menciona o movimento de retomada do prestígio que esses espaços tinham há não muito tempo. “Com toda essa gama de opções, os jovens voltaram a prestigiar o Minas Brasília Tênis Clube.”

A secretária executiva Daniela Padilha associou-se há dois anos. Casada e mãe de duas crianças, ela destaca a segurança do Minas para ter se tornado uma frequentadora ativa, porém discorda da alta rotatividade de jovens. “Os clubes se mantêm como ponto de encontro para os mais velhos, que são mais assíduos”, acredita. Com a família, ela se inclui nessa parcela. “Principalmente depois que descobri que, aos sábados e domingos, que o clube oferecia aulas gratuitas de hidroginástica”, recorda, sobre a primeira atividade que a atraiu.

Hidroginástica foi a primeira atividade do Minas que atraiu a sócia Daniela Padilha: ela curte o clube com a família quase todo fim de semana (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
Hidroginástica foi a primeira atividade do Minas que atraiu a sócia Daniela Padilha: ela curte o clube com a família quase todo fim de semana

Atualmente, Daniela prefere caminhar ao ar livre tranquilamente pelas dependências do clube, enquanto os filhos curtem a piscina. “A primeira coisa que faço quando chego, após pegar uma mesa, é a caminhada. Depois, continuo no clube, até seis, sete horas da noite, dependendo do sol”, conta sobre a rotina estabelecida em pelo menos dois fins de semanas por mês.

Já quem imagina a Associação Atlética Banco do Brasil (AABB) como um clube classista está bem enganado. “No início, o nosso ambiente era fechado para funcionários do Banco do Brasil. Hoje, ele é aberto à comunidade e os novos sócios são bem-vindos”, explica José Augusto de OIiveira, vice-presidente de patrimônio. Fundada dois meses antes da inauguração de Brasília, em fevereiro de 1960, a AABB-DF oferece seis piscinas, incluindo uma olímpica com aquecimento, uma semiolímpica e outra integrada à sauna, fora o toboágua. Além da tradição, em especial, no futebol, pela qual sediam um campeonato de peso envolvendo 155 equipes, o clube tem se destacado pelas atividades envolvendo o lago Paranoá. “A náutica, hoje, é nosso terceiro fator de faturamento”, revela Felipe Pinheiro, administrador da sede brasiliense. Contratado no fim de 2015, o especialista em finanças foi convidado para integrar o quadro de funcionário da associação justamente para atualizar a gestão do local, com percepções do mercado atual. Segundo ele, a náutica se destaca por ser um dos mercados em que se tem uma renda quase fixa. “Todo barco tem um custo para ser deixado”, completa, citando o valor inicial de 280 reais, que segue com uma fila de espera de cerca de 50 embarcações.
 
O presidente Nelson Vieira e o vice-presidente José Augusto, em frente a uma das piscinas da AABB-DF: novos sócios são bem-vindos (Minervino Júnior/Encontro/DA Press)
O presidente Nelson Vieira e o vice-presidente José Augusto, em frente a uma das piscinas da AABB-DF: novos sócios são bem-vindos

“A AABB, antigamente, era subsidiada pelo Banco do Brasil. Há muito anos não é mais. Hoje ela sobrevive sozinha”, conta o administrador que tem tido a missão de dar um contexto empresarial ao conceito social. Para isso, o clube tem apostado na frente de eventos. “Antes, o clube esperava os produtores virem, hoje vai em busca”, pontua Felipe Pinheiro pouco antes de anunciar uma equipe comercial responsável por alavancar os três espaços majoritários – Salão Principal, Bangalô e Pérgola – como ambiente para formaturas, festas e, não raras vezes, grandes shows com artistas de projeção nacional.
 
A náutica, hoje, é o terceiro fator de faturamento da AABB-DF, de acordo com Felipe Pinheiro, administrador do clube (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
A náutica, hoje, é o terceiro fator de faturamento da AABB-DF, de acordo com Felipe Pinheiro, administrador do clube
 
Em pleno coração do Plano Piloto, entre as quadras 107/108 e 307/308 Sul, está o clube-modelo pensado por Lucio Costa. Com a construção e o crescimento da nova capital do país, entretanto, a ideia de propagação ficou apenas no papel. Inicialmente pensado para atender o quadrilátero de superquadras que o cerca, o Clube Social da Unidade de Vizinhança nº 1 abriu-se também para a comunidade como um todo. “É um oásis no deserto”, define Luiz Fernando Baldez sobre um dos raros clubes não localizados à beira do lago. Vice-presidente, ele afirma que a localização central conta muitos pontos a favor. “Hoje, com as distâncias, com trânsito, bafômetro, a pessoa prefere vir aqui, que tem o metrô logo atrás.”

Baldez é defensor da teoria de que o público dos clubes vem mudando. “A faixa etária antes era bem alta. Hoje não, isso já mudou muito”, diz. De acordo com o representante, a mudança vem ocorrendo especialmente por conta da adesão dos sócios mais jovens ao leque esportivo que oferecem.

Mesmo com pouca idade, Théo Ferreira faz parte dessa nova geração. Com 9 anos de idade, ele passa pela catraca da entrequadra três vezes por semana, quando pratica as escolinhas de tênis e futebol. O pequeno começou a frequentar o clube na companhia dos pais, que acabaram deixando de ser sócios, mas segue frequentador ao lado do avô, que possui um título. Mais democrático que a maioria, o Vizinhança oferece joia a apenas 500 reais, enquanto durante todo o mês de abril de cada ano – período de aniversário da sede – deixa-a isenta. Para Théo, a vantagem principal está em encontrar diversas modalidades em um único lugar, sem precisar se deslocar muito. “Tem várias opções que você pode fazer: futebol, tênis, natação”, lista facilmente enquanto brinca com a bola na raquete. “E fica mais fácil para mim porque é do lado da minha casa.”
 
Théo Ferreira faz parte da nova geração de frequentadores do clube da Vizinhança: elogio às várias modalidades esportivas disponíveis (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
Théo Ferreira faz parte da nova geração de frequentadores do clube da Vizinhança: elogio às várias modalidades esportivas disponíveis

Antes também voltado a atender um público específico, o Clube do Exército já há alguns anos vai além do corpo militar na sua lista de associados. Com uma sede no Setor Militar Urbano e outra na orla sul do lago Paranoá, o conceito construiu perfis bem diferentes, e o segundo endereço acabou ganhando maior adesão. Construído em 1977, o local ocupa quase 1.500 m² divididos entre estrutura principal de salão, área de lazer e espaço para esportes com um complexo de 13 quadras de tênis, destaque no clube. “É um dos melhores da América Latina”, orgulha-se o coronel Amadeu Façanha, diretor da modalidade.

Conscientes da concorrência que esses ambientes ganharam nas últimas décadas, principalmente com o boom dos shoppings e dos condomínios fechados, os representantes da diretoria militar vêm trabalhando para a atualização. “O clube não pode ser uma opção de fim de semana”, defende o coronel Augusto Perez. Para oferecer e criar demandas, eles apostam em atividades do dia a dia para os visitantes. “Os clubes são altamente viáveis, principalmente nessa era de alimentação saudável e interesse por esportes”, destaca Amadeu.  Não por acaso, eles levaram o beach tênis e o crossfit para a sede do lago. “Como hoje o clube é uma tribo, você tem de captar o que vem por trás dela”, observa.
 
'O complexo com 13 quadras de tênis é um dos melhores da América Latina', destaca o coronel Amadeu Façanha (esq.), junto dos também diretores Ricardo Alonso e Augusto Perez (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
"O complexo com 13 quadras de tênis é um dos melhores da América Latina", destaca o coronel Amadeu Façanha (esq.), junto dos também diretores Ricardo Alonso e Augusto Perez
 
Para o educador físico e professor de crossfit Frederico Nobre, a modalidade faz sucesso em específico no Clube do Exército. “Esse ambiente é o nosso carro-chefe. É isso o que vendemos”, diz, apontando para o espaço com natureza em volta. A professora que o acompanha completa a lista: “O estacionamento, a área verde para corrida. O espaço que temos dentro é de 100 m², mas, na verdade, nós temos o espaço do clube inteiro para usar”, pontua Annamaria Lopes.
 
Frederico Nobre e Annamaria Lopes são professores de crossfit no Clube do Exército: área ampla e propícia para se exercitar (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
Frederico Nobre e Annamaria Lopes são professores de crossfit no Clube do Exército: área ampla e propícia para se exercitar
 
Distante 22 km do Plano Piloto, é o Brasília Country Club que aparece como opção de refúgio em meio à natureza. Com 184 hectares, a associação referência pelo trabalho desenvolvido no hipismo possui mais da metade de sua área de preservação ambiental. Com nascentes dentro da propriedade e trilhas, além de viveiro com plantas de mais de 100 espécies, o local tornou-se um anexo verde da cidade de concreto. “É o grande diferencial”, afirma, sem titubear, o secretário geral, Marcelo Lacerda. “Dependendo do horário, podemos ver macacos, papagaios, preguiças”, lista.

Com o clássico espaço de lazer com piscinas e churrasqueiras, o clube mantém a tradicional festa junina, data de maior público do clube, que abre para qualquer visitante durante os fins de semana. Aos sábados, o prato do dia é a feijoada à la carte, servida no restaurante do complexo. Para o presidente, Francisco Julho de Souza, os clubes têm voltado a encher principalmente devido ao orçamento mais apertado em meio à crise do país. “Quem tem o clube tem tudo o precisa para descansar”, diz.

Jana Portela frequenta o espaço há um ano por conta da prática do hipismo. “Eu moro no Park Way com os meus pais e um dia eles saíram para dar uma volta de bicicleta e acabaram entrando no Country”, conta. O encanto do casal foi imediato e chegou até a jovem. Para ela, cavalgar em meio ao verde foi o grande trunfo na hora de se matricular. “Tem uma pista de escola, uma de adestramento, uma de treino, uma de prova, uma pista coberta. A maioria das hípicas não tem isso”, pontua o instrutor de equitação do clube Leonardo Dornas.
 
O presidente do Country Club, Francisco Julho de Souza, diz que os clubes têm sido bastante frequentados: 'Quem tem o clube, tem tudo o precisa para descansar'. Jana Portela mora no Park Way e pratica hipismo no Country Club: encanto imediato
 (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
O presidente do Country Club, Francisco Julho de Souza, diz que os clubes têm sido bastante frequentados: "Quem tem o clube, tem tudo o precisa para descansar". Jana Portela mora no Park Way e pratica hipismo no Country Club: encanto imediato
 
Outro ponto de orgulho é a sede da Fazenda Gama, local que recebeu Juscelino Kubitschek em 1956, quando veio conhecer o local que daria lugar ao Catetinho, e hoje é tombado como patrimônio histórico de Brasília. Parte do Country, ali o presidente também era considerado sócio honorário, criando uma quase onipresença na opção de lazer brasiliense mais tradicional de todas.
 
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EDIÇÃO 58 | outubro de 2017