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ENTREVISTA | Carlos Madson Reis »

"Esta não é uma cidade intocável"

A solução para driblar os problemas que Brasília enfrenta hoje vem da criatividade de seus habitantes, na opinião do diretor do Iphan-DF. Segundo ele, o tombamento não engessa a cidade: "Isso é um mito"

Paloma Oliveto - Publicação:02/05/2016 14:12Atualização:02/05/2016 14:40
 (Raimundo Sampaio/ Encontro/ DA Press)
 
Na primeira vez em que Carlos Madson Reis esteve em solo candango, Brasília era outra cidade. Em plena ditadura militar, aqueles eram tempos áridos. Especialmente para os jovens estudantes de arquitetura e Urbanismo da UnB, faculdade tradicionalmente contestadora, que teve forte atuação contra o regime repressor. Com professores expulsos e exilados, o curso chegou a contar com apenas 10 mestres. Devido à falta de disciplinas ofertadas, foram seis anos para conseguir o diploma, no lugar dos cinco previstos. “Mas sobrevivemos”, diz Madson, que, décadas depois, vive em outra Brasília – mais livre e democrática, mas ainda cheia de problemas. Apaixonado pela cidade, o superintendente do Iphan no DF mudou-se para o Maranhão após a formatura, mas retornou em 1985. Aqui, nasceram os três filhos, “meus melhores projetos”, na definição do arquiteto. Daqui, não sai mais. Para o futuro, o morador da SQS 108 espera uma Brasília solidária, que permita aos seus moradores se deslocarem sem os impedimentos do transporte deficitário ou das calçadas quebradas. Em entrevista a Encontro Brasília, ele lembra que a cidade tombada não é intocável – “A cidade é um organismo vivo, ela muda a todo instante” – e critica erros de gestão que, há anos, deixam insolúveis problemas para os quais já existem normas e leis.

Encontro: Como era estudar arquitetura em plena ditadura militar?
Carlos Madson Reis: Foi uma época muito difícil. Foram tempos de greves, invasão da universidade... A arquitetura sempre foi uma área mais de resistência, sempre teve o papel de se contrapor ao que estava Estabelecido. E, com isso, sofremos muita represália. Mas sobrevivemos, aquela luta valeu a pena, mesmo com as dificuldades que vieram depois, que são inerentes a qualquer processo de desenvolvimento da humanidade. Todas as sociedades passaram por momentos muito difíceis e nós estamos ainda neste momento. Eu sempre falo para os colegas mais jovens que os tempos nossos parecem bem mais difíceis, mas hoje não temos noção da liberdade que temos, de poder falar o que queremos, de contestar, ir para a rua bater panela, criticar, e não ser reprimido.

E:
O senhor considera Brasília uma cidade funcional?
CMR: Dentro do contexto brasileiro, Brasília é uma cidade com um grau de funcionalidade grande, comparando a outras capitais. Ela se destaca pela qualidade de seu espaço, sobretudo na área tombada. Taguatinga, por exemplo, está entre os 20 maiores municípios brasileiros e tem serviços muito bons, que outras cidades desse porte não têm. Na escala do urbanismo brasileiro, Brasília está em uma posição muito alta, mas isso não quer dizer que seja satisfatório. Nós temos um problema seriíssimo de mobilidade urbana no Distrito Federal e Entorno. Em que pese 56 anos, isso está muito mal equacionado. Os novos meios de transporte são muito pouco utilizados. Só temos o metrô, que transporta 150 mil passageiros por dia, com demanda de 4 milhões de pessoas. Nós já somos a quarta metrópole brasileira, e o metrô tem praticamente um trecho só, o que é muito pouco.

E: Falta interesse de empresas privadas em investir no setor de transporte urbano?
CMR: O que acontece é que se cobra muito do setor público esse tipo de investimento. A inciativa privada, no Brasil, corre um risco muito pequeno de investimento. Acho que haveria interesse, sim, se tivesse regras claras, objetivos definidos. O que falta mesmo é definir com clareza esses critérios. Por exemplo, o nosso aeroporto é o segundo do país em movimentação. As regras foram colocadas, uma empresa pegou a administração e o aeroporto deslanchou. O Estado não tem condição e nem deve ter esse tipo de responsabilidade. Mas é bom deixar claro que o setor privado requer sempre investimento público. Fala-se muito de liberdade de investimento, mas não se faz.

E: Algumas discussões locais parecem eternas, como a revitalização da W3 Sul, a lei dos puxadinhos, a mureta do Eixão. Tem algum avanço nessas questões?
CMR: É verdade, essas discussões surgem e depois somem da mídia. A W3 é um belo exemplo para a inciativa privada investir. Mas ela só vai investir se sentir segurança nesse investimento e o Estado tem de demonstrar isso. O problema da W3 não é só uma questão de desenho, de projeto. A avenida é uma área que, como em toda cidade do mundo, passa por um esvaziamento, isso é normal. Mas o que aconteceu é que o tipo de comércio que se instalou lá perdeu o sentido de existir. Apesar de estar havendo uma tendência de reversão dos shopping centers, que estão fechando no mundo todo, em Brasília essa demanda por shopping continua. Com isso, drenou-se todo esse comércio que estava na W3. E o comércio da população que usa shoppings se sofisticou. É uma população com alto poder de compra, que pega um avião aqui e sete horas depois está em Miami. Fala-se muito de fazer na W3 centros culturais, bares, centros de lazer, mas isso também é insustentável. Nós temos muitas áreas de lazer na cidade para esse tipo de atividade e que estão abandonadas, seria melhor investir nessas áreas. A W3 é imensa, tem 15 km de extensão. Então não é uma única atividade que vai resolver o esvaziamento.

E: Qual é a Brasília que o senhor quer?
CMR: Como cidadão, penso primeiro em uma cidade mais igualitária, mais justa, prazerosa, que tenha mais mobilidade, segurança, serviços que funcionem. Embora a cidade ferva culturalmente, nós temos uma carência de espaços culturais muito séria. O Teatro Nacional está fechado. A 508 Sul está fechada. O Museu da República sobrevive a duras penas, por esforço quase pessoal do diretor. Quero uma cidade onde possamos alcançar um estágio de civilidade maior. Estamos num estágio de respeitabilidade muito aquém do que precisamos. E tem o processo de gestão de cidade. Falta entender que a cidade não é só o Plano Piloto, que demanda muito esforço, recursos, investimentos. E esses investimentos têm de ser priorizados. Por exemplo, fizemos um estádio que custou mais de 1 bilhão de reais, para não ser usado. Sabíamos disso. Agora temos de pensar o que fazer com isso aí. É possível fazer muita coisa? Sim, mas precisamos ser criativos.
 
 
'O Eixão tem uma lógica absurda: o carro fica em cima, todo soberano, com segurança, e o ser humano fica embaixo, com uma passagem escura e insegura' (Raimundo Sampaio/ Encontro/ DA Press)
"O Eixão tem uma lógica absurda: o carro fica em cima, todo soberano, com segurança, e o ser humano fica embaixo, com uma passagem escura e insegura"
E: Quais os principais problemas de Brasília atualmente?
CMR: Esta não é uma cidade sagrada, em que não possamos tocar em nada. É uma cidade que, tanto quanto as demais, merece respeito, merece ser cuidada. Ela tem muita qualidade urbana e muitos problemas, muitos vazios, o que encarece demais a manutenção. Ela tomou algumas opções equivocadas, ainda tem uma linha rodoviarista muito forte... A discussão do Eixo, por exemplo, ainda parece muito anacrônica, no meu ponto de vista. Cidade nenhuma no mundo tem autopista cortando no meio. Nós, do Iphan, estamos procurando discutir isso e fomos muito mal interpretados quando dissemos que a velocidade do Eixo poderia ser 60 km/h. Aliás, já foi 120 km/h quando cheguei aqui, depois foi 100 km/h, aí foi para 80 km/h. A 80 km/h, não há nenhum acidente que não seja fatal. Isso quem está dizendo não é o Iphan, são estudos técnicos. Quando queremos discutir isso, parece que estamos agredindo a cidade, e não é isso. Nós temos uma cidade partida. A parte Leste não conversa muito com a Oeste. É um absurdo uma pessoa que mora, por exemplo, na 105 Sul e tem seu cabeleireiro na 205 ter de pegar um carro para ir lá, porque ele não consegue atravessar. Ela tem de ir por uma passagem subterrânea, o que é um absurdo. Em nenhum lugar do mundo a passagem subterrânea funciona dessa forma. Quando se tem, são trechos pequenos, muito adensados, e com mais segurança. É uma lógica absurda, deixar o carro em cima, todo soberano, com segurança e o ser humano, o cidadão, enfiado embaixo de uma passagem escura e insegura.

E: E a proposta de colocar uma mureta no Eixão, para evitar acidentes?
CMR: Recentemente, a nova administração do Detran voltou com essa proposta de colocar a mureta. Essa é uma coisa superada, anacrônica. Nós temos de pensar em novas soluções. Nós temos de pegar essa via, que ainda é uma estrada, e transformá-la em uma via urbana, onde é em qualquer lugar do mundo. Estive no ano retrasado na Holanda, onde a velocidade no centro é 20 km/h. Lá tem muito carro, mas o carro não é prioridade. Primeiro vem o cidadão. É o pedestre, depois a bicicleta, a moto, o transporte coletivo e, por último, o carro. Será que se propiciar uma travessia no Eixo valoriza a cidade? Eu acredito que pelo contrário. A linha rodoviarista urbana está superada na história, temos de enxergar isso. Todas as cidades estão reduzindo os carros. Paris quer reduziu 25% de seus veículos. Como eles estão fazendo isso? Estimulando as pessoas a andar. Estão incentivando, sendo criativos. Não há uma bala de prata, uma única solução, um grande projeto revolucionário. Isso não existe. O que existe é muito trabalho e ideias.

E: O que poderia ser feito nesse sentido?
CMR: Aqui é um lugar excelente para andar de bicicleta. É uma cidade plana, com pouco declive e aclive. A construção de ciclovias com qualidade é ótimo, melhora. É óbvio que nem todo mundo vai andar de bicicleta, esse é mais um modal. Você tem o pedestre também, e precisa melhorar a caminhada dele, dar caminhos seguros, confortáveis. Quem anda hoje pelas nossas quadras vê pisos quebrados. São Paulo está dando um exemplo fantástico para o Brasil. A prefeitura está devolvendo espaços para o pedestre. O Plano Diretor de Transporte Urbano de Brasília existe, é muito bom, mas ele não é implantado, está pela metade. Por exemplo, nós temos um problema imenso que é o uso da Rodoviária Central. Ela recebe hoje cerca de 700 mil pessoas por dia. A cidade era pensada para 500 mil. Temos um único equipamento que recebe 700 mil. A população que vai para lá já chega cansada. É quem sai de casa às 5h para trabalhar. O Plano Diretor previa o bilhete único, os terminais estrategicamente localizados, e isso não foi implantado. Hoje temos um terminal funcionando embaixo do Touring. Muita gente falou: “Nossa, um prédio tombado virou isso!”. Mas ali era um posto de gasolina! Agora está improvisado? Está. O projeto foi malfeito? Foi. Por que o Iphan autorizou o funcionamento provisório enquanto a solução definitiva, que é a aplicação do Plano Diretor de Transporte Urbano? Porque se não fizéssemos isso íamos mais uma vez penalizar uma população que já é penalizada. Ela teria de pagar dois bilhetes para chegar a seu local de trabalho. Essa nem é responsabilidade do Iphan, mas de gestão urbana.

E: O tombamento não engessa a cidade?
CMR: O tombamento não engessa nada, isso é um mito. Ele define os critérios para preservar o bem. Isso não impede que ele possa sofrer uma intervenção, uma restauração. E, quando se trata de cidade, isso é mais evidente. Porque a cidade é um organismo vivo, ela muda a todo instante. A Brasília que vivi aqui em 1972 é completamente diferente da que estamos vivendo, que é diferente da de 2010 e vai ser diferente em 2017. A sociedade se movimenta, os interesses mudam, desejos surgem.

E: Parece que essa nova geração de jovens está desafiando esse mito da cidade intocável...
CMR: Felizmente! A cidade é dos seus moradores. Eles estão ocupando a cidade, estão dando uma lição. E se a classe dirigente souber aproveitar, nós vamos ter uma cidade muito melhor que temos hoje. Meus filhos fazem isso, estão na rua, andam de bicicleta, fazem seu rolezinho, fazem suas coisas. Cada geração se apropria do espaço de uma forma diferente. Eu vejo de forma extremamente positiva essa ocupação que o jovem faz do espaço público brasiliense hoje. Se nós soubermos aproveitar essa energia, acho que teremos uma cidade muito melhor.

'Eu vejo de forma positiva
 essa ocupação que o jovem
 faz do espaço público hoje. 
Se nós soubermos aproveitar 
essa energia, teremos uma 
cidade muito melhor' (Raimundo Sampaio/ Encontro/ DA Press)
"Eu vejo de forma positiva
essa ocupação que o jovem
faz do espaço público hoje.
Se nós soubermos aproveitar
essa energia, teremos uma
cidade muito melhor"
E: Qual a sua opinião sobre a polêmica em torno da Lei do Silêncio?
CMR: Acho que é um desafio que a sociedade tem de enfrentar. De certa forma, é um falso dilema, porque em qualquer lugar do mundo, ao fazer um investimento em um bar, você tem de pensar na sua vizinhança. E isso está na lei. Aliás, esse codinome Lei do Silêncio é horroroso, porque ninguém está impedido de colocar som. Está impedido de colocar um som que prejudique a vizinhança. E, para isso, tem níveis de sonoridade que estão calculados e definidos em lei. Por que não se segue? Não seguindo, gera conflito, gera incômodo. E incomoda mesmo. Quando se mora atrás de um bar, 3h da manhã ouvir música com uma criança de 1 ano querendo dormir é um horror. Eu vivi isso. O dono do mar se acha superior aos moradores. O investimento que ele faz não dá conforto aos usuários e à vizinhança. Aqui ninguém quer cumprir nada, acha que seu direito tem de prevalecer contra o outro. É preciso criar regra de convivência. Por que esses bares não vão para a W3, por exemplo? Uma área que precisa de investimento, ou para a beira do Lago? Com a Lei dos Puxadinhos é a mesma coisa. A lei que está vigorando, se for cumprida, resolve 80% dos problemas, mas o problema é que não se cumpre a lei. Esse é um problema da gestão urbana dessa cidade, que é competência do governo local. A Lei dos Puxadinhos está há mais de oito anos para ser cumprida. Ela era improrrogável e já foi prorrogada cinco vezes, e vai ser prorrogada de novo. Ela vence em junho e não tem proposta nenhuma para substituir. Isso gera os conflitos. Aí o que acontece é que quem fez de acordo com a lei é que é penalizado.

E: O senhor diz que não quer ir embora de Brasília. Como imagina a cidade no futuro?
CMR: A história tem nos mostrado que ela é sempre uma surpresa. Nós programamos uma coisa e ela vira para um lado completamente diferente. Brasília, por exemplo, foi pensada para ser uma cidade pacata, somente administrativa, com pessoas indo de casa para o trabalho, do trabalho para casa. A cidade não é assim. Felizmente, não é assim, tão amarrada. Cada pessoa tem uma cidade na cabeça. Nós podemos até andar pelos mesmos espaços, mas eu me aproprio de forma diferente. É isso que dá o dinamismo, que enriquece. Eu imagino que daqui a algum tempo a cidade esteja mais humanizada, as pessoas estejam mais próximas, mais criativas, como gerações já demonstraram que são. Nós tivemos momentos aqui muito criativos, na música, no teatro e mesmo na vida urbana. Eu imagino uma cidade bem melhor, mais aconchegante, de mais mobilidade, mais fluidez, uma sociedade um pouco mais solidária, onde possamos conviver com o diferente de uma forma mais amistosa.
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EDIÇÃO 55 | Julho de 2017