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Bailarinas amadurecidas

Quem disse que só crianças dançam balé? Estúdios da cidade fazem sucesso ao oferecer a modalidade para adultas, que, além de retomar sonhos de infância, modelam o corpo e tonificam os músculos

Paloma Oliveto - Publicação:03/05/2016 14:27Atualização:05/05/2016 09:58
Aula de balé para adultos no Instituto de Dança Juliana Castro: entre os benefícios para o corpo, estão ganhos cardiovasculares e motores, além do trabalho de postura, flexibilidade e alongamento (Raimundo Sampaio/ Encontro/ DA Press)
Aula de balé para adultos no Instituto de Dança Juliana Castro: entre os benefícios para o corpo, estão ganhos cardiovasculares e motores, além do trabalho de postura, flexibilidade e alongamento
Plié, elevé, relevé... Quantas mulheres não guardam na memória afetiva a voz da professora de balé passando as instruções dos delicados movimentos? Há um momento da infância em que todas querem ser dançarinas. Mas, com o passar dos anos, a vida leva as pequenas bailarinas a outras direções. Viram professoras, médicas, publicitárias, engenheiras. Muitas se contentam com as boas recordações. Outras, contudo, continuam sonhando com o palco, o tutu cor-de-rosa, a sapatilha de ponta. E só se realizam quando, já adultas, criam a coragem de voltar a encarar a barra.

Toda idade é propícia à aprendizagem da dança, garante a bailarina Adriana Palowa. Há 22 anos, ela ensina balé para as mais diversas faixas etárias. “Independentemente da idade, é possível fazer um bom trabalho, desde que a aluna seja bem orientada por alguém que respeite os limites de cada uma. O mais legal é essa busca pelo desafio. Para mim, a grande recompensa é vê-las trabalhando e se superando sempre”, afirma a professora do Instituto de Dança Juliana Castro.

Que o diga a psicanalista Saionara Bracks, de 53 anos, uma das mais animadas da turma. “O balé sempre foi um sonho. Comecei quando era bem novinha. Mas, aos 8 anos, tive um problema no pé e o médico não me deixou continuar. Foi muito frustrante”, recorda. A pequena bailarina cresceu, se formou, casou, engravidou, trabalhou. “Aí, há três anos e meio, entrei para o balé. Faço em duas academias, 3h30 por dia, todos os dias da semana. Não é por eu ter 53 anos que não queira buscar a excelência. Busco a perfeição, dentro dos meus limites”, conta.

Saionara garante que a idade não interfere em nada. “Na aula, todos se igualam. Não sinto a menor diferença. É uma satisfação muito grande. No balé, a gente encontra um equilíbrio emocional enorme, vai fundo e sai leve”, relata. Os benefícios, contudo, não são apenas para a mente. Com a dança, vieram a flexibilidade e a força. “Não tenho nenhuma celulite”, orgulha-se, exibindo as pernas bem torneadas e firmes. De acordo com Adriana Palowa, entre os benefícios do balé para o corpo, estão ganhos cardiovasculares e motores, além do trabalho de postura, flexibilidade e alongamento.
Aos 53 anos, a psicanalista Saionara Bracks vai à academia todos os dias da semana: 'No balé, a gente encontra um equilíbrio emocional enorme, sai leve' (Raimundo Sampaio/ Encontro/ DA Press)
Aos 53 anos, a psicanalista Saionara Bracks vai à academia todos os dias da semana: "No balé, a gente encontra um equilíbrio emocional enorme, sai leve"

Outra professora da modalidade, Juliana Castro, que também atua em Brasília, acredita que o fascínio pela dança se justifica pela amplitude de benefícios associados aos mais diversos tipos, do balé ao sapateado. “A dança é qualidade de vida e inclusão. Ela humaniza, educa, acolhe, dá dengo. Existe, na dança, um contato que as pessoas não estão tendo mais, porque todo mundo está distante, sofrendo de depressão, síndrome do pânico”, teoriza. Ao se entregar aos movimentos ritmados, os praticantes sentem-se acolhidos, na opinião de Juliana. “A parte da autoestima e da socialização é muito importante”, observa.

'O balé mexe com o imaginário.
Só de colocar a meia, a saia,
o collant e fazer o coque, elas já 
se sentem bem realizadas', constata
Taís Felippe, ao lado da aluna Allyne
Vieira Araújo' (Raimundo Sampaio/ Encontro/ DA Press)
"O balé mexe com o imaginário.
Só de colocar a meia, a saia,
o collant e fazer o coque, elas já
se sentem bem realizadas", constata
Taís Felippe, ao lado da aluna Allyne
Vieira Araújo"
As dançarinas e professoras Taís Felippe e Rany Luna encontraram uma forma de popularizar a ideia de que balé não é coisa só para crianças e adolescentes. Elas criaram um “aulão”, apelidado de Ballet das Benditas, que utiliza os movimentos da dança, executados com maior rapidez e mais repetições. “O gasto energético é altíssimo. As alunas falam que mexe com partes do corpo que elas nem sabiam que existiam”, brinca Taís. Por enquanto, ocorreram aulas esporádicas no estúdio Estação Ativa, mas, com o interesse demonstrado pelas alunas, a ideia é montar turmas fixas.

Taís conta que as “benditas” se divertem. “Elas se atrapalham, riem; enfim, descontraem e se superam”, conta. Mas a dançarina percebe que o que mais encanta as praticantes é ver que podem ser bailarinas, mesmo já crescidas. “O balé mexe com o imaginário. Só de colocar a meia, a saia, o collant e fazer o coque, elas já se sentem bem realizadas”, constata. Além das mulheres que jamais fizeram dança na infância, a professora recebe alunas que se dedicaram ao balé por muito tempo, mas, por motivos diversos, acabaram abandonando o palco.
 
Foi o que aconteceu com a publicitária Allyne Vieira, de 34 anos. Ela começou a dançar aos 4. Foram 21 anos de balé, que a levaram a competições, testes nas grandes companhias, apresentações profissionais, participação nos maiores festivais de dança do país. Não havia chuva ou preguiça que afastasse Allyne de sua grande paixão. Em um campeonato, porém, ela rompeu um ligamento do joelho. Fez cirurgia e teve de parar. “Nunca mais voltei a dançar como antes”, relata.

Depois da recuperação, Allyne começou a deixar o balé de lado. Fez teatro em São Paulo, estudou musical no roadway Center de Nova York e, na volta, decidiu se dedicar à publicidade. A saudade da dança, contudo, jamais a abandonou.
 
Há pouco tempo, a paixão pelo balé falou mais alto. Allyne conheceu a professora Taís Felippe e resolveu fazer aulas com ela – dessa vez, como hobby. Mesmo longe do balé profissional, ela se empolga ao falar das aulas particulares. “Só de colocar a minha roupa, fazer o coque e ouvir aquela música, já dá uma quebrada no meu dia. O balé é delicado, é feminino.”
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EDIÇÃO 58 | outubro de 2017