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GASTRÔ | CIDADES »

A era dos brew pub vem aí

A cultura cervejeira no DF já comemora: a legislação que vai facilitar a produção e venda da bebida artesanal está prestes a sair do papel

Luciano Marques - Publicação:03/05/2016 16:49Atualização:03/05/2016 17:10
Os sócios Andreas Nagl e Heide Seidler, da Candango Bräu, lutam para fomentar a produção local de cerveja: futuro promissor para a área (Raimundo Sampaio/ Encontro/ DA Press)
Os sócios Andreas Nagl e Heide Seidler, da Candango Bräu, lutam para fomentar a produção local de cerveja: futuro promissor para a área
O Distrito Federal é um dos paraísos nacionais das cervejas artesanais. Não é difícil esbarrar com um dos vários brew pubs espalhados por Brasília e Entorno, locais que produzem a própria bebida e servem ali mesmo, fresca e inovadora. As microcervejarias, então, são um caso de amor à parte. São as responsáveis por nos abastecer mensalmente com rótulos variados que ajudaram a arrebanhar ainda mais brasilienses a este universo que ganha a cada dia mais adeptos. Não podemos nos esquecer, claro, do festival de agosto, que já se tornou referência nacional e atrai turistas de todo o Brasil só para provar nossos estilos premiados. Um belo cenário, não? Pena que ainda é fictício. Ainda. Depois de alguns anos de batalha, amantes da cerveja especial finalmente conseguiram uma legislação local que vai tornar o mercado mais amigável aos empreendedores locais do malte e do lúpulo, barateando custos e oferecendo incentivos fiscais que prometem alavancar um negócio que clama para surgir no DF. O resultado disso tudo? Exatamente o panorama descrito acima. Pelo menos. A expectativa é de que os pequenos produtores da capital do país – e que não são poucos – possam despejar no mercado uma infinidade de ofertas de cerveja de qualidade a um preço infinitamente menor do que o praticado hoje.
Zeca Reino e Hilmar Raposo, diretores da ACervA Candanga, brindam a nova legislação, que vai dar impulso à abertura de brew pubs: os produtores poderão fazer e vender a cerveja no mesmo lugar (Raimundo Sampaio/ Encontro/ DA Press)
Zeca Reino e Hilmar Raposo, diretores da ACervA Candanga, brindam a nova legislação, que vai dar impulso à abertura de brew pubs: os produtores poderão fazer e vender a cerveja no mesmo lugar

A ACervA (Associação dos Cervejeiros Caseiros), que luta em todo o Brasil para fomentar a cultura cervejeira e que tem uma filial em Brasília, procurou, nos últimos anos, trazer para a capital algo que já há em alguns estados do Sul, em Minas Gerais e no Rio de Janeiro: incentivo para que pequenos produtores de cerveja possam comercializar aquilo que já fazem há anos no quintal de casa. E o deputado distrital Joe Valle, apreciador do produto e secretário do Trabalho do Governo do Distrito Federal (GDF), surgiu como o elo que faltava.

“A ideia toda começou em grupo, em meio a apreciadores de cerveja artesanal. As negociações se iniciaram em 2012 e, assim que o governador Rodrigo Rollemberg conheceu os objetivos dos empreendedores locais, abraçou a ideia. Hoje temos mais de 400 pessoas que fabricam em casa uma quantidade que vai de 20 litros a 8 mil litros por mês. Agora o GDF entra como um fio condutor, como uma mola propulsora para o desenvolvimento econômico da área, mesmo porque vai demandar muita mão de obra”, aponta Valle.
 
Joe Valle, secretário do Trabalho do GDF: 'O governo de Rollemberg entra como uma mola propulsora para o desenvolvimento econômico da cultura cervejeira no DF' (Antonio Cunha/CB/DA Press)
Joe Valle, secretário do Trabalho do GDF: "O governo de Rollemberg entra como uma mola propulsora para o desenvolvimento econômico da cultura cervejeira no DF"
Até dois anos atrás, a fiscalização e regulamentação de bebidas alcoólicas era exclusividade do governo federal. Foi então que uma modificação na lei permitiu que os estados assumissem esse trabalho. Isso coincidiu com o boom da cerveja artesanal. Os estados do Sul largaram na frente, com legislações que tornaram os seus mercados mais amigáveis para os cervejeiros de menor porte. Antes, quando um pequeno tentava instalar sua nano ou microcervejaria dentro dos planos do governo federal, sentia muita dificuldade, pois as plantas sempre eram de empreendimentos enormes. Essas novas legislações trouxeram leis locais com incentivos fiscais e outras facilidades que possibilitaram a entrada dos cervejeiros menores no mercado. Agora, os cervejeiros brasilienses estão se empenhando para fazer o mesmo no Distrito Federal.

“Nós estamos propondo nessa legislação o enquadramento dessa cerveja local como produto artesanal, com regras sanitárias adaptadas à realidade de um pequeno produtor. Além disso, incentivo fiscal, como acesso ao PróDF (programa criado pelo governo para facilitar a abertura de negócios com a geração de emprego e renda) e desconto de ICMS (Imposto sobre a circulação de Mercadorias e Serviços), por exemplo”, explica Hilmar Raposo, um dos diretores da ACervA Candanga. “Essa legislação vai abraçar dois patamares, a de microcervejaria, que seria instalada em regiões industriais e mistas, e a nanocervejaria, que poderia ser instalada em qualquer área comercial. Trocando em miúdos, a nanocervejaria seria o brew pub, aquele estabelecimento onde o produtor faz e vende a cerveja no mesmo lugar. E esses dois patamares diversificam demais a oferta do produto.”
Folhas de lúpulo e grãos de malte vão se popularizar por aqui: com o incentivo do governo à produção de cerveja especial, o mercado certamente vai se adaptar às demandas (Raimundo Sampaio/ Encontro/ DA Press)
Folhas de lúpulo e grãos de malte vão se popularizar por aqui: com o incentivo do governo à produção de cerveja especial, o mercado certamente vai se adaptar às demandas

Vale lembrar que o cervejeiro que faz cerveja em casa vai continuar impedido de vender seu produto, a não ser que ele saia da residência e monte o seu próprio espaço comercial, com todas as especificações exigidas para tal, além de licenciamentos e fiscalização dos órgãos competentes. No meio, acredita-se que a maior vitória da nova legislação será a redução de impostos. Todo o processo de montagem de uma nano ou microcervejaria demanda considerável investimento. Com as leis vigentes, o negócio seria inviável. “Hoje os impostos beiram os 60% ou 70%. A ideia é se basear na legislação de Santa Catarina, que prevê um crédito tributário que nos daria uma cobrança final de ICMS de uns 13%. O grande argumento para tal é que hoje o GDF não arrecada um centavo proveniente de cervejeiros artesanais. Se tudo der certo, dentro de poucos anos, o governo local vai receber 12% ou 13% do faturamento de quatro ou cinco microcervejarias, ou seja, vai entrar uma contribuição que antes não existia”, explica o diretor da ACervA, que ainda acrescenta: “O DF tem uma faixa de renda alta, o que torna a capital do país um mercado extremamente promissor para esse novo mercado. E essa nova legislação vai baratear o preço da cerveja especial. Mais pessoas vão consumir, abrirão mais brew pubs e esse universo cervejeiro vai crescer ainda mais por aqui.”

A minuta do projeto foi produzida pela ACervA e recentemente entregue à Secretaria do Trabalho, Desenvolvimento Social e Direitos Humanos do GDF. Vários interessados nesse mercado foram ouvidos e o governador Rodrigo Rollemberg promete encaminhar o projeto de lei para tramitar na Câmara Legislativa em breve. “Nossa parte foi feita. Entregamos a minuta e as razões que explicam o porquê desse mercado de cerveja artesanal no DF. Conversamos com vários associados que têm veia empreendedora e, pelo menos, seis grupos se interessaram em montar um negócio assim que a nova legislação entrar em vigor. Ou seja, o brasiliense pode esperar por novidades”, aposta Zeca Reino.
Ao que tudo indica, a criação da legislação é apenas o começo para este novo mercado no DF. A expectativa é fomentar ainda mais a cultura cervejeira no Planalto Central com a construção de um polo de produção e uma festa que tem tudo para se tornar referência, como já acontece em Blumenau (SC), palco do Festival Brasileiro de Cerveja.
A Máfia Beer está à espera das mudanças para produzir 8 mil litros de cerveja especial por mês, de acordo com os sócios Marcos Aurélio de Faria e Daniel Jonas de Souza  (Raimundo Sampaio/ Encontro/ DA Press)
A Máfia Beer está à espera das mudanças para produzir 8 mil litros de cerveja especial por mês, de acordo com os sócios Marcos Aurélio de Faria e Daniel Jonas de Souza

 “A ideia é construir um polo de produção no Gama. Lá será possível reunir, com mais facilidade, todos os interessados nesse mercado”, explica Joe Valle.
Além da criação do polo e dos brew pubs, uma das investidas que mais devem agradar ao brasiliense é a festa que deve ser realizada anualmente, provavelmente em agosto. Algo que promete atrair apreciadores de todo o país com rótulos novos, concurso de cervejas locais e o que há de melhor da culinária candanga. “É uma frente de trabalho, ao lado da Abrasel-DF (Associação Brasileira de Bares e Restaurantes). A intenção é oferecer uma festa com os melhores produtos que temos no DF”, diz Thiago Jarjour, secretário adjunto do Trabalho.
É importante destacar que tem pouco tempo que a cerveja artesanal virou moda no Brasil. Diversos brasilienses descobriram recentemente que existe algo bem além daquela pilsen do boteco – todas com o mesmo gosto, independente da marca. Mas a bebida especial, obrigatoriamente produzida com matéria-prima selecionada, ainda é muito cara. Isso, segundo alguns especialistas locais, tem tudo para mudar com a nova legislação.

Muitos que apreciam a cerveja artesanal no DF sentem no bolso este problema e, então, fazem a bebida em casa. Acredita-se que hoje mais de 500 brasilienses – e seus amigos – bebem a cerveja produzida no quintal. Se antes pagavam entre 15 e  20 reais num rótulo estabelecido no mercado, passaram a gastar cerca de 5 reais para consumir algo igualmente bom. Só na ACervA são 85 associados, muitos deles fazendo, em média, de 20 a 200 litros por mês. “No momento em que os apreciadores se descobrirem empreendedores capazes de fazer um bom produto e que puderem se valer da nova legislação, muitos vão querer entrar no mercado”, diz Hilmar Raposo, que ressalta que governo, empresários e consumidores vão lucrar: “Todos saem ganhando”, diz.

O proprietário de um pequeno bar na Asa Norte chamado 400quatrocentos, Tonico Lichtsztejn, fabrica cerveja em casa e enxerga nesse novo mercado uma oportunidade. “Com a nova legislação e o ponto já estabelecido, posso aumentar o bar e tornar isso aqui um brew pub”, vislumbra. O analista de sistemas André Braga, amigo de Tonico, também produz e está otimista: “Hoje nossa cerveja é só para os amigos por falta de regulamentação, mas queremos levar nosso produto para outras pessoas”, conta André.

Enquanto alguns pensam pequeno – e não há nada depreciativo nisso –, outros estão preparados para alçar voos altos. Marco Aurélio de Faria começou a fazer cerveja em casa há sete anos e em 2012 inaugurou a Máfia Beer, idealizada como cervejaria escola. Hoje a Máfia está pronta para produzir 8 mil litros por mês. “Já demos o pontapé inicial na fábrica, que vai funcionar em São Sebastião. Finalmente teremos aqui o cenário que sempre imaginávamos”, conta Marco Aurélio, que, ao lado do sócio, Daniel Jonas de Souza, vai colocar a fábrica para funcionar a todo vapor assim que a legislação vigorar.
Tonico Lichtsztejn e André Braga estão otimistas com a lei: 'Hoje nossa cerveja é só para os amigos por falta de regulamentação, mas queremos levá-la a outras pessoas', diz André (Bruno Pimentel/ Encontro/ DA Press)
Tonico Lichtsztejn e André Braga estão otimistas com a lei: "Hoje nossa cerveja é só para os amigos por falta de regulamentação, mas queremos levá-la a outras pessoas", diz André

Um dos pioneiros no incentivo de produção de cerveja caseira no DF é o alemão Andreas Nagl. De tanto os amigos perguntarem como produzia, o mestre cervejeiro teve a ideia de abrir a Candango Bräu, onde atualmente ministra cursos de brasagem e tem uma loja de materiais e insumos. Ao lado de Heide Seidler, Andreas fundou a ACervA Candanga (Associação dos Cervejeiros Artesanais do Distrito Federal) e há anos eles lutam para fomentar a produção local. Heide acredita que a nova lei vai ajudar na criação de um mercado cervejeiro no país: “Acho que em uns cinco anos o público que gosta de um produto selecionado, hoje na faixa de 5%, pode chegar a 15%”, aposta a sócia da Candango Bräu.

E se engana quem pensa que esse universo atrai somente homens. Num sábado de março, as amigas Tatiana Rotolo, Alessandra Távora, Elayne Tavares, Marta Ibañez e Vanessa Cordeiro se reuniram ao redor de uma panela para produzir uma american brown ale. “Nós nos conhecemos em fóruns na internet. Fomos descobrindo aos poucos quem fazia cerveja por aqui e produzir a bebida era como montar um foguete no quintal e ir para a lua. Não existiam lojas de equipamentos e insumos como hoje, nem mesmo o Youtube, com pessoas de todo o mundo mostrando como fazer”, conta Tatiana, que começou a produzir em 2009 e se tornou umas das precursoras na arte do malte e do lúpulo por aqui. “Nós já viramos referência no nosso meio de convívio, entre amigos, familiares. Acabamos nos tornando formadoras de opinião e já vamos a festas levando nossa própria cerveja”, conta Vanessa.
Vanessa Cordeiro, Marta Ibañes, Tatiana Rotolo, Elayne Tavares 
e Alessandra Távora se reúnem com frequência para fabricar a própria cerveja: universo também aberto a mulheres (Raimundo Sampaio/ Encontro/ DA Press)
Vanessa Cordeiro, Marta Ibañes, Tatiana Rotolo, Elayne Tavares e Alessandra Távora se reúnem com frequência para fabricar a própria cerveja: universo também aberto a mulheres
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EDIÇÃO 58 | outubro de 2017