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CULTURA|Fotografia »

O mundo a um clique

Dois fotógrafos premiados organizam viagens nacionais e internacionais para entusiastas da arte de registrar imagens- além de oferecer cursos para quem quiser ver Brasília por diferentes ângulos

Sara Campos - Publicação:06/05/2016 13:31Atualização:06/05/2016 14:01
João Paulo Barbosa e Olivier Boëls estão à frente da Ashram Galeria: a experiência de fotografar em vários países os levou a oferecer cursos diferenciados para brasilienses (Raimundo Sampaio/ Encontro/ DA Press)
João Paulo Barbosa e Olivier Boëls estão à frente da Ashram Galeria: a experiência de fotografar em vários países os levou a oferecer cursos diferenciados para brasilienses
Avistar geleiras a poucos metros, percorrer o deserto sem saber ao certo aonde vai chegar, sentir o cheiro das famosas ervas de Provence, no Sul da França. Acontecimentos que emoldurariam capítulos de livros de aventura ou locais que poderiam compor verdadeiras cenas de longa-metragens fazem parte do cenário de trabalho da dupla de fotógrafos João Paulo Barbosa e Olivier Boëls, amantes de viagens pelo mundo que colecionam belas imagens como testemunhas.

A paixão por conhecer novos lugares conferiu à dupla parcerias de sucesso: a mais duradoura delas, a Ashram Galeria, na Asa Norte, dedica-se a reunir obras dos fotógrafos e organizar viagens para entusiastas da arte que ganhou força durante a Revolução Industrial, no início do século 20. “Nossa missão no mundo é compartilhar o amor que temos por uma viagem”, ressalta João Paulo Barbosa.

Depois de determinar qual o próximo destino, a dupla sempre planeja uma vivência fotográfica abrangendo o roteiro que seguiria usualmente. A experiência de 20 anos na estrada proporcionou confiança suficiente aos profissionais para pensar a viagem com o olhar fotográfico. João Paulo Barbosa e Olivier Boëls conhecem aproximadamente 20 países, resultado de andanças ao redor do mundo. Tantas experiências renderam prêmios importantes a eles, como o National Geographic para Barbosa, em 2011, e World Press Photo para Boëls, em 2000.

“Conforme o país, sabemos o que pode funcionar melhor fotograficamente. Sempre viajamos pensando em como fotografar. Há destinos onde é melhor fazer viagens de trem. Outros, é melhor viajar de carro. Todos esses detalhes contam na hora de programar o roteiro”, destaca João Paulo Barbosa. Apesar da experiência dos profissionais, assim como qualquer viagem, imprevistos podem acontecer. Mesmo com o extenso currículo de países que fogem do circuito turístico convencional, é possível traçar diferentes perfis de fotógrafos viajantes de acordo com o destino escolhido.

O interesse pela aventura despertou a curiosidade da jornalista Ana Cecília Paranaguá. Após ter feito dois cursos com a dupla, ela marcou a primeira viagem fotográfica em outubro do ano passado. Malas prontas com destino a poucos quilômetros da capital: Pirenópolis. “Foi uma viagem para fotografar e botar em teste tudo o que eu tinha aprendido antes nos cursos com eles. Nas saídas noturnas, por exemplo, se não conhecemos as ferramentas e técnicas, fica complicado fazer fotos bacanas sem o uso do flash. É tudo muito experimental”, ressalta ela, que afirma que a inclinação para “boas imagens” já existia. “O que faltava era o aprimoramento das técnicas. A parte operacional é fundamental.”

Dois meses depois do primeiro destino, Ana Cecília arrumou a bagagem para uma viagem mais ousada, na Patagônia. Com um grupo de nove pessoas, ela chegou à América do Sul, onde passou 18 dias. Entre as boas lembranças das caminhadas pelo destino está a de quatro horas pela geleira Perito Moreno, em El Calafate, na Argentina. “As viagens testam seus limites, mas a experiência vai muito além da fotografia. As nuvens que se formam lá são completamente diferentes das quais estamos acostumados a ver. Ao ver o primeiro pôr do sol eu tive vontade de chorar. Vi muitas cores e desenhos diferentes no céu. Percebi que existem mais ângulos e mais enquadramentos do que imaginava”, ressalta.
 
Turismo e algo mais: Ana Cecília Paranaguá já fez ao menos três viagens, e conheceu diferentes países, nas quais o foco era praticar fotografia (Raimundo Sampaio/ Encontro/ DA Press)
Turismo e algo mais: Ana Cecília Paranaguá já fez ao menos três viagens, e conheceu diferentes países, nas quais o foco era praticar fotografia

Um fator além da fotografia que marcou a segunda viagem de Ana Cecília foi o desapego. Ao arrumar as malas, ela separou quatro mudas de roupa e enfrentou temperaturas oscilantes entre 30 oC e -13 oC. “Tínhamos muitas trocas de experiência durante o curso. Também passávamos por momentos de solidão proposital, o que ajuda bastante a apurar o olhar fotográfico.” A última viagem dela com a dupla de fotógrafos foi no deserto mais árido do mundo, o emblemático Atacama. “Crescemos vendo o ambiente de deserto monocromático. Ao vivo é tudo completamente diferente. Eu nunca tinha avistado tantas cores. Foi o lugar mais bonito que já fui na vida”, relata a jornalista, que afirmou ter ficado encantada com o Salar de Uyuni, na Bolívia. “Andamos de carro ali por horas. A experiência me mostrou o quanto somos pequenos no mundo”, ressalta. Agora Ana Cecília tem planos de ir à Índia com o grupo.
 
Lembranças para a vida toda: das viagens, Ana Cecília trouxe conhecimentos e experiências com belíssimas fotografias (Ana Cecília Paranaguá/Divulgação)
Lembranças para a vida toda: das viagens, Ana Cecília trouxe conhecimentos e experiências com belíssimas fotografias
 

Para viajar com João Paulo e Olivier não é obrigatório ter experiência ou cursos prévios. Apesar de não ter muito contato com a fotografia, Solange Sato aceitou o desafio de ir com eles ao Japão. “Acompanho de perto o trabalho dos dois e isso me motivou a querer essa viagem. As imagens não trazem apenas uma perspectiva, mas fazem o espectador mergulhar na cultura local”, ressalta Solange, que é neta de japoneses que aportaram no país no início do século 20.
As raízes de Solange foram outros fatores de peso no momento de escolha do destino, que será visitado pela primeira vez. “Vai ser uma oportunidade de trazer o olhar deles em direção à minha realidade. Estou em busca de uma sensação de pertencimento”, destaca ela, que passará 18 dias no Japão em outubro.

Conhecer a própria cidade por outros ângulos foi a proposta inicial da brasiliense Sílvia Pizzini. Mesmo tendo uma noção básica de fotografia, ela se cadastrou em um curso oferecido em Brasília, em 2014. “Não era um curso para qualquer pessoa. O que eles ofereceram foi grandioso porque foi baseado em experiências de vida, e não em formalidades que envolvem apostila e um quadro-negro.”
 
Solange Sato vai conhecer o Japão com uma viagem organizada pela Ashram Galeria:'Estou em busca de uma sensação de pertencimento' (Raimundo Sampaio/ Encontro/ DA Press)
Solange Sato vai conhecer o Japão com uma viagem organizada pela Ashram Galeria:"Estou em busca de uma sensação de pertencimento"
 
No conteúdo, havia aulas teóricas com saídas fotográficas aos domingos, das 5h até as 19h30, tempo que garantia a prática com a câmera em diferentes tipos de luz. “Fotografamos locais como a Esplanada e a passarela da rodoviária. Mas o que mais me encantou foi a parte natural do Entorno que poucos brasilienses conhecem. Fizemos fotos na feira de Formosa, conversamos com os produtores. Aprendi com Boëls que abordar quem queremos fotografar é fundamental. Antes de uma boa cena existem vidas ali”, ressalta a brasiliense, que após a experiência garante enxergar a própria cidade com outros olhos.
 
 
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EDIÇÃO 55 | Julho de 2017