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PERFIL | PERSONALIDADE »

A personificação da superação

Conhecer histórias como a de Soninha, moradora da Vila do Pequenino Jesus, no Lago Sul, é uma oportunidade para repensar as dificuldades da vida de qualquer pessoa

Camila Costa - Publicação:07/05/2016 09:00Atualização:06/05/2016 11:49
Quem vê o sorriso estampado no rosto da Sônia Regina Ferreira Pinto, o jeito simpático de receber as pessoas e a polidez com que encara os relacionamentos no dia a dia não imagina que por trás dessa imagem já houve o inverso de tudo isso. Diagnosticada com paralisia infantil aos 8 anos de idade, Soninha foi abandonada pela família europeia em um orfanato de São Paulo. Foi abusada sexualmente aos 13 anos de idade, virou garota de programa para fugir de maus-tratos, foi traída por um noivo, por um pai, por toda uma vida, resumida, até pouco tempo, apenas ao sofrimento.

Ignorada pela mãe, pelos irmãos - e, por um momento, pensou ela, até por Deus - , Soninha é a personificação da palavra superação. Pegou sua história, preencheu páginas em branco e encadernou. O livro Meu Nome é Soninha e Esta é Minha História foi lançado em março para "entender o porquê de tanta dor". Mais do que superar uma sequência de fatos infelizes, ela queria entender por que coisas ruins aconteceram com ela.

Fruto do romance entre Violeta e Miguel, uma espanhola e um português, ela foi a primeira filha. Nasceu prematura e os médicos chegaram a dizer que ela não resistiria. Apesar da aparência frágil, sobreviveu. Cresceu e virou a rainha da casa. O orgulho do pai. "Eu o acompanhava nos passeios, ganhava presentes, doces. Meu pai me exibia como se eu fosse um troféu. Eu o adorava, ele era muito carinhoso comigo", conta.
 
Um livro para amenizar o sofrimento: desde que publicou Meu Nome é Soninha e Esta é Minha História, Sônia Regina sente-se mais leve (Vinícius Santa Rosa/Esp. Encontro/DA Press)
Um livro para amenizar o sofrimento: desde que publicou Meu Nome é Soninha e Esta é Minha História, Sônia Regina sente-se mais leve
 
 
Um dia, ao voltar da escola, Soninha se sentiu mal. "Uma forte dor de cabeça, que me fez ir direto para a cama", lembra. Quando acordou novamente, os gritos já eram do pai. Ao vê-la, Miguel não teve dúvidas de que havia algo de errado. Uma rigidez que não a deixava se movimentar. No hospital, o médico revelou o que era temido. A criança não andaria mais. "Meu pai me levou para casa e disse para minha mãe: toma sua filha aleijada." A partir desse dia, a vida de Soninha se restringiu ao quarto. Os irmãos foram proibidos de brincar com ela, com castigo e surra caso desobedecessem às ordens do pai.

"Eu me sentia culpada." O sofrimento no próprio lar, onde até então tinha tido uma vida feliz ao lado da família, foi marcante. Aturava os carinhos dados aos irmãos na sua frente, como uma forma de lhe causar inveja. "Chorava tanto que achava que minhas lágrimas iam acabar", diz. Pouco tempo depois, o pai a deixou em um orfanato. "Ele disse que me achou na rua. Eu não podia dizer que era filha dele."

Lá, Soninha ficou aos cuidados de enfermeiras. Sentia-se sempre triste, ficava sozinha, pelos cantos. Tio Laércio, como ela chamava o dono do abrigo, foi mais um traidor. Dedicado a mostrar afeto na frente de outras pessoas, ele destruiu o resto do sentimento de infância que restava. "Tinha 13 anos nessa época. Uma enfermeira veio me preparar para dormir. Disse que Laércio queria me ver. Quando chegou ao quarto, ele deu dinheiro a ela. Passou a mão na minha boca e me mandou ficar calada. Senti muita dor", conta.

Dos 13 aos 16 anos, Soninha não foi poupada. Era levada todos os dias ao quarto de Laércio. Tentou se matar, sem sucesso, até o dia que adoeceu. Ficou internada em um hospital. Lá, conheceu duas garotas de programa. Viu ali a chance de sair do orfanato. Pediu que elas a visitassem e depois de sair para um passeio com elas, nunca mais voltou. Lá conheceu um amor, se desiludiu.

Aos 22 anos, ela deixou a "boate" e foi para outro abrigo. Outro e outro, mas todos acabaram por maltratá-la. Em um deles, outro amor surgiu, mas morreu lá mesmo. "Fiquei noiva, fiz enxoval e duas semanas antes de casar, ele estava com outra." E a inquietude permaneceu até o dia que ela achou na internet a Vila do Pequenino Jesus, em Brasília. E aqui Soninha chegou no dia 22 de junho de 2012. A capital federal é o local que ela encontrou para ser feliz. "Pela primeira vez na vida me senti em casa, em um lugar aconchegante", conta.
 
Foram seis meses gravando os depoimentos
e dois anos dedicados ao projeto do livro: a
médica Amanda Rocha diz que aprendeu 
muito com Soninha, e hoje elas são grandes 
amigas (Arquivo Pessoal)
Foram seis meses gravando os depoimentos
e dois anos dedicados ao projeto do livro: a
médica Amanda Rocha diz que aprendeu
muito com Soninha, e hoje elas são grandes
amigas
As perguntas são muitas ainda, mas Soninha garante que já está mais perto das respostas. Deus, que andou muito tempo longe das suas esperanças, voltou a rondar a sua vida. Hoje, é um grande aliado para superar as dificuldades.

Soninha não é independente. Precisa da ajuda de outras pessoas para tudo. Inclusive para escrever seu livro. E agradece sempre com muitos sorrisos, especialmente à médica Amanda Rocha. Elas se conheceram na Vila do Pequenino Jesus. O irmão de Amanda, que também é médico, fazia trabalhos voluntários no abrigo e contou sobre a paciente. "A Soninha sempre falava para ele do desejo de escrever esse livro. Ele queria ajudar, mas não tinha muito tempo. Eu estava mais disponível. Meu irmão pegou um gravador e falou: vá lá, você grava com ela e a gente escreve. E foi assim", conta. O processo durou cerca de seis meses só de conversa e dois anos para o livro ficar pronto.
 
Para Amanda, o livro poderia ter sido escrito antes, mas veio na hora certa - no momento que Soninha consegue avaliar tudo que ocorreu. "Ela queria entender e já entendeu muita coisa. O processo de preparação do livro também a ajudou a se livrar desse peso, que até então carregava sozinha. Agora ela pode compartilhar. Isso ajuda o fardo a ficar mais leve", pondera a médica.
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EDIÇÃO 55 | Julho de 2017