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ESPECIAL MAIO | CAPA »

Profissão: mãe

Para viver a maternidade plena, algumas mulheres abrem mão de carreiras consolidadas e - mesmo surpreendendo a sociedade em que vivem - não se arrependem

Isabela de Oliveira - Redação Publicação:20/05/2016 08:37Atualização:20/05/2016 10:35
Julyana Mendes reconhece a seriedade da profissão na qual se graduou. Por prezar pela vida, a engenheira civil valoriza a minúcia do projeto, cujas fundações devem ser mais resistentes que a ação do tempo e ser intransigentes com os que não se previnem de erros. Os conceitos do ofício permitiram que ela enxergasse com clareza a importância de uma outra missão, a qual ela considera uma das mais admiráveis atribuídas à mulher: a maternidade.

Para ela, ser mãe compara-se a um projeto de engenharia. Trata-se de criar as bases para que os filhos, no decorrer do desenvolvimento, tenham autonomia para formar e lapidar a própria personalidade. Como mãe de sete - três meninos e quatro meninas cujas idades variam de 21 anos a 10 meses -, o trabalho é redobrado e exige, indiretamente, um contrato de exclusividade.

Mas a cláusula foi atendida, inicialmente, com desconforto. "Sempre fui muito ativa e no começo me senti culpada em largar o emprego. Trabalhava em uma empresa familiar e pensava que poderia prejudicar alguém, especialmente o meu pai, se abandonasse tudo. Por isso, tentei fazer a transição da melhor forma possível", conta a soteropolitana, de 39 anos. Ela diz que a ideia de ser mãe em "tempo integral" é relativamente recente. Quando engravidou do filho mais velho, Julyana tinha apenas 17 anos. Era uma típica universitária baiana, cheia de sonhos profissionais, e não cogitava abrir mão da engenharia. Por um lado, admirava a garra com que o pai, também engenheiro, conduzia os negócios; por outro, ficava maravilhada com a dedicação da mãe, pessoa que ela já considerava modelo a ser seguido.
 
'Eu me encontrei na maternidade', diz Julyana Mendes, rodeada pelos filhos Maria Fernanda (esq.), Maria Carolina, Maria Eduarda, Pedro Henrique, João Eduardo, Maria Beatriz (colo) e Luís Felipe (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
"Eu me encontrei na maternidade", diz Julyana Mendes, rodeada pelos filhos Maria Fernanda (esq.), Maria Carolina, Maria Eduarda, Pedro Henrique, João Eduardo, Maria Beatriz (colo) e Luís Felipe

O relacionamento juvenil em Salvador não deu certo e, por obra do destino, Julyana mudou-se para Brasília quando o primogênito tinha 5 anos. Aqui conheceu o segundo marido, com quem teve dois meninos. Mesmo com três filhos, ela sonhava com uma filha. Então buscou tratamento, que rendeu uma gestação de trigêmeas. "Fiquei chocada ao saber que eram três. Apesar de preocupada, porque já tinha passado por cesarianas antes, estava feliz. As meninas nasceram com 28 semanas", relembra Julyana, que, com seis filhos, fez a laqueadura. E se divorciou.

O destino a surpreendeu com uma amizade inesperada com o fisioterapeuta Kleber Caiado. "Nós criamos um laço forte de amizade que meses depois evoluiu para um romance. Foi incrível, porque não são todos os homens que aceitam mulheres com filhos, ainda mais com seis", conta. Ao oficializarem a união, eles decidiram por tentar mais uma gravidez.

Após outro tratamento de fertilidade, foi concebida a Maria Beatriz, que hoje tem 10 meses de vida. Diferentemente da engenharia, a maternidade não dispõe de graduação ou curso preparatório. "As gestações não são iguais e nessa última eu pude sentir coisas que não senti antes, como o soluço do bebê na barriga", conta.

A caçula foi o gatilho para que a engenheira largasse de vez o trabalho para se dedicar completamente à maternidade. Ela diz que não se arrepende, apesar de, às vezes, se sentir "culpada". "Mas o que importa é que hoje sou eu quem decide a alimentação dos meus filhos, seus horários e o que eles podem ou não fazer. Isso é impagável."

É claro que a decisão exigiu planejamento, principalmente financeiro. E, sendo boa engenheira, Julyana não desprezou os cálculos. Em um processo quase natural, postagens em redes sociais sobre seu cotidiano evoluíram para a empresa Mãe de Sete, que ela encara com seriedade desde dezembro passado. Para se ter uma ideia, cerca de 80 mil pessoas a seguem no Instagram. "Eu apenas conto um pouco da minha rotina e mostro que ser mãe é difícil. Tento falar da minha realidade, sempre preocupada em não repassar informações falsas. Eu me encontrei na maternidade", diz. Mesmo tão convicta, é possível que Julyana não tivesse aberto mão da profissão se não tivesse chegado aos sete filhos.

Mas outras histórias, como a da publicitária Marcela Buralli, de 32 anos, mostram que a mudança pode ocorrer independentemente da quantidade de herdeiros. Ela é mãe de Lorenzo, de 2 anos, e trabalhou durante cinco anos em uma agência regulada do Estado como secretária-executiva, função que lhe garantia um bom salário. "Quando engravidei, não passou pela minha cabeça que eu largaria o emprego. Até porque tenho mãe batalhadora e, a partir do exemplo dela, isso era impensável para mim. Mas, depois do nascimento do Lorenzo, comecei a achar que seria muito complicado voltar àquela rotina. Um dia chorei copiosamente porque dali a um mês eu teria de deixá-lo com alguém."
 
Marcela Buralli trabalhava como secretária-executiva e abriu mão da comodidade e de um bom salário para cuidar do filho: 'A chegada do Lorenzo nos fez querer ser pessoas melhores' (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
Marcela Buralli trabalhava como secretária-executiva e abriu mão da comodidade e de um bom salário para cuidar do filho: "A chegada do Lorenzo nos fez querer ser pessoas melhores"
 
A mãe de Marcela foi crucial para a decisão. "Ela me mostrou que eu não precisava passar por isso. Falou para irmos para a casa dela e alugarmos nosso apartamento para ter uma renda. Sentei com meu marido, colocamos os prós e contras em uma lista, e vimos que era viável", diz.

A questão da carreira, Marcela diz, não pesou tanto. Afinal, ela já não era feliz profissionalmente há algum tempo, ainda que a situação fosse cômoda. "A maternidade me transformou no sentido de ter força para mudar algumas coisas. Ficou insustentável não mudar. Nesse meio do caminho, já havíamos comprado uma chácara em zona rural de Brasília, queríamos construir a nossa casa e permitir que o bebê crescesse em contato com a terra. Foi o Lorenzo quem impulsionou isso."

Apesar de ficar mais em casa, Marcela não se sente escrava dos serviços domésticos. Ela conta com a ajuda de familiares, babás e diaristas durante alguns dias da semana. Foi a forma que ela e o marido encontraram para que a mãe de primeira viagem pudesse se dedicar a outros projetos, como cursos na área de sustentabilidade e agricultura orgânica. "Estamos quebrando vários paradigmas, mudanças internas e de hábito, e eu tenho certeza e convicção de que tudo isso foi gerado pela vinda do filho, que nos fez querer ser pessoas melhores."

Esse ponto é, aliás, um dos mais sensíveis do planejamento para ser "mãe em tempo integral", Marcela pontua. "Para sair do trabalho, é preciso ter apoio, especialmente do companheiro. Porque o casamento pode até desandar quando isso não existe. Há momentos desgastantes nessa rotina aparentemente calma", diz. Ela cita o exemplo de que, com criança pequena, não dá para ter uma casa sempre limpa. "Acho que é preciso ter companheirismo e tudo isso deve ser falado", conclui.

A psicóloga Lia Clerot confirma que dominação do parceiro não é um ingrediente que combina com a receita da maternidade plena. "O dominador diminui o outro, às vezes sem nem perceber, e se torna muito pior nesse momento que a mulher já está frágil ou insegura. E infelizmente não há como não falar em dinheiro, mesmo que o pai tenha um bom salário e condições de manter a economia doméstica em situação confortável. Muitas vezes se cria uma situação de dependência e de desgaste", alerta a especialista.

A personal organizer Heloisa Sundfeld explica que as mulheres que desejam tomar decisões como as de Julyana Mendes e Marcela Buralli devem considerar com cuidado se o salário delas não fará falta para o orçamento familiar. "O casal deve conversar a esse respeito, baseando-se nas despesas totais. Uma planilha ajuda muito e pode ser feita por um período de seis meses, mais ou menos, para se ter uma boa noção do planejamento", aconselha a especialista em projetos pessoais.

Mesmo que a gravidez seja inesperada, Heloísa sugere que o casal aproveite os nove meses e a licença-maternidade para fazer os cálculos. "A rotina diária também deverá ser bem avaliada, para que não haja um desacordo entre o casal. Muitas mulheres, depois que os filhos nascem, praticamente esquecem do marido, passando a dar atenção só aos bebês. E esse é um erro perigoso", diz, frisando o perigo da baixa autoestima.

A técnica em enfermagem Samara Daiane Rodrigues Langsdorf, de 28 anos, por experiência própria, acrescenta que, para alcançar o sucesso, o planejamento para a maternidade exclusiva também deve considerar as motivações da mulher. "Cada uma deve saber o tempo que deseja ficar afastada. Eu fiz isso para acompanhar a minha filha pré-adolescente e meu bebê, épocas do desenvolvimento em que os filhos necessitam muito da presença dos pais", relata. Ela acredita que o prazo de um ano, um ano e meio, é adequado. "Antes de sair da empresa, eu já tinha um planejamento financeiro que me deu tranquilidade. Isso é crucial: não adianta estar em casa e ficar desesperada porque não tem como suprir as necessidades dos filhos."
 
'Uma mãe deve sempre se perguntar quanto tempo ficará fora do mercado de trabalho, para que e por quê', aconselha Samara Langsdorf, que largou o emprego para cuidar dos filhos Beatriz e Yuri (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
"Uma mãe deve sempre se perguntar quanto tempo ficará fora do mercado de trabalho, para que e por quê", aconselha Samara Langsdorf, que largou o emprego para cuidar dos filhos Beatriz e Yuri
 
Mãe de Beatriz, de 11 anos, e Yuri, de 2, Samara trabalhava em uma grande empresa de análises laboratoriais. "Eu estava me sentindo angustiada por chegar tarde e sair cedo todos os dias. Fui muito criticada, inclusive pelos meus sogros, meus pais, amigos e colegas de trabalho, que diziam que eu iria me arrepender. Mas isso não aconteceu, apesar de minha condição financeira não ser mais como antes", conta.

A psicóloga Lia Clerot confirma que todas as escolhas relacionadas à maternidade, e não apenas a de largar o emprego, costumam vir acompanhadas de críticas da sociedade: "Se a mulher opta por trabalhar fora, é criticada por não dar tanta atenção aos filhos, como um ato de egoísmo. Se decide se dedicar à criação dos filhos, é julgada por ter um pensamento retrógrado", exemplifica. E acrescenta: "Não podemos dizer que uma ou outra decisão está correta. As duas escolhas carregam bônus e ônus, sendo igualmente desafiadoras", diz.

Um dos prós considerados por Samara foi o empoderamento para ditar como será a criação das crianças com autonomia. "Se você deixa seu filho com outra pessoa, precisa se calar para certas coisas. A minha escolha permitiu que eu administrasse melhor o meu tempo", comenta. Ela sempre ressalta que, para ser uma boa profissional, é importante que a vida familiar esteja em ordem: "A mãe deve sempre se perguntar quanto tempo ficará fora, para que e por quê. Isso vai ajudá-la a se decidir."

Saber que há opções sempre e que a pausa não se trata de um caminho sem volta pode ser um alento para as indecisas. Hoje, algumas mães que têm a certeza de tomar essa decisão, sem angústia, o fazem por saber que vão se dedicar mais ao desenvolvimento de seus filhos e porque enxergam como uma espécie de pequena pausa na carreira, ou seja, sabem que pode não ser um abandono definitivo. A psicóloga Lia Clerot aconselha mães angustiadas a confiarem no próprio instinto. "Muitos problemas surgem porque não fazemos o que achamos certo, e sim o que outros dizem que é para fazer. Mas não se deve desconsiderar o autoconhecimento. Afinal de contas, não adianta seguir com a vida profissional adiante e estar com a cabeça completamente em casa. As atividades provavelmente não serão bem desempenhadas em nenhum dos campos, gerando frustrações e um grande cansaço físico e emocional."

Mesmo sendo mãe solteira, Pollyana Zappalá
Perea abdicou da carreira de fisioterapeuta 
para passar mais tempo com Rafael, que 
hoje tem 2 anos (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
Mesmo sendo mãe solteira, Pollyana Zappalá
Perea abdicou da carreira de fisioterapeuta
para passar mais tempo com Rafael, que
hoje tem 2 anos
Não ter o apoio tradicional, como o do marido, também não significa que se dedicar exclusivamente aos cuidados do filho seja uma missão impossível. Pollyana Zappalá Perea, de 28 anos, é mãe solteira e abdicou da carreira de fisioterapeuta pós-graduada para passar mais tempo com Rafael, agora com 2 anos. O apoio veio dos familiares, especialmente da mãe. "As coisas no trabalho não estavam tão bem e eu chorava quase todos os dias por conta da pressão, mas resisti até o final porque sabia que, para poder cuidar bem do Rafael, precisava garantir meus direitos e me planejar financeiramente. Ele precisaria muito mais de mim, visto que o pai não pode estar tanto com ele", diz Pollyana.

Nos primeiros meses do filho, a fisioterapeuta diz não ter sentido tanta falta da vida social que tinha antes. No entanto, ela admite que, agora, se sente um pouco perdida. "Eu faço terapia porque sinto que, como mãe, perdi um pouco da minha identidade. Por um tempo esqueci quem era a Pollyana mulher, aquela que até engravidar era uma jovem solteira, e passei a ser apenas a Pollyana mãe. Até a minha aparência mudou." Ela destaca como um ponto crítico a falta de convívio com adultos. Esse aspecto, diz, deve ser levado em consideração por quem deseja largar tudo para se dedicar à criação dos filhos. "Eu perdi o contato com as pessoas com quem eu convivia antes, as da faculdade e do emprego. Conviver somente com criança nos faz prezar mais pela companhia adulta", completa. Embora seja uma situação normal, especialistas sempre ressaltam que ser mãe não é abdicar de sua individualidade. Buscar ajuda especializada, quando necessário, sempre traz alívio e tranquilidade.

Muitos profissionais defendem também que crianças que crescem com suas mães presentes tendem a ser mais seguras. Não é regra, mas é uma estatística cientificamente comprovada. Um estudo publicado recentemente por Joan Luby, da Faculdade de Medicina da Universidade de Washington, nos Estados Unidos, mostrou que o amor materno aprimora o desenvolvimento cerebral dos pequenos. Após acompanhar o crescimento de 127 crianças e examiná-las com ressonância magnética, Luby descobriu que o hipocampo (área cerebral que controla habilidades como a memória, o aprendizado e emoções) cresceu duas vezes mais rápido em filhos de mães mais afetuosas e presentes.

A cientista também descobriu que o maior desenvolvimento cerebral estava associado a um padrão emocional mais saudável na adolescência. Com isso, Luby concluiu que os pequenos podem ser mais capazes de lidar com os desafios da vida se os pais oferecerem mais apoio e afeto em seus primeiros anos. A publicitária Fernanda Hummel, de 43 anos, percebeu isso com a filha Amanda, de 1 ano.

A bebê matriculada recentemente na escola não sofreu tanto para se adaptar. "Às vezes ela chora um pouquinho, mas logo para porque tem certeza de que eu vou voltar", conta Fernanda, que abandonou, em 2014, o emprego como concursada no governo federal para cuidar da filha. "Eu fazia mestrado e trabalhava praticamente o dia inteiro. Viajava para o exterior semanalmente. Aos 41 anos, percebi que, se não fizesse uma pausa, não conseguiria engravidar. O médico sugeriu que eu diminuísse o ritmo e eu obedeci", conta.
 
A publicitária Fernanda Hummel viajava para o exterior semanalmente a trabalho, mas pediu demissão e optou pela maternidade plena: os cuidados recebidos da mãe a influenciaram para sempre (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
A publicitária Fernanda Hummel viajava para o exterior semanalmente a trabalho, mas pediu demissão e optou pela maternidade plena: os cuidados recebidos da mãe a influenciaram para sempre
 
Cursando o mestrado na Universidade de Brasília, e com a vida mais regrada, Fernanda engravidou de Amanda e manteve o desejo de se dedicar exclusivamente à filha. "Sempre fui muito ativa, mas tinha em mim, pela minha criação, a lembrança da minha mãe cuidando de mim e de meus irmãos. Nós tínhamos babá, mas os cuidados maternos ficaram marcados em para sempre." Agora, que Amanda já está mais independente, Fernanda começa a repensar a carreira. "Eu me planejei financeiramente para ficar um período específico com ela. Então sinto que está na hora de voltar ao mercado, o que será bom para mim e também para a bebê, que vai iniciar uma nova etapa da vida dela."

O neuropediatra Christian Muller, presidente da Sociedade de Pediatria do Distrito Federal, explica que os vínculos diferenciados de uma mãe com seu filho nos meses iniciais de vida são inerentes a toda uma formação. "O bebê ouve, sente e acompanha a vida da mãe. Cria-se uma relação que fará com que ele se sinta seguro nesse colo desde seu nascimento. Procriar significa mudança, inclusive de patamar, porque deixamos de ser filhos e nos tornamos pais. Deixamos de ser cuidados, passamos a cuidar. Significa comer depois, tomar banho depois e abrir mão de confortos. Mas também significa ver um sorriso único, ver alguém correr à porta para nos receber a oportunidade de ensinar, formar, amar e criar alguém melhor para a sociedade. Não há como fazer isso sem doação, e as mães trazem isso em suas almas", conclui.
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EDIÇÃO 55 | Julho de 2017