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ENCONTRO | Sidarta Tollendal Gomes Ribeiro »

"Fazer ciência, no Brasil, é surreal"

O biólogo brasiliense que ajudou a fundar o Instituto do Cérebro, em Natal, uma das instituições de neurociências mais importantes do país, critica a falta de estímulo dado à sua classe profissional

Deco Bancillon - Publicação:24/05/2016 14:24Atualização:24/05/2016 14:59
'Em Brasília as pessoas têm como exercer sua cidadania diretamente, porque estão a poucos metros do poder' (Pedro Nicoli)
"Em Brasília as pessoas têm como exercer sua cidadania diretamente, porque estão a poucos metros do poder"
Considerado um dos mais influentes cientistas do país, o biólogo Sidarta Ribeiro começou a traçar, há 20 anos, nos corredores da UnB, o caminho que o levaria a liderar um dos mais importantes laboratórios de neurociência do país. Criado em uma cidade fora do eixo Rio-São Paulo, o Instituto do Cérebro mudou a cara da pesquisa científica realizada na ensolarada Natal, capital do Rio Grande do Norte.
Mesmo morando longe, o pesquisador de 45 anos, metade deles vividos em Brasília, fala com carinho da cidade que visita pelo menos uma vez ao ano. Aqui ainda moram sua mãe, seu padrasto e o irmão. “Sou apaixonado pelas obras do Niemeyer, pelo urbanismo do Lucio Costa. Acho muito bonita a cidade.”

Além da ciência, o biólogo é conhecido por trabalhos realizados na literatura. Seu livro de crônicas e artigos Limiar: Uma Década entre o Cérebro e a Mente é elogiado até mesmo pela crítica não especializada. Quando foi lançado, em 2015, ficou entre os três exemplares mais vendidos na Feira Literária Internacional de Paraty (Flip). Como se pode perceber nas páginas a seguir, temas diversos, desde política local à internacional, além de história, sono e sonhos, estão nos campos de interesse desse neurocientista.

ENCONTRO: O senhor nasceu em Brasília. Como é sua relação com a cidade?
SIDARTA RIBEIRO: Fui criado na Asa Sul, depois morei na Asa Norte e, por fim, no Lago Norte. Cursei biologia na UnB e, aos 22 anos, eu me mudei para o Rio de Janeiro para estudar no Instituto de Biofísica. Lá, fiz mestrado em neurociências. Mas ainda tenho família na capital. Minha mãe mora no Lago Norte, com o meu padrasto, e meu irmão, em um condomínio perto do Lago Sul. Pelo menos uma vez por ano eu volto para passar tempo com a família e os amigos.

E: E quais são os lugares que o senhor gosta de visitar quando está na cidade?
SR: Água Mineral, principalmente a piscina velha – é um programa imperdível. Andar de bicicleta, correr, passear na Esplanada, de dia ou à noite. Acho muito bonita a cidade. Passear de carro em Brasília, para mim, é uma coisa muito bonita e nostálgica. E não é só pela Esplanada. Gosto muito, por exemplo, do Cine Brasília, do CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil). Também curti muito o lago Paranoá quando era mais jovem.

E: O senhor praticava algum esporte no lago?
SR: Durante uma época da minha vida, eu costumava velejar. Tenho muita saudade dessa época, de poder estar em contato com a natureza, com o cerrado e o céu de Brasília. Mas, naquela época, o lago não era uma coisa, digamos assim, saudável (risos). Décadas atrás, ele ainda era muito sujo, mas, com o passar do tempo, foi sendo limpo. Apesar disso, mesmo quando ainda a água não era tão boa para banho, nós tentávamos aproveitar o espaço. Hoje tem muita gente fazendo stand up paddle, remando, curtindo o lago com a família. Muita gente ocupando os espaços comuns, dando uma cara de cidade de verdade a Brasília. Isso é muito legal.

E: Brasília também foi palco, recentemente, de um episódio que marcou a política nacional, com a Esplanada dividida ao meio para as manifestações contra e a favor do impeachment da presidente Dilma Rousseff. O que o senhor achou desse episódio?
SR: Nós, brasilienses, estamos acostumados a ouvir pessoas que não conhecem a cidade dizerem que em Brasília só tem políticos corruptos. Mas, para mim, é justamente o contrário disso. Aqui você tem como exercer sua cidadania diretamente, porque está a poucos metros do poder. Então, durante a adolescência, eu vivi isso plenamente, com passeatas, pichações, as “Diretas Já” e o impeachment do (ex-presidente Fernando) Collor. Eu acho até que Brasília, na verdade, é uma cidade que incentiva isso, porque permite a ocupação popular. O gramado da Esplanada, com espaços amplos, é um convite às passeatas, porque dá para encher aquilo tudo de gente, incomodando o poder.

E: Mas nunca houve uma polarização tão grande que levasse a ter públicos tão antagônicos nas manifestações, o que levou à instalação do muro.
SR: O fato de ter um muro cortando a Esplanada ao meio pode ser um retrocesso, é claro, principalmente quando o acirramento político descamba para o fascismo. Mas o muro também pode ser visto como um avanço no sentido de demonstrar que, hoje, as pessoas estão mais engajadas com a política. É muito importante que se discuta política, porque há muito a ser questionado. A própria noção de representatividade do Congresso Nacional. Qual o objetivo de ter 513 deputados votando em nome dos eleitores em um momento de internet vasta e acessível, em que as pessoas poderiam votar por elas mesmas, sem a necessidade de intermediários? Eu preferiria eu mesmo decidir o que é melhor para mim.

E: Como o senhor avalia o cenário de ajuste fiscal que levou a cortes drásticos no orçamento de universidades e a atrasos em pagamentos de programas como o Ciência Sem Fronteiras?
SR: Avalio como gravíssimo esse momento. O Brasil passou por um processo de expansão científica e educacional muito grande. Eu sou um exemplo de pesquisador que foi estudar fora e decidiu voltar para fazer pesquisa no Brasil. Passei 11 anos fora do país e voltei por entender que havia possibilidade de fazer pesquisa de alto nível aqui. Outros cientistas fizeram o mesmo. Hoje, há institutos científicos e departamentos de pesquisa fazendo pesquisa de ponta no país. Então, de repente, puxaram o freio de mão e deram um cavalo de pau (nesse movimento).

E: Quais as consequências imediatas dessa crise?
SR: O que está acontecendo nos últimos dois anos e que se tornou mais agudo neste momento (de crise orçamentária) é que, com os atrasos e cortes de orçamento, passou-se a tirar o oxigênio de um organismo científico que se expandiu muito e que, por ser maior hoje do que já foi um dia, precisa de muito mais oxigênio e nutrientes para sobreviver. Nós vimos que esse movimento de cortar recursos para a pesquisa científica já começou a gerar um êxodo de cérebros no Brasil. Todo o esforço que fizemos nos últimos anos, de reverter a evasão, pode cair por terra neste momento de crise.

E: O que motiva esse movimento, além da atual crise política?
SR: Basicamente, melhores condições de trabalho. Mesmo depois dos avanços que vimos nos últimos anos, ainda há uma diferença muito grande na pesquisa científica em relação ao que está ocorrendo lá fora. Muitos países investiram pesado e hoje estão colhendo frutos dessa decisão. Enquanto isso, nós estamos aqui debatendo sobre a polarização partidária.

E: Quais países estão em melhor situação que o Brasil?
SR: Só para ficar em um exemplo mais próximo, dos Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), posso citar o caso da China, que é absolutamente incrível. Nós nos acostumamos a pensar na China como um país de dimensões continentais cujo maior ativo é produzir barato. Mas não é só isso. Eles fizeram nos últimos anos uma revolução científica impressionante. Quem vai a um departamento médico dos EUA vê que praticamente metade dos pesquisadores são chineses. É um país que está a caminho de se tornar rapidamente a segunda maior potência tecnológica do mundo, atrás dos EUA. Não por acaso, hoje eles são a segunda maior economia.

E: E qual a receita para se atingir esse patamar?
SR: Não há meio-termo: ou acompanhamos a revolução científica que está em curso lá fora ou vamos ficar para trás. E isso é muito grave. A impressão que eu tenho é de que o paciente, que é a pesquisa científica, está com nível de oxigênio baixo, agonizando. Enquanto isso, estamos discutindo o cardápio do jantar desse paciente.

E: Quais são as maiores dificuldades de fazer ciência de ponta no país?
SR: Em relação a insumos, por exemplo, existe uma dificuldade histórica de fazer importações no Brasil. Mesmo que existam os recursos necessários para isso, as coisas não são tão simples. Há uma burocracia grande, pagam-se muitas taxas. Nos EUA, há shoppings de produtos científicos. Você vai lá, compra da prateleira o insumo que precisa, paga com o cartão de crédito do seu projeto científico. Tudo rápido, prático. No Brasil é o oposto disso. Você tem de pedir autorização para comprar o reagente, fazer a encomenda, pagar as taxas. Daqui a seis meses o insumo chega por um preço três vezes maior do que o cotado inicialmente. Fazer ciência no Brasil é surreal. Você teoricamente faz algo que é de interesse de todos, mas é como se estivesse por conta própria, tirando do próprio bolso. E, com a crise, a situação se agravou muito. Se já vivíamos uma situação muito difícil, principalmente para fazer pesquisas biomédicas, agora é que complicou de vez, porque não tem mais nem o dinheiro para fazer as importações. Quem está fazendo pesquisa hoje está tirando dinheiro do próprio bolso para não parar os projetos.

'Muitos países investiram pesado em pesquisa científica e hoje colhem frutos dessa decisão. Enquanto isso, nós estamos aqui debatendo polarização partidária' (Pedro Nicoli)
"Muitos países investiram pesado em pesquisa científica e hoje colhem frutos dessa decisão. Enquanto isso, nós estamos aqui debatendo polarização partidária"

E: Quais foram os maiores desafios do Instituto do Cérebro, do qual o senhor é um dos idealizadores?
SR: Uma das coisas mais difíceis de fazer ciência no Terceiro Mundo é a falta de atratividade de pessoal qualificado. Você não atrai um pesquisador de alto nível se o seu instituto for um lugar perigoso, por exemplo. Isso é algo importante, porque a pessoa vai abdicar de muita coisa para se mudar para o local onde a pesquisa será realizada. Então, além da parte profissional, pesa questões pessoais. Espera morar em um lugar legal, com facilidade de trânsito, escolas e belezas naturais. E, aqui, nós temos um lugar lindo, agradável, bucólico, à beira do mar e com florestas. Um lugar onde as pessoas gostariam de vir, e não só brasileiros. Temos no nosso instituto uma alemã, uma sueca e dois argentinos que trabalham como professores.

E: O Nordeste abriga uma experiência bastante interessante, que é o Instituto Cesar, em Recife, hoje uma das principais referências em pesquisa tecnológica no país. A ideia de vocês era fazer de Natal também um polo em neurociência?
SR: A ideia sempre foi transformar Natal em um polo de atratividade científica, despertando o interesse de mais pesquisadores. Quando deu certo, a Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) era periférica até mesmo no Nordeste. Hoje ela é líder em algumas áreas e consegue sombrear universidades do Sul. Além do Instituto do Cérebro, a universidade abriga um Instituto Internacional de Física, que é de altíssimo nível, com cientistas com prêmios Nobel em seu comitê gestor. Outros institutos também trouxeram grandes pesquisadores, de altíssimo nome. Vários dos nossos professores fecharam laboratórios em outras cidades e trouxeram suas pesquisas para cá. Nosso plano é justamente agregar competências, tecnologias e pessoas qualificadas. O difícil é começar. Mas, uma vez que começa, o processo ganha uma dinâmica própria. E foi o que observamos. Atualmente, nosso instituto abriga 160 pessoas que estão envolvidas em neurociência.

E: O senhor tem se debruçado sobre questões referentes ao sono, um tema considerado central nas sociedades antigas, quando guerras, colheitas e até casamentos eram determinados por sonhos. Há ainda paralelo entre esses tempos e o momento atual?
SR: Muito pouco. As pessoas hoje nem prestam atenção no fato de que sonham. Durante toda a Antiguidade, até a Idade Média, os sonhos eram uma das principais fontes para tomada de decisões. Isso está bem documentado para a Idade Antiga. Quase tudo era definido por uma espécie de chamado dos deuses: as guerras, casamentos, a hora certa de colher, de plantar, se um povo deveria ou não fazer uma aliança. Tudo isso era formalmente submetido ao oráculo noturno, que é o sonho. Em algum momento na Renascença e, depois, no Iluminismo a noção de que o sonho pode prever o futuro começou a se perder. Mas aí veio o (psicanalista Sigmund) Freud e mostrou que sonhos têm a ver com aquilo que está acontecendo com a pessoa.

E: Hoje entendemos melhor por que sonhamos?
SR: Acho que estamos finalmente começando a entender o que são os sonhos e por que, por tantos milênios, os sonhos eram considerados premonitórios. Há sonhos que são uma mistura de fatos que as pessoas não entendem e há os que são extremamente significativos, e funcionam como revelações. Esse segundo tipo acontece quando a pessoa está passando por algo muito impactante. Perdeu alguém na família, está passando por uma doença, perdeu o emprego, ou ganhou o emprego que queria. Quer dizer, tanto as coisas negativas quanto as positivas, quando são muito intensas, penetram nos sonhos das pessoas.

E: E quanto aos sonhos que não fazem muito sentido, como pessoas voando ou situações inusitadas e desconexas?
SR: Por mais que você não entenda algum sonho, ele faz parte de coisas que você já viveu ou viu em sua vida. Na verdade, não há nada de acaso nos sonhos das pessoas. Só que, quando você tem uma vida confortável, sem grandes desafios, ou sem grandes consequências – uma vida “morna” –, os sonhos não são muito significativos. Feito de pedaços de coisas, uma espécie de colcha de retalhos de pequenos problemas. A ideia é que os sonhos sejam uma ativação das memórias do passado.

E: E quanto aos sonhos inexplicáveis, que mostram situações que nunca vivemos, como experiências inusitadas, lugares que jamais visitamos pessoalmente?
SR: De onde vêm os sonhos? Das memórias. Mas é como um retrato falado. Você pode misturar as peças. Você pode falar que esteve, em um sonho, em uma cidade que você nunca viu antes. Mas essa cidade é feita de ruas, de pontes, de casas e de comércios que você pode ter visto tanto na sua vida, em viagens que fez, quanto em filmes, fotos, etc. Esse é um fenômeno atual da modernidade, da era da tecnologia que faz parte da nossa vida. Somos todos usuários de internet, de televisão. Então, durante sua vida, você foi exposto a uma quantidade incalculável de gigabytes de informação visual. E muitas dessas memórias, na verdade a maior parte delas, você nem sabe que tem, porque você não viveu aquilo diretamente. Mas seu sistema visual recebeu aquela informação. A lógica é de que você faz um banco de memórias ao longo da vida.
 
 
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EDIÇÃO 58 | outubro de 2017