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CIDADE | Conscientização »

Ocupemos o lago!

Na linha de movimentos como o Occupy Wall Street, organizadores do Ocupe o Lago mobilizam Brasília para a importância de cuidar das águas do Paranoá

Deco Bancillon - Publicação:25/05/2016 14:13Atualização:25/05/2016 14:26
No último Dia Mundial da Água, surfistas e praticantes de stand up paddle realizaram um abraço coletivo: o Ocupe o Lago chama a atenção para problemas ambientais (Andréa Martins/ Divulgação)
No último Dia Mundial da Água, surfistas e praticantes de stand up paddle realizaram um abraço coletivo: o Ocupe o Lago chama a atenção para problemas ambientais
Num domingo à tarde, em dezembro de 2013, cerca de 6 mil pessoas confirmaram presença em um evento marcado pelas redes sociais que convocava jovens. Eram adolescentes em sua maioria, moradores de bairros da periferia de São Paulo, que se mobilizavam para ocupar o estacionamento de um shopping localizado em Itaquera, na Zona Leste da capital paulista. A ideia era ficar do lado de fora do estabelecimento. Mas, diante da tentativa dos seguranças de dispersar o grupo à força, os adolescentes correram para dentro do shopping. Com o tumulto, muitos pensaram se tratar de um arrastão. Era, no entanto, o embrião dos chamados "rolezinhos".

O movimento, que conclamava as pessoas a tomarem espaços públicos e privados como forma de protesto, rapidamente ganhou adesões e multiplicou-se para outras cidades, entre as quais a capital federal. Aqui, um evento no Facebook convocou jovens para ocuparem um shopping no Lago Norte. Apesar de mais de 3 mil confirmarem presença nas redes sociais, no dia da manifestação a adesão mal chegou a 30 pessoas. “Eram alguns garotos tomando cerveja e fazendo um batuque animado. Eles diziam que não havia espaço público para lazer em Brasília. Daí eu pensei: cara, tem, sim”, relembra o bancário Marcelo Ottoni.

Praticante assíduo de esportes náuticos, ele imaginou que, se o problema era a carência de espaços públicos, o lago Paranoá, com seus 50 quilômetros quadrados de área e quase 80 quilômetros de extensão, seria uma boa alternativa. Ao lançar a ideia na internet, Ottoni viu o número de adesões crescer rapidamente. Em poucos dias, já eram 20 mil as presenças confirmadas em um evento no Facebook. Nascia ali o movimento Ocupe o Lago.

Desde o início, a ideia era incentivar a ocupação popular do Paranoá levando em conta três pilares da sustentabilidade: a prática esportiva com segurança, a conscientização ambiental pelos frequentadores do lago e o entretenimento consciente. "A ideia era que cada vez mais pessoas conhecessem esse cartão-postal de Brasília e que soubessem aproveitá-lo para que a nossa ocupação não gerasse danos permanentes ao meio ambiente", conta Ottoni, presidente da Associação Ocupe o Lago.

Inspiração para o movimento brasiliense: o Occupy Wall Street é a principal e mais longeva experiência desse tipo (Alisson Joyce/ Getty Images)
Inspiração para o movimento brasiliense: o Occupy Wall Street é a principal e mais longeva experiência desse tipo
"Com a mobilização social, conseguimos colocar de pé, logo no primeiro evento que realizamos, uma estrutura que custaria em torno de 300 mil reais. E o mais impressionante é que organizamos tudo em pouco mais de um mês”, conta designer Tony Lopes, coordenador de comunicação do Ocupe o Lago.
Responsável por angariar doações, Tony teve, literalmente, de passar o chapéu para arrecadar cerca de 1,5 mil reais com os apoiadores da causa. Desde então, foram realizadas mais de 30 atividades distintas, entre festas, plantio de árvores e mudas, limpeza do lago e comemorações pelo Dia Mundial da Água, realizado em março. No evento deste ano, surfistas e praticantes de standup paddle realizaram um abraço coletivo tendo como pano de fundo a Ponte JK.

Também é de iniciativa do grupo a criação e conservação do chamado Bosque do Atleta, uma ação para recuperar parte de uma área degradada localizada entre as QLs 11/13 do Lago Norte. Na última edição, realizada em novembro do ano passado, além do plantio de mudas, apoiadores suaram a camisa praticando atividades físicas.

O Ocupe o Lago só saiu do papel, no entanto, com a ajuda de voluntários e do engajamento popular via redes sociais, um roteiro semelhante ao de outras mobilizações de massa que ganharam força no mundo nos últimos anos. Nas contas dos organizadores, por meio das redes sociais, a mensagem do movimento alcançou 700 mil pessoas, não só do Brasil.

No Brasil, uma das ações de resistência popular mais conhecidas vem de Recife, o #OcupeEstelita: contra a transformação do cais em um condomínio  (Julia Jacobina/ DP/ D.A Press)
No Brasil, uma das ações de resistência popular mais conhecidas vem de Recife, o #OcupeEstelita: contra a transformação do cais em um condomínio
É algo semelhante ao que acontece com o primeiro grande ato desse tipo, o Occupy Wall Street, que, embora tenha ocorrido em Nova York, nos Estados Unidos, ganhou as manchetes dos principais jornais do mundo e inspirou atos em outras capitais nos cinco continentes. Considerado pelos organizadores um movimento “sem lideranças, com pessoas de muitas cores, gêneros e opiniões políticas distintas”, o Occupy Wall Street é a principal e mais longeva experiência desse tipo. Nasceu em 2011 e está até hoje em prática, com pessoas se revezando em acampamentos itinerantes próximos ao distrito financeiro de Nova York.

No Brasil, uma das experiências de resistência popular mais conhecidas vem de Recife, com o #OcupeEstelita. Situado às margens do rio Capibaribe, prostrado em uma área de mais de 100 mil m² estrategicamente ao lado do centro histórico da capital pernambucana, o Cais José Estelita tem sido ocupado por pessoas contrárias à transformação do local em um condomínio de torres residenciais e centros comerciais.

Em São Paulo, diversas iniciativas de ocupação de espaços públicos são voltadas para convivência de pessoas em pequenas comunidades. Pequenas intervenções urbanísticas, como o projeto Bela Rua, uma associação sem fins lucrativos que visa transformar cada espaço público em um lugar mais bonito, dão cara nova – e mais leve – à agitada metrópole. A ideia é criar lugares que inspiram a criatividade, como jardins, palcos para pocket shows ou cafés coletivos, por exemplo.

A hashtag #ocupeolago chama pessoas a conhecerem o lago de forma consciente: a campanha é para que a ocupação não gere danos permanentes ao meio ambiente (Minervino Júnior/ CB/ DA Press)
A hashtag #ocupeolago chama pessoas a conhecerem o lago de forma consciente: a campanha é para que a ocupação não gere danos permanentes ao meio ambiente
Algo semelhante ao que acontece com o também paulistano Movimento Boa Praça, que se propõe a revitalizar espaços públicos, e que organiza, a cada último domingo do mês, piqueniques abertos ao público. Também presente em São Paulo, embora tenha nascido em São Francisco, nos EUA, a iniciativa dos Parklets tem mostrado que é possível para uma grande cidade conviver com carros e pessoas, com destaque para este último. A ideia dos Parklets é transformar uma ou duas vagas de estacionamento em minipraças com sofás e pufes, numa espécie de prolongamento da calçada.

Em Brasília, diferentemente de iniciativas em outras capitais, o Ocupe o Lago conta com o apoio de vários órgãos do setor público, que vê com bons olhos a ocupação do Paranoá por banhistas, praticantes de esportes náuticos e famílias em geral. “Nós contamos com o apoio do governo desde o começo, porque, sem essa ajuda, seria impossível realizar algumas das ações que apoiamos, como a limpeza da orla, a retirada de lixo imerso e o plantio de árvores”, conta o engenheiro agrônomo Celso Rosal Filho, coordenador de mobilização do Ocupe o Lago.

Aos que ainda não aproveitam o lago por medo de poluição, um recado: mais de 90% de suas águas são consideradas limpas. A única parte em que não se recomenda o banho fica próxima à estação de tratamento de esgoto sul, no braço do Riacho Fundo, onde a índice de balneabilidade é considerado “inadequado” ou “impróprio” .

Uma das ações mais urgentes do Ocupe o Lago é a retirada de entulho: em três anos, o grupo conseguiu livrar as águas do Paranoá 
de 40 toneladas de lixo (Andréa Martins/ Divulgação)
Uma das ações mais urgentes do Ocupe o Lago é a retirada de entulho: em três anos, o grupo conseguiu livrar as águas do Paranoá de 40 toneladas de lixo
Mas, embora o lago hoje esteja despoluído e suas águas sejam um convite a banhar-se, um problema crescente e que causa preocupação é a grande quantidade de lixo deixada por quem frequenta o local. “A população descobriu o lago, o que é muito bom, mas isso trouxe efeitos indesejados, como a quantidade de material não reciclável deixado nas margens”, diz Celso Rosal Filho. Celsão, como é chamado, teme pela conservação do espaço pelas gerações futuras e diz que, durante o tempo que frequenta o lago, nunca viu um nível tão grande de descaso por parte de quem o utiliza. “Vou ao lago desde minha adolescência, pois moro aqui perto, no Lago Norte”, conta o servidor público, que constata: “Nunca vi tanto lixo deixado pelo público quanto hoje.”

Não por acaso, uma das ações mais urgentes do Ocupe o Lago é retirar entulho do local. Em três anos, com ajuda de parceiros, o grupo conseguiu livrar as águas do Paranoá de 40 toneladas de lixo. Em apenas um evento, no fim de março, foram retiradas cerca de 10 toneladas de dejetos do fundo ou das margens do lago. Para isso, foi necessário reunir um time inédito de colaboradores. “Nas comemorações pelo Dia da Água deste ano, contamos com 22 instituições de mergulho, que se propuseram a retirar lixo do lago. Foram 278 mergulhadores, que limparam 24 pontos diferentes”, conta Celsão.

Certamente não foi tarefa fácil. Devido ao tom escuro das águas, o mergulho no lago é considerado um desafio até para praticantes profissionais, devido à baixa visibilidade. Mas, se a cor turva atrapalha um pouco, a temperatura agradável, as águas limpas e a descoberta de “tesouros escondidos” são um convite ao mergulho. Aos interessados, dois pontos são considerados imperdíveis para a prática: as ruínas da Vila Amaury, antigo abrigo de operários que ajudaram a construir Brasília, submerso pelas águas após a abertura das comportas da barragem do Paranoá, e a própria represa, entre o Paranoá e o Lago Sul.

Organizadores do movimento Ocupe o Lago, Celso Rosal Filho, Tony Lopes e Marcelo Ottoni: incentivo à ocupação popular sustentável do Paranoá (Raimundo Sampaio/ Encontro/ DA Press)
Organizadores do movimento Ocupe o Lago, Celso Rosal Filho, Tony Lopes e Marcelo Ottoni: incentivo à ocupação popular sustentável do Paranoá
Há um motivo a mais para o mergulho: próximo à barragem, imerso a uma profundidade de aproximadamente 18 metros, repousa no fundo do lago um ônibus escolar praticamente intacto. Não se sabe ao certo como ele foi parar lá. Uma teoria conta que o veículo teria sido afundado de propósito por praticantes do mergulho que estariam em busca de aventura. Ou muito entediados, dizem alguns deles. Bem perto dali há ainda uma Kombi imersa a 19 metros, além de canoas que naufragaram.

Todos esses detalhes de expedições náuticas tendem a perder seu encanto à medida que o processo de degradação ambiental segue em curso no Paranoá. Esquecido por parte da população e pelas autoridades públicas por algumas décadas, o lago enfrentou um contínuo e preocupante assoreamento, ocasionado pelo mau uso do solo e da degradação da bacia hidrográfica, causada, principalmente, por desmatamentos e construções irregulares às margens do lago. Como consequência, o reservatório já perdeu 15% do tamanho que tinha quando foi inaugurado, em 1959. “Se, entre as coisas que alcançarmos com o Ocupe, conseguirmos pelo menos conscientizar as pessoas desses problemas, já terá valido a pena todo o movimento”, diz Marcelo. “Se nada for feito, em 20 ou 30 anos teremos sérios problemas ambientais. E aí como será para Brasília viver sem o Lago Paranoá?”, pergunta. “Melhor não arriscar”, devolve Celsão.
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EDIÇÃO 57 | Setembro de 2017