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EDUCAÇÃO | Alimentação »

Saúde na hora do recreio

Especialistas dão dicas de combinações de alimentos nutritivos que são fontes de energia e mostram como os pais podem ser criativos para variar o cardápio das lancheiras

Juliana Braga - Publicação:30/05/2016 08:09Atualização:30/05/2016 09:39
Toca o tão esperado sinal e as crianças saem correndo. Além de ser um momento de descanso, o recreio é a hora das brincadeiras livres, das trocas de confidências com os amigos e, claro, da merenda. Naquele mar de lancheiras coloridas, com estampas dos super-heróis e princesas do momento, é possível ver saladas de frutas, frangos desfiados, batatas-doce e uma infinidade, sim, de alimentos saudáveis. Essa cena, incomum há alguns anos, tem se tornado cada vez mais frequente. Com o maior acesso dos pais à informação, o avanço de doenças crônicas em crianças e um empurrãozinho das cantinas escolares, o lanche do recreio tem se tornado em muitos casos mais uma refeição equilibrada na rotina dos pequenos.

De acordo com a endócrino pediatra Asta Brandão, é grande o número de crianças que chegam ao seu consultório com doenças decorrentes de uma má alimentação. O aumento tem sido tão acelerado que, mesmo aquelas que não estão obesas, precisam estar atentas. "Estamos em um ponto no qual, mesmo as crianças que não apresentam excesso de peso, precisam controlar a alimentação para que não avancem esses problemas. As que já estão obesas, então, precisam ter o cuidado redobrado", recomenda.

Consciência: as estudantes Stefane Kouzak
e Katerine Kouzak não reclamam quando os
pais mandam uma fruta ou um sanduíche de
pão integral (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
Consciência: as estudantes Stefane Kouzak
e Katerine Kouzak não reclamam quando os
pais mandam uma fruta ou um sanduíche de
pão integral
De acordo com a especialista, os pais precisam ter em mente que o lanche é uma refeição consumida ao menos cinco vezes por semana e é preciso dar a devida importância a ele. "Além de fornecer os alimentos que dão energia e nutrientes para atividades cognitivas, precisa ter valor nutricional adequado para não trazer prejuízos à saúde da criança ao longo do tempo", diz. Com a inserção de hábitos saudáveis, uma alimentação equilibrada e a prática regular de exercícios, é possível reverter disfunções já adquiridas e evitar que, no futuro, as crianças sofram com doenças como hipertensão e diabetes.

Para a hora do recreio, é fundamental ter sempre um carboidrato e uma proteína para não faltar nutrientes. A endocrinologista sugere também castanhas, fontes de ômega 3 e ômega 6, importantes para auxiliar o desenvolvimento cognitivo. Asta Brandão diz que é preciso haver uma combinação de alimentos nutritivos e com fonte de energia. "Sem energia, a criança não consegue prestar atenção nas aulas e seu rendimento pode cair."

Garantir a alimentação saudável das crianças, no entanto, não é tarefa fácil. As estudantes Stefane Kouzak e Katerine Kouzak, de 9 e 6 anos, respectivamente, têm na ponta da língua suas preferências. A mais velha gostaria de levar chips e salgadinhos na lancheira todo dia. A mais nova adora biscoitos. Mas não reclamam quando os pais mandam uma fruta ou um sanduíche de pão integral.

O pai das meninas, Solon Kouzak, conta que esses hábitos refletem a personalidade das filhas e que, mesmo intercalando com uma besteira ou outra nos fins de semana, elas estão acostumadas a, inclusive em casa, evitar industrializados e comer saladas, frutas e legumes. "Fritura não tem e elas nem perguntam. Mesmo quando viajamos, já é um alimento que elas não sentem falta. Um pouco por conta do que a escola ensina, um pouco por conta da oferta. Sem oferta, não tem tentação", conta Solon.

Mas o pai reconhece que nem sempre consegue restringir os alimentos industrializados ou mais calóricos. "Nossa preocupação número um é com a segurança alimentar. Às vezes não mandamos um sanduíche com uma proteína porque essas comidas são perecíveis demais", diz. Também há sempre atenção para enviar uma quantidade adequada. "Não pode faltar, porque senão, elas acabam não prestando atenção nas aulas", completa.

A nutricionista Dania Sánchez ensina que, com um pouco de planejamento, é possível garantir o lanche saudável todos os dias, mesmo com a rotina corrida de pais e mães. "Quando pensamos em lancheira saudável, muitas vezes pensamos onde encontrar uma superprateleira milagrosa com lanchinhos práticos, gostosos e, se possível, saudáveis", diz. Ela ressalta, no entanto, que é preciso tomar muito cuidado ao optar pelos industrializados. "As prateleiras estão abarrotadas de lanchinhos lindos, coloridos, com os super-heróis favoritos, que, para tentar amenizar a culpa dos pais, escrevem em letras garrafais ‘zero gordura trans’, dando uma informação pela metade, levando o consumidor a achar que realmente isso é possível", alerta.
 
Dania Sánchez, nutricionista, garante: 'É possível garantir o lanche saudável todos os dias, mesmo com a rotina corrida de pais e mães' (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
Dania Sánchez, nutricionista, garante: "É possível garantir o lanche saudável todos os dias, mesmo com a rotina corrida de pais e mães"
 
Dania dá algumas dicas - a mais importante delas é ser criativo e sempre variar.  "Uma lancheira monótona, sempre com as mesmas preparações, faz a comida do colega ficar mais interessante. Varie o cardápio, mudando o tipo de pão, os acompanhamentos ou as bebidas."

Outra dica da especialista é não exagerar na quantidade. Isso pode gerar dúvidas, desânimo e frustrações do tipo "todo mundo comeu tudo, menos eu". Ela recomenda ainda envolver as crianças no preparo da merenda, levá-las à feira e perguntá-las o que querem comer. "Consultá-las antes de montar a lancheira é um jeito de fazê-las se sentirem parte dessa escolha e evitar surpresas negativas depois. Como pais, devemos educá-las a fazer as melhores escolhas", opina.

A nutricionista do Colégio Mackenzie,
Renata Carvalho, diz que a escolha 
de alimentos nutritivos é um hábito 
na cantina: 'Os campeões de procura
são as frutas e os sanduíches naturais' (Raimundo Sampaio/ Encontro/DA Press)
A nutricionista do Colégio Mackenzie,
Renata Carvalho, diz que a escolha
de alimentos nutritivos é um hábito
na cantina: "Os campeões de procura
são as frutas e os sanduíches naturais"
Mas o que fazer quando, por conta da rotina, a criança precisa recorrer à cantina? Especialistas indicam que os pais precisam checar, olhar as opções disponíveis e, principalmente, saber se podem confiar que o filho fará boa escolha. Às vezes a cantina tem opções mais saudáveis, mas a criança compra o que mais agrada. No Colégio Mackenzie, Stefane Kouzak confirma que as alternativas são "restritas". Desde 2011, a escola optou por oferecer menos das chamadas "porcarias". Lá não entram frituras, chocolates, refrigerantes e alimentos com alta concentração de sódio ou gordura saturada. Os doces permitidos são as paçoquinhas, ou bananinhas cristalizadas.

Renata Carvalho, a nutricionista responsável, conta que a aceitação das crianças é boa e, hoje, já dá para perceber a escolha de alimentos mais nutritivos como hábito. "Quando falta uma salada de fruta, por exemplo, é complicado, porque as crianças já estão acostumadas a pedir na hora da merenda", relata. Os campeões de procura são as frutas e os sanduíches naturais.

É claro que há dificuldades. Ainda hoje há muita reclamação pela ausência dos refrigerantes. O chocolate, diz, também faz falta para muitos dos pequenos. Segundo ela, alguns pais mandam, de casa, as preferências pouco nutritivas dos filhos. "Tem até os que acham que é um absurdo restringir as opções, porque estamos interferindo na escolha dos seus filhos", revela. Por isso, ressalta Renata, é fundamental que os pais colaborem com a saúde deles. "A criança reflete o que tem em casa. Se o pai não tem costume de comer coisas saudáveis, não adianta oferecer na minha cantina. A escola pode ajudar. Mas a conscientização tem de vir da família."
 
 
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EDIÇÃO 58 | outubro de 2017