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NEGÓCIOS | Empreendedorismo »

Conjuntura favorável

A crise econômica que assusta muitos investidores é sinônimo de oportunidade para um grupo de empreendedores brasilienses

Juliana Fernandes - Publicação:30/05/2016 09:40Atualização:30/05/2016 10:09
Donos da Bolos da Sinhá, os irmãos Marco
Rios e Ana Paula Santana investem em um
clima familiar na loja e na linha fitness: o 
sucesso leva à expansão dos negócios
 (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
Donos da Bolos da Sinhá, os irmãos Marco
Rios e Ana Paula Santana investem em um
clima familiar na loja e na linha fitness: o
sucesso leva à expansão dos negócios
Quem chega à Bolos da Sinhá, na Asa Norte, pode ter a impressão de estar entrando na cozinha da avó. Um delicioso cheiro de bolo assando se mistura a um intenso aroma de café, abrindo imediatamente o apetite. No balcão, uma senhora simpática recebe o visitante com um largo sorriso e bons dois dedos de prosa para trocar. Ao sair, o cliente tem a sensação agradável de ter estado em um lugar familiar. Foi no diferencial desse clima - somado a uma linha de guloseimas fitness - que os irmãos Marco Rios e Paula Santana apostaram na sua mais recente empreitada de negócio próprio.

Marco e Paula são exemplos de brasilienses que não se deixaram abater com a crise econômica que assusta o Brasil e decidiram criar um negócio próprio ou expandir os que já possuem. São moradores da capital que perceberam que, em momentos como esse, oportunidades inexploradas e que agradam a todos os tipos de bolso têm sido bem recebidas. Eles conseguem, mesmo nesta época em que grande parte dos brasileiros está puxando o freio, garantir crescimento nos faturamentos.

Dados levantados pelo Sebrae em parceria com a Fundação Getulio Vargas (FGV) e a Global Entrepreneurship mostram que houve aumento significativo no número de empreendedores no Brasil. Em 2015, a taxa total de empreendedorismo no país foi de 39,3%, o que significa que, ao longo do ano, 52 milhões de pessoas entre 18 e 64 estavam envolvidos na criação ou manutenção de algum negócio em estágio inicial. Em 2014, essa taxa era de 34,4%. Houve nesse período, no entanto, um decréscimo do percentual de empreendedores motivados por uma oportunidade, ou seja, aqueles que observaram um nicho inexplorado ou perceberam a chance de criar um negócio novo com possibilidade de retorno.

No Distrito Federal, as micro e pequenas empresas e os empreendedores individuais representam, hoje, 92,7% de todas as empresas. São, ao todo, 275.469. Só neste ano, até o início de abril, foram abertos 7.153 negócios, o que representa crescimento de 2,66%. Se compararmos com 2013, ano que a crise começou a apertar mais no bolso dos brasileiros, esse crescimento foi de 34,95%. A maior parte desses negócios abrange o comércio varejista de artigos de vestuário e acessórios, e já cresceu 2% do ano passado para cá. São 7,4% do total.

De olho nesse movimento crescente de novos empreendimentos para quem não tem experiência é que os irmãos Paula e Marco decidiram expandir a Bolos da Sinhá por meio de franquia e dar a possibilidade a quem quer empreender de começar por um negócio já estruturado. "Queremos oferecer toda a expertise que nós já temos em fazer bolos, em administrar a loja, em precificar. Já apanhei muito e hoje podemos dar suporte para quem quiser empreender nessa área também", explica Paula. Além de abrir outras unidades em Brasília, os irmãos estão de olho no mercado em Luziânia (GO), no Rio de Janeiro e em Campinas (SP).

De acordo com a Associação Brasileira de Franchising, o número de empresas franqueadas no DF cresceu 5,9%, chegando a 2,5 mil unidades, com faturamento de  11,8 bilhões de reais, 10% a mais que 2014. O total de empresas franqueadas na capital federal representa 9% de todas as do país.

Depois de abrir sete lojas em Brasília, 
Diego Moreira lançou franquia da 
Aventto e diz que conhece bem seu 
público: 'As pessoas não deixaram de
consumir, mas muitas começaram a 
buscar produtos mais baratos'  (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
Depois de abrir sete lojas em Brasília,
Diego Moreira lançou franquia da
Aventto e diz que conhece bem seu
público: "As pessoas não deixaram de
consumir, mas muitas começaram a
buscar produtos mais baratos"
O empresário Diego Moreira é outro que decidiu aproveitar a onda de negócios próprios e lançar uma franquia de sua marca de óculos, a Aventto. Em 2012, começou a estruturar o processo de franquamento, para que fosse feito de forma sólida. Um dos pontos observados ao longo desse processo foi o número ideal de unidades em cada cidade, para causar um "burburinho", ter 'uma sinergia melhor", e, com isso, sucesso no investimento. Chegaram ao número de cinco unidades. Fizeram um plano completo, para que o franqueado possa saber, por exemplo, a relação entre o custo e o tempo de retorno do investimento.

Agora ele está abrindo cinco lojas no Rio de Janeiro e começou a negociação para mais uma unidade em Salvador. Goiânia e Belo Horizonte são outras praças consideradas prioritárias no plano de expansão. Para dar esse passo, Diego abriu sete lojas em Brasília, todas dele e da família, para sentir primeiro como funciona o mercado.

Um dos segredos para crescer mesmo em um período de crise, explica Diego Moreira, é o preço dos seus produtos. "Sempre tivemos como posicionamento ter um preço justo. Isso hoje para o mercado é fundamental. As pessoas não deixaram de consumir. Mas muitas começaram a buscar produtos mais baratos sem abrir mão da qualidade e de serviços prestados", detalha. De acordo com Diego, o seu público-alvo sempre foram as classes B e C, e isso os favoreceu neste momento.

Outro ponto positivo foi a experiência na área. A família de Diego era franqueada a uma outra marca, que acabou falindo em 2011. Essa empresa vendia apenas óculos escuros, que não têm saída o ano inteiro.  "Se está chovendo, como você vende na chuva? Quando começamos a pensar na Aventto, planejamos uma loja de artigos esportivos e moda. Temos garrafas, pulseiras, colares, bonés, viseiras. O mix de produtos expandiu e acabamos contemplando melhor a necessidade do nosso público", avalia.

Para Diego, há ainda outra vantagem para quem quer procurar um novo caminho: a possibilidade de ter preços diferenciados, já que o volume de compra é muito maior. Ele conta que, mesmo atravessando um período de crise, não precisa aumentar o valor de venda de seus produtos, já que tem conseguido preços interessantes com seus fornecedores diante da compra volumosa por conta da expansão. "O poder de barganha é muito maior quando se está em uma rede. Você pode dividir com franqueadores custos de banners, panfletos e o que for preciso. A franquia,  quando é bem estudada, mostra-se um negócio forte", diz.

Consultor do Sebrae, Roberto Rocha alerta para alguns cuidados necessários na hora de escolher a franquia a ser comprada. "A empresa precisa ter nome no mercado e know-how de operação. Algumas marcas resolvem ser franqueadoras sem os requisitos mínimos para atender esse parâmetro", explica. Para não cair em uma cilada, o consultor sugere procurar outros franqueados e conversar abertamente sobre as dificuldades, os pontos positivos e negativos.
 
'As pessoas estão  buscando alternativas para manter seus rendimentos', explica Roberto Rocha, consultor do Sebrae (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
"As pessoas estão buscando alternativas para manter seus rendimentos", explica Roberto Rocha, consultor do Sebrae

Fernando Santiago, representante regional da Rede Global de Empreendedorismo, identifica dois tipos de empreendedorismo: o aventureiro e o de oportunidade. O primeiro é relativo a pessoas que, seja por necessidade, seja por impulso, decidem empreender sem estudar o mercado, sem conhecimento nenhum, e acabam entrando para a estatística de negócios que fecham no primeiro ano.  "Pode dar certo? Pode. Mas vai ser 'na unha'", explica Fernando. Ou seja, ter uma ideia não é suficiente. Segundo ele, geralmente a crise é, sim, um bom momento para iniciar. "Crise quer dizer que alguns mercados que estavam indo muito bem quebraram, e o dinheiro vai para outros mercados", diz.

O ideal, segundo Fernando, é, mesmo em tempos de vacas magras, tentar optar pelo empreendedorismo de oportunidade, com mais chances de dar certo. É o encabeçado por pessoas que conhecem o mercado e percebem uma chance de fazer algo diferente que possa gerar riqueza e valor para a sociedade.

Acontece que, na hora que as contas começam a acumular e a situação aperta, a maior parte das pessoas acaba entrando no empreendedorismo de necessidade. "Essa modalidade aumenta em função da conjuntura econômica que estamos vivendo. O desemprego aumenta e as pessoas vêm buscando alternativas para manter seus rendimentos", detalha Roberto Rocha.

Um dado que exemplifica essa realidade é o corte por nível de escolaridade dos empreendedores em estágio inicial. O levantamento do Sebrae mostra que aqueles com ensino médio completo são mais ativos do que os que têm nível superior. Quem tem menos formação tende a sofrer mais com reveses econômicos. Também são mais ativos aqueles que possuem renda familiar entre seis e nove salários mínimos, aqueles que não querem ter de baixar o seu padrão de vida.

O publicitário Allan Alves investiu em um
bar que mescla cultura, cerveja e música:
diante da ameaça de desemprego, ele 
optou por um novo estilo de vida (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
O publicitário Allan Alves investiu em um
bar que mescla cultura, cerveja e música:
diante da ameaça de desemprego, ele
optou por um novo estilo de vida
O publicitário Allan Alves se viu em um mercado estagnado em Brasília no ano passado. A agência na qual trabalhava ia fechar na capital e se mudar para São Paulo. Com isso, ele tinha duas alternativas, caso quisesse permanecer nesse mercado: ou mudar-se de cidade ou procurar emprego em outras agências, que também estavam cortando custos. Ele decidiu radicalizar: investiu em um bar que mescla cultura, cerveja e música e optou por um novo estilo de vida. "A meu ver, havia uma oportunidade boa de abrir um negócio diferente, que utilizasse a criatividade." Assim nasceu o Aleatório Bar Galeria, em setembro de 2015.

No começo tudo ia muito bem. Allan e o sócio escolheram a 408 Norte, por ser uma quadra já com movimento de outros bares, e apostou em seus diferenciais para se destacar dos demais. "As pessoas não deixam de se divertir. É uma necessidade básica", diz. Mas, no final do ano, uma ação do governo do Distrito Federal começou a dificultar o funcionamento desses bares por conta do barulho, e as coisas complicaram.

Allan não desistiu. Confiante de que o seu conceito tem futuro, o empresário continua com seu ponto fixo, mas foca agora em eventos externos, como participação em feiras e festas. "Ao longo desse processo, eu me dei conta de que estar amarrado a um ponto fixo é um modelo antigo, ultrapassado, da década de 1970", pontua.

Júnior Vasconcelos é outro exemplo de que é possível crescer mesmo quando a situação do país não é favorável. Ele e seu sócio, Thiago Silva, aproveitaram um nicho de mercado que alavancou no período de crise: a promoção de vendas. Só em 2016, o crescimento já passa de 18%. Ele oferece a empresas com dificuldades de chegar em seus clientes ações promocionais a fim de tornar o produto ou serviço mais conhecido. Suas estratégias passam por degustações em supermercados, quando o consumidor está escolhendo qual produto levar; ou por ações de vendas nas lojas de varejo. Júnior, que começou em 2012 com 15 promotores, fazendo o serviço porta a porta, hoje conta com 380. O que ele faturava em um ano, agora consegue faturar em um mês.

Quando decidiu deixar seu emprego estável para se aventurar no negócio próprio, Júnior conta que "queimou todas as pontes com o passado", para não cair na tentação de desistir e voltar à vida antiga. "Apaguei meu currículo e não sei nem onde está minha carteira de trabalho", diz.  Júnior acredita que ter apostado todas as fichas e acreditado no seu negócio foi fundamental para seu sucesso. "Passei dois anos no escuro, só pensando em fazer o negócio dar certo."
 
Júnior Vasconcelos e Thiago Silva são exemplos de que é possível empreender um negócio próprio em plena crise: 'Apaguei meu currículo e não sei nem onde está minha carteira de trabalho', diz Júnior (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
Júnior Vasconcelos e Thiago Silva são exemplos de que é possível empreender um negócio próprio em plena crise: "Apaguei meu currículo e não sei nem onde está minha carteira de trabalho", diz Júnior
 
Isso foi fundamental, conta, para não desistir nos momentos difíceis. No início, a incerteza dos pagamentos foi uma realidade complicada para superar ao lado da família. "Outro dia eu e meu sócio estávamos jantando com nossas mulheres e lembrando o quanto era difícil não saber se, naquele mês, entraria algum dinheiro. Ficamos emocionados com isso até hoje", relata.

Com dois anos, eles conseguiram montar um escritório em Goiânia. No terceiro, foram para Belo Horizonte. "Fico sem graça quando converso com alguém que conta que está passando por uma crise. Acho até estranho", diz. A empresa hoje está também no Acre, Mato Grosso e Rondônia, e segue crescendo nas regiões Norte e Nordeste. Alguém ainda tem dúvida de que a insegurança dos primeiros meses tenha valido a pena?
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EDIÇÃO 55 | Julho de 2017