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SAÚDE | Emagrecimento »

Não é milagre

Pacientes que implantaram o balão intragástrico, e médicos especializados neste tipo de tratamento, falam sobre como bons resultados podem ser alcançados

Juliana Fernandes - Publicação:30/05/2016 13:11Atualização:30/05/2016 13:26
Hudson de Jesus e Eid Luana Queiroz optaram juntos pelo balão intragástrico: o casal emagreceu, respectivamente, 22 e 12 quilos, em seis meses (Vinícius Santa Rosa/Esp. Encontro/DA Press)
Hudson de Jesus e Eid Luana Queiroz optaram juntos pelo balão intragástrico: o casal emagreceu, respectivamente, 22 e 12 quilos, em seis meses
Cansado de tentar dietas, sempre recuperando o peso perdido depois, o farmacêutico Hudson de Jesus começou a pesquisar na internet métodos de emagrecimento. Além de estar insatisfeito com o próprio corpo, ele tentava encontrar algo que servisse a sua mulher, a enfermeira Eid Luana Queiroz, que enfrentava também sua batalha contra a balança. Os dois não queriam nada invasivo, como a cirurgia bariátrica, mas buscavam algo com resultados rápidos, suficientes para estimulá-los a continuar emagrecendo. Foi quando descobriram o balão intragástrico.

Trata-se de uma prótese colocada no estômago do paciente, restringindo em até 70% sua capacidade interna. O auxílio na diminuição da quantidade de comida ingerida incentiva o hábito de comer várias vezes ao dia. Como ferramenta auxiliar ao emagrecimento, o tratamento com balão intragástrico também necessita de dieta (bastante restritiva no início) e de atividades físicas, além de acompanhamento psicológico. Mas garante resultados como poucos tratamentos: é possível perder até 10 kg em cinco dias.

Hudson e Eid não se decepcionaram. Conforme prometido, emagreceram, respectivamente, 22 e 12 quilos em seis meses. Só nos primeiros 15 dias, Hudson conseguiu eliminar 8 quilos. Não só isso: os dois mudaram seus hábitos de vida e tiveram ganhos na saúde. “Antes eu fazia atividade física, mas não era assíduo. Agora faço com regularidade. Fora isso, passei a ter moderação alimentar, que eu não tinha antigamente”, compartilha Hudson.

De acordo com o cirurgião Fernão Cury, a vantagem do balão intragástrico é ser um procedimento não cirúrgico e, portanto, menos invasivo. É feito por endoscopia, com sedação leve, e o paciente pode voltar para casa no mesmo dia. É contraindicado para pessoas com alguma lesão sangrante no sistema digestivo, ou úlceras. Também não deve ser colocado em quem tenha hérnia de hiato, uma abertura um pouco maior na extremidade do estômago.

Vantagem: Fernão Cury explica que o balão intragástrico é um procedimento feito por endoscopia e, portanto, é menos invasivo que uma cirurgia (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
Vantagem: Fernão Cury explica que o balão intragástrico é um procedimento feito por endoscopia e, portanto, é menos invasivo que uma cirurgia
A colocação do balão é recomendada para pessoas com o índice de massa corporal (IMC), que leva em conta peso e altura, entre 27 e 35. Acima disso, o paciente já pode ter indicação para cirurgia bariátrica, que diminui de forma definitiva o tamanho do estômago.

O paciente pode optar por dois tipos de próteses: a que fica instalada por seis meses ou por um ano. No segundo modelo, é preciso fazer um reajuste porque, com o tempo, o estômago se adapta. A diferença entre elas é apenas o período de uso, que vai depender da meta a ser atingida e, claro, da vontade do paciente.

O médico esclarece que o balão não tira a fome. “A função dele é dar saciedade precoce. O usuário tem praticamente a mesma fome que o paciente sem balão, mas fica satisfeito com menos comida”, detalha Fernão Cury.

O grande segredo do procedimento, no entanto, é o acompanhamento com uma equipe multidisciplinar que inclui nutricionista, psicólogos e professores de educação física. “É preciso que a pessoa entenda que o balão, um dia, vai sair de cena, e ela vai ter de assumir o papel de agente do bom resultado que o balão pode dar”, diz Cury. Para o procedimento ser bem-sucedido, nos primeiros meses as consultas são semanais, até o paciente começar a se adaptar com a nova rotina alimentar e de exercícios.
 
'O que emagreci com o balão em seis meses, 
eu demoraria três anos para perder com dieta', 
conta o empresário André Ulhoa (Vinícius Santa Rosa/Esp. Encontro/DA Press)
"O que emagreci com o balão em seis meses, eu demoraria três anos para perder com dieta", conta o empresário André Ulhoa

De acordo com o cirurgião Marcius Vinicius Moraes, o balão precisa ser visto como uma ferramenta, um facilitador para mudança de hábitos. Como ele ocupa cerca de 70% do estômago, o paciente passa a comer menos, mas tem fome mais vezes ao longo do dia. “Isso acelera o metabolismo”, explica. Fazendo a implantação com o acompanhamento dos profissionais certos, os resultados são sete vezes melhores do que os obtidos apenas com reeducação alimentar.

Foi o que sentiu o empresário André Ulhôa. A família dele tem tendência a engordar e ele já havia tentado inúmeras dietas. “O que eu emagreci com o balão em seis meses, demoraria três anos para perder com dieta”, conta. Segundo o empresário, o segredo é encontrar a motivação para a mudança definitiva de hábitos nos resultados rápidos que o balão oferece. Hoje, ele vai a consultas apenas uma vez por mês, mas relata que já é o suficiente para mantê-lo sem furos na dieta.

Outro motivo para não sair da linha foi todo o desconforto do início do tratamento. André ficou entre os 10% que têm mais dificuldade para se adaptar com a prótese. “Nos primeiros três dias, eu achei que fosse morrer”, conta. Além de dores, sentiu fraqueza e náuseas. Mesmo para quem não tem complicações, o início é bastante restritivo. O paciente pode ingerir apenas cubinhos de sopa congelada, porque a comida gelada ajuda na recuperação do estômago.

Mais significativos que os ganhos estéticos, garantem os pacientes, são os benefícios para a saúde. É preciso, no entanto, manter uma vida saudável para que os quilos perdidos não retornem. Eid Luana, a mulher de Hudson, que chegou a perder 12 quilos, não conseguiu manter o bom resultado. Após retirar o balão, com seis meses de uso, Luana engravidou. Ao lado do marido, que mantém o mesmo peso até hoje, conseguiu seguir a dieta e, durante a gestação, ganhou somente nove quilos.
 
Marcius Vinicius Moraes, cirurgião: 'Fazendo acompanhamento 
com profissionais certos, os resultados são sete vezes melhores do que os obtidos apenas com reeducação alimentar' (Vinícius Santa Rosa/Esp. Encontro/DA Press)
Marcius Vinicius Moraes, cirurgião: "Fazendo acompanhamento com profissionais certos, os resultados são sete vezes melhores do que os obtidos apenas com reeducação alimentar"

Eid, porém, não resistiu a um revés emocional. Semanas depois de dar a luz, perdeu uma sobrinha, também bebê, e o abalo levou a enfermeira a sair da dieta e a abandonar os hábitos que havia adquirido. “Eu estava no meu período de puerpério. Juntou a descarga de hormônio e foi uma fase difícil… Engordei 12 quilos em pouco mais de dois meses”, diz.

Segundo Marcius Vinicius, assim como na cirurgia bariátrica, o balão também tem um percentual de reganho de peso. De acordo com as estatísticas do médico, cerca de 70% dos pacientes conseguem manter o peso perdido no prazo de um ano.
 
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EDIÇÃO 58 | outubro de 2017