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ENTREVISTA | Rogério Rosso »

"Nunca quis ser político"

A grande visibilidade conquistada com o cargo de presidente da Comissão Especial do Impeachment não mudou a maneira com que o deputado federal Rogério Rosso encara seu trabalho - nem seus hábitos esportistas

Ana Letícia Leão - Redação Publicação:28/06/2016 10:28Atualização:28/06/2016 11:06
Filho de servidor público, o deputado federal Rogério Rosso chegou a Brasília ainda bebê e passou a juventude na capital do rock nos anos 1980. Hoje, ele se define como um "advogado e músico, que se tornou político". Casado com a brasiliense Karina Curi Rosso, filha do dono da Rede Curinga dos Pneus, e pai de quatro filhos, ele diz que não se preparou para ser político. "Foi uma opção familiar, um desafio", explica. Quando era diretor da Fiat, em função de algumas mudanças na empresa, ele precisaria se mudar para a Alemanha e deixar a família no Brasil. À época, com um filho pequeno, ele preferiu topar o convite do então governador Joaquim Roriz para assumir a Secretaria de Desenvolvimento do DF e não precisar sair do país.

Em entrevista a Encontro Brasília, Rosso avalia o atual cenário político brasileiro e responde à possibilidade de estar sendo cotado para presidente da Câmara dos Deputados com modéstia. Adepto do triatlo, o deputado acorda às 5h30 e anda de bicicleta quase duas horas por dia. Às sextas-feiras, tal como ocorreu quando ele recebeu a reportagem, é de praxe: o terno fica em casa, porque ele sai do Lago Sul com sua montain bike e vai para a Câmara dos Deputados com trajes - e temperamento - bem mais descontraídos do que os de qualquer colega parlamentar.
 (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)

Encontro Brasília: O que podemos esperar do Brasil com Temer na Presidência?

Rogério Rosso: O Brasil vive um momento excepcional, atípico, uma crise econômica e política, uma instabilidade social muito intensa e muito evidente. Há um governo interino enquanto a presidente Dilma Rousseff está sendo julgada pelo Senado Federal. O presidente Temer tem muita experiência política. Nós sabemos que essa crise econômica está muito vinculada à crise política, uma retroalimenta a outra. Então, esperamos deste governo o que tem acontecido na prática desde que o presidente Temer entrou: que o Congresso aprove medidas importantes para a economia, para o povo brasileiro. Todas aquelas que já foram encaminhadas ou priorizadas pelo presidente Temer já tiveram, integral ou parcialmente a sua aprovação. Exemplifico a nova meta fiscal, aprovada em uma madrugada.

E: Então, a seu ver, com o governo interino, a crise tende a passar?

RR: Michel Temer está muito focado. Recentemente nós almoçamos juntos em casa e também no Palácio. Em 90% do tempo em que estive com ele nas últimas vezes, vi sua preocupação com os quase 12 milhões de desempregados, com a questão do equilíbrio das contas públicas, da retomada dos investimentos, sejam eles públicos ou privados, do retorno da inserção do Brasil no ranking dos países competitivos. O Brasil hoje tem uma das maiores economias do ponto de vista da formação do PIB (Produto Interno Bruto), mas deixou de ser um dos principais exportadores, por exemplo. Então, como é que vamos criar empregos só com o mercado interno? O presidente tem essa visão bastante clara de incentivo à economia produtiva, de ajuste fiscal, de retorno da credibilidade do país perante a comunidade investidora nacional e internacional.

E: Mesmo com o afastamento de Dilma Rousseff e o impeachment ainda em processo, o governo Temer enfrenta muita resistência e polêmica, principalmente sobre a indicação dos ministros. Ele se equivocou na indicação dos novos nomes?

RR: O presidente Temer é, acima de tudo, um jurista, um professor de direito constitucional. Emérito, inclusive. Ele sabe que, do ponto de vista jurídico, uma citação ou uma investigação não é uma condenação. Quando ele nomeou alguns ministros, especialmente nos casos do Romero Jucá e do Fabiano Silveira, é que vieram a público gravações envolvendo o governo. O mais interessante é a visão, ou a versão, que algumas pessoas dão. O Romero Jucá, que com certeza é um dos senadores mais competentes que o Senado tem hoje - e eu não vou julgá-lo do ponto de vista pessoal, porque ele está respondendo e poderá esclarecer nos devidos fóruns - foi afastado. Quando veio à tona a gravação do ministro da Transparência, no mesmo dia Temer tomou a decisão de afastá-lo. Ele entende, claro, que a Operação Lava-Jato é um divisor de águas, um temporal na política brasileira. Acredito que o presidente está dando a resposta que todo o povo brasileiro espera. Quanto a prejulgar uma pessoa, se ela ainda não foi condenada, realmente, é uma questão muito delicada.

E: O que muda no país a partir de agora?

RR
: Eu espero que o país consiga, com apoio político que o presidente Temer demonstra ter, com essas primeiras ações econômicas, tanto no gerenciamento direto da economia, com o ministro Meirelles, quanto no gerenciamento de empresas, que o Brasil comece a voltar para o trilho do desenvolvimento.

E: No início, o senhor apoiava o governo Dilma. A partir de certo momento, vocês mudaram e votaram a favor do impeachment na Câmara. Qual foi o motivo para essa mudança de linha?

RR: No meu caso, é muito simples. Eu nunca votei no PT. O PT em Brasília sempre esteve no campo oposto, ou seja, foi nosso adversário político. O PSD é um partido novo, que nas eleições de 2014 nacionalmente apoiou a chapa da presidente Dilma e, regionalmente, liberou seus diretórios regionais e municipais para trabalharem da forma como entenderem. Eu fui designado líder da bancada, como sou hoje, líder da bancada do PSD, e reconduzido agora em 2016. O presidente Temer faz parte da mesma chapa da presidente Dilma. Quando as pessoas votaram em 2014, elas votaram na chapa, portanto a nossa bancada, e eu por ser líder da bancada, tenho a responsabilidade, a atribuição e a missão de sempre procurar tirar a média. E a média da bancada era pelo impeachment. A bancada sempre se mostrou, de forma muito transparente, dividida. Então, eu sou o líder, tenho obrigação de fazer os encaminhamentos. Com relação ao impeachment, a própria resultante mostrou: na nossa bancada foram 29 votos favoráveis e 8 votos contrários. Portanto, mais de dois terços votou pelo impeachment de Dilma.
 (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)

E: O senhor acha que a defesa pode conseguir reverter o impeachment?

RR: É fundamental que possamos dividir as etapas. A etapa da Câmara era a da admissibilidade. A Câmara percebia, do ponto de visto técnico, jurídico e político, que o Senado deveria, ou não, processar e julgar a presidente de um eventual crime de responsabilidade. A Câmara entendeu que sim. Eu também entendi que sim. Do ponto de vista da lei orçamentária, do ponto de vista das questões fiscais, das operações de crédito. Mas não é a Câmara que julga. A Câmara simplesmente admitiu que o Senado pudesse julgar. Eu particularmente também entendi que a presidente vai passar por esse julgamento e ela terá, como teve na Câmara, a ampla defesa, o processo natural, a ordem natural da defesa. Imagino que ela tenha uma equipe competente para fazer a defesa, mas são os senadores que vão definir em plenário. Vamos aguardar.

E
: O Brasil está dividido. Parte acredita que houve um "golpe" e parte tem esperança em um novo governo. Existe uma estratégia para unificar o país?

RR
: Eu fico bastante preocupado quando percebo que líderes brasileiros insistem na questão do golpe.  Não consigo enxergar o golpe quando a Constituição está sendo cumprida, quando o Supremo Tribunal Federal, em diversas oportunidades, se manifestou sobre o rito do impeachment, sobre o roteiro processual e legal, quando a Câmara e a comissão do impeachment possibilitaram a mais ampla defesa possível a Dilma, quando todas as instituições estão funcionando normalmente. A presidente, mesmo afastada, está podendo viajar com estrutura governamental, continuar no Palácio do Alvorada, ter mais de 120 assessores a sua disposição e ter absolutamente garantido seu direito de ir e vir. Um golpe moderno? Não é um golpe. A Constituição prevê a questão do impeachment de forma legítima. Eu fico preocupado por jogarem para opinião pública e fazerem marketing de que é golpe. Está bem claro que a comunidade internacional compreendeu que não é golpe, o Supremo Tribunal Federal, árbitro dos conflitos constitucionais, entendeu também. O Congresso entendeu, a comissão especial no Senado, o plenário do Senado, então, enfim... está tudo funcionando para que possamos pacificar o país. Pacificar é ter a compreensão coletiva de que, acima de qualquer divergência, está o povo brasileiro, está a urgência de resolver 12 milhões de desempregados e 170 bilhões de reais de déficit fiscal.

E: O que o Brasil precisa resolver "para ontem"?

RR: A economia, o mais rápido possível. Colocar o Brasil novamente no trilho do desenvolvimento. Reduzir essa escalada da inflação, reduzir os juros absurdos que o povo brasileiro paga, tanto no banco quanto no cartão de crédito, na compra parcelada.

E: E o Distrito Federal, no que precisa melhorar?

RR: O DF tem passado também por algumas crises. Sempre houve uma proteção, uma barreira natural em relação a crises nacionais. É o perfil da nossa economia focada no setor público. A grande massa salarial, o PIB do DF e a economia estão balizados no setor público. Com essa crise nacional, nossa economia começou a sentir também. E o fundo constitucional, que é nossa independência financeira para pagamento de custeio das áreas de segurança, saúde e educação, hoje já não é mais suficiente para cobrir as despesas. E o que é pior: a cada ano, ele tem diminuído, porque é fruto da receita corrente líquida. O DF tem um grave problema financeiro pela frente e o governo federal tem dificuldades práticas de nos ajudar financeiramente. Esse primeiro ano do Rollemberg foi um período de administrar um caixa negativo. Esperamos que no segundo ano o equacionamento dessas questões já possa fazer com que o programa de governo entre em um ritmo mais acelerado.

E: O DF também enfrentou grandes crises políticas, por exemplo, a Caixa de Pandora. Agora não mais?

RR: Nós somos uma unidade especial, não só na Constituição, mas na nossa configuração geopolítica. De fato, o DF vem há alguns anos tendo problemas nas gestões, com interrupções. Da nossa parte, naqueles oito meses (em que foi governador), nossa intenção era impedir que Brasília passasse por alguma intervenção federal. Na minha avaliação, isso seria realmente um desastre sem precedentes. Não governamos para a reeleição, não governamos para fazer marketing, não governamos para ser populistas. Governamos para deixar o DF com todos os indicadores positivos. Assim foi feito. Precisamos ter muita cautela. Os governadores que passam a governar o DF precisam entender que o mundo mudou, que a economia brasileira está com problemas graves e que o DF também tem mudado, a população tem crescido. A população do DF está bastante atenta a tudo isso. Precisamos de governantes que saibam que o DF não é mais aquilo que diziam no passado, 'uma ilha da fantasia financeira' porque a União paga tudo. Não é mais isso.

E: Há boatos de que o senhor poderia ser o novo presidente da Câmara dos Deputados. Isso procede?

RR: Por um lado eu fico feliz, porque sou um novato. Mas eu vejo que, dadas a circunstâncias do país, com essas crises gigantes da economia e da política, tem parlamentar com mais experiência, com mais qualificação. Eu fico feliz com a lembrança. Procuro aproveitar este mandato para exercer, da forma mais intensa, a nossa missão, sem nenhuma hipocrisia, afinal, eu sou deputado federal, líder de uma bancada muito grande, e procuro realmente exercer com bastante dedicação o meu trabalho. A presidência da Câmara é um cargo que todos os parlamentares almejam para ajudar o país. Eu vejo que Deus sabe o tempo. E o meu tempo agora é de aprendizado e dedicação ao Distrito Federal e a minha bancada.
 (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)

E: O senhor acha que está sempre no lugar certo, nas horas certas?

RR: Uma vez perguntaram a Albert Einstein se ele acreditava em sorte. Ele respondeu que a sorte é resultante da oportunidade com o preparo. Eu introduziria algo a mais. Eu sou muito religioso, sou católico e entendo que, acima de tudo, Deus é o comandante das coisas terrenas. Muita gente fala de eleição em 2018, em 2022. Você vai ser candidato a quê? A classe política está péssima perante os olhos do povo brasileiro. Então, você vai ficar pensando já em um cargo de 2018? Se não trabalhar agora e gerar bons resultados, não adianta. Não é estar no lugar certo. Nada disso. É trabalhar, com dedicação, e, no caso, repito, as missões vão aparecendo e você, de alguma forma, vai trabalhando. Nunca imaginei que haveria impeachment, depois não imaginava que eu seria escolhido por todos os candidatos da casa para ser o presidente da comissão. São questões que não conseguimos explicar.

E: Qual é o seu maior sonho político?

RR: Continuar exercendo meu trabalho. Engraçado que, quando terminou o governo de 2010, fiquei sem mandato e as pessoas falavam: 'Nossa, ficar sem mandato é horrível, você vai para o limbo político'. Eu vou confessar que esses quatro anos foram excelentes, porque eu montei um novo partido com Gilberto Kassab, o PSD, pude me dedicar. Ficamos quatro anos estudando a configuração do Distrito Federal e do Entorno, pensando e colhendo sugestões da população. Sem ser piegas, mas, de fato, tentando compreender para onde está indo o Brasil. Primeiro que, quanto mais vivemos na política, percebemos que não sabemos nada de política. São muito dinâmicas as relações políticas, econômicas e sociais. Quero sempre procurar ter essa tranquilidade e sempre me preparar. Fico muito constrangido quando vou a um debate e não estou preparado profundamente. Eu não tenho pretensão de nada. É uma honra enorme ser deputado federal. Meu sonho é fazer sempre, onde eu estiver, a coisa benfeita.

E: Quem é o Rosso fora da política?

RR: Eu procuro cumprir a minha missão de pai, filho, marido e músico. Sempre digo que sou um advogado e músico, que se tornou político. Toco todos os dias, ao menos 10 ou 15 minutos. Na política, o mandato é passageiro. O Rosso é uma pessoa simples, que venceu uma batalha contra o cigarro. Eu fumava muito há cinco anos, cinco maços de cigarro por dia, e tinha 35 kg a mais. Venci essa batalha árdua contra o cigarro com a ajuda do esporte. Hoje faço ciclismo, nado e corro. E adoro andar, passear por Brasília.
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EDIÇÃO 57 | Setembro de 2017