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Arte sustentável

Mesmo não estando na sua melhor fase de conservação, o Mercado Sul de Taguatinga preserva seu traçado original e hoje abriga importantes projetos culturais e de economia solidária

Júnia Lara - Redação Publicação:28/06/2016 15:29
Luthier, o mestre Dico foi um dos primeiros a mudar a situação de abandono do local na década de 1990: aos 81 anos, ele ainda trabalha na oficina e transmite seu ofício (André Violatti / Esp. Encontro / DA Press)
Luthier, o mestre Dico foi um dos primeiros a mudar a situação de abandono do local na década de 1990: aos 81 anos, ele ainda trabalha na oficina e transmite seu ofício
Todo sábado de lua cheia, a festa começa cedo no Mercado Sul em Taguatinga. A partir das 14h, são montadas as barracas de artesanato, de produtos orgânicos e veganos. Artistas, músicos e crianças enchem de vida e alegria o chamado “beco da cultura” da QSB 12/13, ao lado da Samdu. Ali acontece a EcoFeira, que prossegue até por volta das 22h, com apresentações musicais e culturais, encontros entre vizinhos e conversas e troca de ideias sob a luz do luar. No evento de maio, no dia 21, o grupo Seu Estrelo e o Fuá do Terreiro encerrou a noite, encantando o público com o espetáculo A Quarta Roda ou O Amor é Rio Sem Margem.

Juraci Moura é um dos artistas que trabalham para pulsar o Mercado Sul: oficina instrumental de música popular às terças-feiras
 (André Violatti / Esp. Encontro / DA Press)
Juraci Moura é um dos artistas que trabalham para pulsar o Mercado Sul: oficina instrumental de música popular às terças-feiras

Mas nem sempre foi assim a movimentação no Mercado Sul. Se ele viveu seus tempos de glória no início da ocupação de Taguatinga, no final da década de 1950, a área entrou em decadência nos anos 1980. Uma conjunção de fatores, como o desinteresse dos proprietários (herdeiros, muitos que nem moravam mais no Brasil), ações na Justiça questionando propriedades e o descaso do poder público, evitou, por vias tortas, que o mercado sucumbisse à especulação imobiliária que transformou completamente a paisagem do centro de Taguatinga. Mesmo decadente, o mercado preserva o traçado original que faz parte da história da cidade.

O mamulengueiro Chico Simões instalou no Mercado Sul um teatro de bolso e o Centro Cultural Invenção Brasileira:  'Logo percebemos o potencial do local', diz (Marcelo Ferreira/CB/DA Press)
O mamulengueiro Chico Simões instalou no Mercado Sul um teatro de bolso e o Centro Cultural Invenção Brasileira: "Logo percebemos o potencial do local", diz

Essa situação de abandono começou a mudar quando os fabricantes de violão João Pedro Alves (conhecido como mestre Dico) e seu filho, Alexandre Adem Alves, proprietários de um dos pequenos prédios do Mercado Sul, instalaram ali uma luteria ainda em meados da década de 1990, sem se incomodarem com a má fama do lugar. “Aqui trabalhavam pessoas de bem. Muitas tinham medo porque a área estava malcuidada, mas começamos a movimentar, pedimos policiamento e chamamos os amigos para ocupar as lojas”, conta mestre Dico, que, aos 81 anos, ainda trabalha na oficina e transmite seu ofício ao lado do filho.

Meta: os 28 coletivos culturais que atuam no local lutam para que a área seja tombada como patrimônio imaterial e cultural de Taguatinga (Zuleika de Souza/CB/D.A Press)
Meta: os 28 coletivos culturais que atuam no local lutam para que a área seja tombada como patrimônio imaterial e cultural de Taguatinga

Um desses amigos foi o mamulengueiro Chico Simões, que alugou algumas salas de mestre Dico para instalar no local um teatro de bolso e o Centro Cultural Invenção Brasileira, no ano 2000. Transformado em ponto de cultura posteriormente, o projeto foi responsável pela ocupação definitiva do espaço. “Logo percebemos o potencial do local para a instalação cultural e convidamos colegas e conhecidos para se instalarem aqui”, conta Chico Simões.

'O que me atraiu foi a possibilidade de trabalhar de forma autônoma e colaborativa', diz a multiartista Caroline Nóbrega (André Violatti / Esp. Encontro / DA Press)
"O que me atraiu foi a possibilidade de trabalhar de forma autônoma e colaborativa", diz a multiartista Caroline Nóbrega

Aos poucos, artistas como Caroline Nóbrega foram chegando: “O que atraiu foi a possibilidade de trabalhar de forma autônoma e ao mesmo tempo colaborativa e múltipla”, conta ela, que é arte-educadora, artesã e musicoterapeuta. Ela divide o espaço chamado Tempo Eco Arte com o artesão Virgílio Mota. Juntos, eles produzem e ensinam a técnica de transformar papelão e sacos de cimento em móveis, objetos decorativos, utilitários, cenários e instrumentos musicais. Com 65 anos, o mestre artesão Virgílio Mota estima que ensinou a arte do aproveitamento do papelão a mais de 400 pessoas.

Segundo o produtor cultural Abder Paz, um dos coordenadores do Invenção Brasileira, a utopia é pensar a cultura não apenas como transmissão de conhecimento, mas como alimento de um povo, resgatando valores esquecidos pelos que veem apenas o lado comercial da arte. “Queremos alimentar nossos filhos com o nosso trabalho, mas acreditamos que isso pode ser feito de uma maneira mais global e coletiva”, diz. Ele salienta que a experiência do Mercado Sul já se tornou uma referência em economia solidária.

Trabalho colaborativo: o mestre artesão Virgílio Mota estima que ensinou a arte do aproveitamento do papelão a mais de 400 pessoas
Grafites colorem paredes do Mercado Sul de Taguatinga: espaço  (André Violatti / Esp. Encontro / DA Press)
Trabalho colaborativo: o mestre artesão Virgílio Mota estima que ensinou a arte do aproveitamento do papelão a mais de 400 pessoas Grafites colorem paredes do Mercado Sul de Taguatinga: espaço

A meta dos 28 coletivos culturais que atuam no local é conseguir que a área seja tombada como patrimônio imaterial e cultural de Taguatinga, uma forma de escapar da especulação imobiliária. No dia 7 de fevereiro de 2015, artistas ocuparam alguns imóveis do terceiro pavimento do beco, abandonados há anos. Eles brigam na Justiça pelo reconhecimento do uso social da propriedade privada e já conseguiram liminar para permanecer lá. Por enquanto, em contrapartida, estão pagando água, luz e fizeram reparos nas instalações.

Além da EcoFeira, os coletivos promovem várias atividades e oficinas no decorrer da semana. No local funcionam ainda um estúdio de vídeo, uma rádio comunitária, um centro de aluguel de bicicletas, um brechó e até uma igreja evangélica, que convive harmoniosamente com os artistas.
 
Grafites colorem paredes do Mercado Sul de Taguatinga: espaço 
de estímulo a artistas (Zuleika de Souza/CB)
Grafites colorem paredes do Mercado Sul de Taguatinga: espaço de estímulo a artistas
 
Acessíveis, a maioria das programações já tem público cativo. Às terças-feiras, por exemplo, há oficina instrumental de música popular com diferentes músicos, entre eles, Juraci Moura. Nas quartas-feiras, rodas de prosa feminina do coletivo Eu Livre são sempre um convite a participar. Nas quintas, oficinas de jogos de espada, uma tradição do cariri cearense ensinada por Antônio Gomide, artista popular. É só chegar, ambientar-se e contribuir de acordo com as suas possibilidades. Para saber de todas as atividades previstas, vale acessar a página “Mercado Sul Vive” no Facebook.
 
No final de maio, o grupo Seu Estrelo e o Fuá do Terreiro apresentou o espetáculo A Quarta Roda ou O Amor é Rio Sem Margem no Mercado Sul (Nara Oliveira / Divulgação)
No final de maio, o grupo Seu Estrelo e o Fuá do Terreiro apresentou o espetáculo A Quarta Roda ou O Amor é Rio Sem Margem no Mercado Sul
 
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EDIÇÃO 59 | novembro de 2017