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COLUNA | Nas telas »

O diabólico deus mercado

José João Ribeiro - Colunistas Publicação:29/06/2016 15:24Atualização:29/06/2016 16:16
Com uma arma apontada na cabeça, vestindo um colete carregado de dinamites, o âncora canastrão Lee Gates, personagem de George Clooney em Jogo do Dinheiro, a certa altura, mia como um gatinho acuado: "Mas eu sou apenas um apresentador de TV!". O cirúrgico novo longa-metragem da estrela e diretora Jodie Foster consegue cutucar o espectador em diversos assuntos, que fervem na ordem do dia, a começar pelo poder de uma grande mídia, que faz tudo, menos jornalismo, atolada em corrupção, falida (com todas as metáforas possíveis), mas que, infelizmente, ainda é o único meio de informação da grande maioria da população, sobretudo os mais desprotegidos.

No último dia de uma parceria duradoura, o performático apresentador (George Clooney) e sua diretora Patty Fenn (Julia Roberts), juntamente com toda a equipe de estúdio, são surpreendidos ao vivo, com a invasão do desesperado Kyle (Jack O'Connell, magnífico), um garoto, armado, que acreditou nos conselhos do chefe do programa Money Monster, especializado em finanças, para aplicar todo seu dinheiro, fruto da herança da mãe. O espetáculo grotesco-habitual ganha contornos inesperados e tudo é mantido no ar, por exigência do rapaz, que, aparentemente, não tem mais nada a perder.
Entre George Clooney e Julia Roberts,Jodie Foster comemora a repercussão de Jogo do Dinheiro: o filme merece o ingresso por tudo que representa (Divulgação)
Entre George Clooney e Julia Roberts,Jodie Foster comemora a repercussão de Jogo do Dinheiro: o filme merece o ingresso por tudo que representa

Desde que iniciou a carreira atrás das câmeras, com o delicado Mentes que Brilham (1991), Jodie Foster sabe escolher onde pisar. Certamente, muita coisa serviu de aprendizado e um futuro mais premiado será consequência para a garotinha, cria inconteste de primeira qualidade em Hollywood. O currículo conta com episódios de House Of Cards e Orange Is The New Black, que Jodie comandou com notável segurança.
 
Ao selecionar o roteiro de Jogo do Dinheiro, a diretora não poderia ter feito escolha mais atual. A irresponsabilidade dos jornalistas de economia, verdadeiros arautos do apocalipse, ou ao sabor das conveniências, notáveis mestres de como ensinar incautos, a melhor forma, sempre infalível, de como administrar os suados caraminguás. Inevitável não trazer para a realidade brasileira, onde podemos contar até mesmo com monumentais conselhos de um famoso apresentador e comentarista gago. Talvez o único no mundo. Pausa para risos.

Jogo do Dinheiro ainda consegue resgatar o espírito "Ocupe Wall Street", quando parte consciente da juventude de Nova York escrachou o modelo capenga e diabólico do deus mercado. Um filme preciso em ano eleitoral, onde os norte-americanos deixam escapar o luxo de ter como candidato um Bernie Sanders, crítico feroz do sistema e declarado pesadelo dos bancos e grandes corporações, para cair no colo da outra opção democrata, Hillary Clinton, refém até os dentes de todas as fachadas de Wall Street. Sem falar no virtual concorrente republicano, figura anedótica, alaranjada, falida e merecedora de todos os descréditos.
Em temporada concorrida, Jogo do Dinheiro merece o ingresso por tudo que representa. Um respiro no aperto tecnológico infantilizado que massacra o circuito. Esqueça Julia Roberts. O par perfeito do galã Clooney é a promessa Jack O'Connell. O barulho causado pela estreia, em Cannes, foi merecido.
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EDIÇÃO 57 | Setembro de 2017