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TURISMO | Gastrô »

Caçadores de cerveja

Muitos são aqueles que desbravam o planeta atrás de um tesouro feito de água, malte, lúpulo e levedura. Na mala, apenas a vontade de beber uma cerveja única

Luciano Marques - Publicação:29/06/2016 14:26Atualização:30/06/2016 08:51

Edificações como a abadia de Orval fazem sucesso no chamado turismo cervejeiro: mosteiros centenários foram transformados em fábricas fantásticas da bebida
Edificações como a abadia de Orval fazem sucesso no chamado turismo cervejeiro: mosteiros centenários foram transformados em fábricas fantásticas da bebida
Quando alguém arruma as malas e põe o pé na estrada, geralmente vai atrás de pontos turísticos, uma arquitetura diferenciada, cachoeiras ou praias. Alguns, no entanto, traçam todo o roteiro em torno de uma das bebidas mais amadas do planeta: a cerveja. O chamado turismo cervejeiro tem crescido e cada vez mais as pessoas correm atrás de preciosidades centenárias. Alguns querem ir à fonte dos ingredientes, enquanto outros garimpam por castelos e monastérios que fazem cerveja há séculos. Os destinos geralmente passam pela Europa, mas atualmente os Estados Unidos e o Brasil também ganham força.

 

Entre os principais produtores históricos de cerveja, destacam-se os monges trapistas, aqueles que há centenas de anos transformam mosteiros em fábricas fantásticas da bebida. Não à toa a Bélgica e a Holanda (que concentram oito dos 11 pontos autorizados a ostentar este rótulo) estão entre os roteiros preferidos dos caçadores de cerveja. Os belgas são Rochefort, Achel, Orval, Westmalle, Westvleteren e Chimay; os holandeses, Konigshoeven e Abdij Maria Toevlucht. Os outros três estão na Áustria (Engelszell), nos Estados Unidos (St. Joseph’s Abbey) e na Itália (Abadia das Três Fontes).


 'O visual da Jopen é espetacular. Todo o maquinário em cobre está ali na frente enquanto você bebe. Uma experiência única', diz Mariana de Lima Medeiros (esq.) (Arquivo pessoal)
"O visual da Jopen é espetacular. Todo o maquinário em cobre está ali na frente enquanto você bebe. Uma experiência única", diz Mariana de Lima Medeiros (esq.)
A tradutora Mariana de Lima Medeiros já viajou algumas vezes reservando espaço para encaixar o turismo cervejeiro na rota, como já aconteceu em Ribeirão Preto (SP), um dos bons destinos nacionais. Mas a viagem memorável foi a que fez ao lado da mãe, da irmã e do marido à Holanda. O foco era Koningshoeven, mosteiro trapista que fabrica a La Trappe e fica próximo a Eindhoven. Uma grande surpresa veio numa cidade pequena chamada Haarlem, a 20 km de Amsterdã. O lugar que há centenas de anos é conhecido por suas tulipas (a flor, não o copo), agora, também chama a atenção por causa da cerveja, já que a cervejaria Jopenkerk resolveu abrir as portas em uma antiga igreja que foi bombardeada durante a Segunda Guerra Mundial. Eles resgataram receitas antigas dos monges do Haarlem – uma delas de 1407 – e fizeram sucesso. “Nós chegamos de trem ao Haarlem, local que minha irmã descobriu por causa de um blog de brasileiros que moram na Holanda. A cidade é aconchegante e conta com um grote market, que é um centro onde tem grande feira, com bons bares e restaurantes em volta”, conta Mariana. “A visita a Jopen foi incrível, porque o visual é espetacular. Todo o maquinário em cobre está ali na frente enquanto você bebe. Uma experiência única.”


A Holanda também foi o destino de um trio de amigos que se conhecem há 20 anos. Richard Lester Paixão e os irmãos André Meister e David Meister foram até Amsterdã, Haia e Tilburg, onde conheceram o primeiro mosteiro trapista, Konigshoeven. “A comida de lá é maravilhosa e provamos cervejas únicas de edições limitadas”, conta Richard. Mas o ponto alto da viagem veio em seguida, na Bélgica. Lá eles passaram por três pontos especiais: Westvleteren, Orval e Chimay. “Quando chegamos a Poperige, cidade próxima ao mosteiro Saint Sixtus (da aclamada cerveja


Três amigos que têm em comum a paixão por cerveja pedalaram mais de 30 km para chegar ao mosteiro Saint Sixtus: os irmãos David e André Meister, além de Richard Paixão, não se arrependeram  (Arquivo pessoal)
Três amigos que têm em comum a paixão por cerveja pedalaram mais de 30 km para chegar ao mosteiro Saint Sixtus: os irmãos David e André Meister, além de Richard Paixão, não se arrependeram
Westvleteren, considerada por muitos a melhor do mundo), descobrimos que não havia táxis ou carros para alugar. Tivemos de alugar bicicletas e rodamos cerca de 30 km”, lembra André. “Mas as visitas foram muito recompensadoras e o passeio de bicicleta pela área rural, indescritível.”
A famosa quadrupel de Vleteren (uma cerveja que só pode ser comprada no mosteiro e no máximo de seis garrafas por pessoa) atraiu o casal Vinicius Madela e Vanessa Cordeiro. Mas na caça à melhor cerveja do planeta eles acabaram esbarrando em outra preciosidade. “Diziam que ela (a Westvleteren 12) era o santo graal, mas achamos um pub escondido, em um beco chamado Staminee de Garre, na cidade de Bruges. Lá tomamos uma tripel que só é servida no local e que para nós foi a melhor do mundo até então”, conta Vinicius. “Fomos garimpar ouro e encontramos diamante.”


Os dois têm uma regra quando fazem turismo cervejeiro: beber apenas o que é produzido naquela cidade. “Foi assim na Bélgica porque chegamos lá e a carta era tão extensa que percebemos que não conseguiríamos beber nada ‘de fora’. E tem sido assim desde então”, conta Vanessa. “Quando fomos a Nova York, tivemos a chance de beber cervejas do mundo todo a um preço ótimo, mas só consumimos a bebida local.”


A famosa quadrupel de Vleteren atraiu o brasiliense Vinicius Madela à Bélgica: a cerveja só pode ser comprada no mosteiro e no máximo de seis garrafas por pessoa (Arquivo pessoal)
A famosa quadrupel de Vleteren atraiu o brasiliense Vinicius Madela à Bélgica: a cerveja só pode ser comprada no mosteiro e no máximo de seis garrafas por pessoa
A Bélgica pode receber bastante atenção, mas não é unanimidade. As irmãs Rosângela Lopes e Rosane Lopes nem pestanejaram na hora de escolher o destino. “Dublin. Tínhamos de conhecer a fábrica da Guinness”, diz Rosângela, referindo-se a uma das mais icônicas cervejas do planeta. Um amigo delas que mora lá foi quem indicou: “Ele sempre nos falava das cervejas criadas na Irlanda, e quando estivemos lá nos apaixonamos por uma Irish Red Ale. Como o nome já diz, é um estilo local. E não tem nada melhor que conhecer e aprender a amar um estilo bebendo-o direto na fonte.”


As irmãs avisam que o final do passeio na fábrica da Guinness tem uma atração à parte. “Tudo termina com uma degustação e um ponto de vista espetacular que é inesquecível”, comenta Rosângela, deixando o suspense.


Em um pub escondido em uma cidade belga chamada Bruges, o casal Vinícius Madela e Vanessa Cordeiro tomou uma tripel que só é servida no local: procurando ouro, encontraram diamante (Arquivo pessoal)
Em um pub escondido em uma cidade belga chamada Bruges, o casal Vinícius Madela e Vanessa Cordeiro tomou uma tripel que só é servida no local: procurando ouro, encontraram diamante
O mais comum no turismo cervejeiro é procurar cervejas únicas ou, pelo menos, bares e pubs que vão proporcionar experiências singulares ao paladar. Mas outros dois sentidos podem ser aguçados nesse tipo de viagem: a visão e o olfato. Aos mais acostumados com cerveja especial, os destinos agora são pontos que produzem a matéria-prima. Mais precisamente, fazendas de lúpulos e maltarias.
Ingleses e alemães foram os responsáveis por colocar o lúpulo na cerveja, e isso porque a planta funcionava como um conservante natural, mas os norte-americanos abusaram dela e criaram, ao redor do mundo, os lupulomaníacos, aqueles apaixonados pelas propriedades de amargor e aroma proporcionados por essa trepadeira. Não à toa, caçadores de cerveja procuram as principais fazendas de lúpulo ao redor do planeta.


Aos que vão a Westvleteren procurar a “melhor cerveja do mundo”, uma dica: bem ali pertinho existe a De Plukker, uma fazenda de lúpulo. “Para quem procura esse mosteiro trapista, aconselho a estada na cidade de Poperinge. Você pode completar a viagem visitando uma plantação de lúpulo ao lado da cervejaria”, aponta o “turista profissional” Richard Lester.


As irmãs Rosane e Rosângela Lopes não pestanejaram na hora de decidir que iriam para Dublin: 'Tínhamos de conhecer a fábrica da Guinness', diz Rosângela Lopes (Arquivo pessoal)
As irmãs Rosane e Rosângela Lopes não pestanejaram na hora de decidir que iriam para Dublin: "Tínhamos de conhecer a fábrica da Guinness", diz Rosângela Lopes
As visitas à fazenda De Plukker – dá até para imaginar o cheiro de diversos lúpulos invadindo o nariz – ocorrem sempre aos sábados, das 14h às 17h, com direito a degustação de cervejas feitas com a produção local, distribuídas nos 12 hectares de variedades inglesas e norte-americanas. A cereja do bolo é a cerveja All Inclusive IPA, feita com todos os lúpulos da fazenda.


Se o destino é os Estados Unidos, o estado é Oregon, conhecido produtor mundial de lúpulo. A Worthy Brewin inaugurou, há três anos, o Worthy Hop House, onde se pode fazer uma visitação e conhecer os lúpulos do Dr. Alfred Haunold – responsável por descobrir 14 novas espécies desde 1970, entre eles o cascade, de longe o mais famoso entre os lupulomaníacos.


No mesmo estado é possível visitar a Rogue Farms, com produção de toneladas de sete variedades exclusivas, além de museu, destilaria e universidade. O ponto alto da visitação é a degustação da 7 Hops IPA, uma cerveja com os sete tipos produzidos no local.


A St. Gallen é uma vila da cervejaria em Teresópolis: réplica de uma cidade europeia do interior em pleno estado do Rio de Janeiro (Divulgação)
A St. Gallen é uma vila da cervejaria em Teresópolis: réplica de uma cidade europeia do interior em pleno estado do Rio de Janeiro
Até pouco tempo atrás, era impossível imaginar fazendas de lúpulo no Brasil, mas isso está mudando. Tanto que é possível visitar uma plantação em São Bento do Sapucaí (SP), por exemplo. A Frutopia é 100% sustentável e se destaca pelos vinhos e restaurante. Entre Vilas. Foram necessários sete anos para descobrir uma nova variedade de lúpulo que suportasse o clima daqui.
Outra viagem espetacular diz respeito à origem de outro ingrediente da cerveja: o malte.

 

Situada em Bamberg, na Alemanha, e fundada em 1879, a Weyermann é considerada a mais famosa e conhecida fábrica de maltes especiais do mundo. Seus produtos são utilizados em cervejas ao redor do globo e já se tornou comum por aqui nas lojas de insumos – graças à parceria com a Agrária, maior maltaria comercial brasileira.


Ajoelhou, tem de beber: adeptos do turismo cervejeiro dizem que, para conhecer e aprender a amar um estilo, o ideal é fazê-lo direto na fonte (Arquivo pessoal)
Ajoelhou, tem de beber: adeptos do turismo cervejeiro dizem que, para conhecer e aprender a amar um estilo, o ideal é fazê-lo direto na fonte
A Candango Brau, loja de insumos e cursos de cerveja em Brasília, está prestes a investir no turismo cervejeiro. A ideia é levar brasilienses à fonte dos maltes mais famosos do planeta para acompanhar o processo de maceração, germinação e secagem, e se aprofundar no mundo da cerveja. Mas vale dizer que não é preciso sair do país para se embrenhar no turismo cervejeiro. Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro já têm diversas cervejarias artesanais e a maioria delas é aberta à visitação. Até mesmo o Centro-Oeste está dando os primeiros passos.


A candanga Microcervejaria X, que produz suas cervejas em Goiânia, toca um projeto pra lá de interessante, o Acampamento Cigano. A ideia do mestre cervejeiro Alexandre Xerxenevsky é levar convidados para conhecer a produção de uma cerveja artesanal de perto.


Na fábrica da cervejaria Backer, em Belo Horizonte, o visitante pode conhecerdiferentes etapas da produção: turismo direcionado a fãs da bebida (Divulgação)
Na fábrica da cervejaria Backer, em Belo Horizonte, o visitante pode conhecerdiferentes etapas da produção: turismo direcionado a fãs da bebida
O negócio é procurar e se informar antes de visitar. No Rio de Janeiro vale procurar o Botto Bar (Praça da Bandeira) do Leonardo Botto, respeitado mestre cervejeiro que faz questão de sempre apresentar brejas cariocas, incluindo, claro, as feitas por ele; a cervejaria Mistura Clássica, em Volta Redonda; e A Noi, em Niterói. Mas a visita imperdível fica por conta da St. Gallen. A vila da cervejaria em Teresópolis é uma réplica de uma cidade europeia do interior e, para quem não pode pagar viagens internacionais, a abadia que imita um mosteiro suíço, o clima e os atendentes vestidos a caráter conseguem passar toda uma história.


A cervejaria Jopenkerk abriu recentemente à visitação em uma antiga igreja que foi bombardeada durante a Segunda Guerra Mundial: resgate de receitas antigas dos monges do Haarlem (Arquivo pessoal)
A cervejaria Jopenkerk abriu recentemente à visitação em uma antiga igreja que foi bombardeada durante a Segunda Guerra Mundial: resgate de receitas antigas dos monges do Haarlem
No Rio Grande do Sul, visite a Rasen, que fabrica diversos estilos de cervejas especiais – lembre-se de provar a pilsen bem lupulada deles. E não deixe de passar na premiadíssima Seasons, em Porto Alegre. O tour pela cervejaria ocorre sempre aos sábado, com ingressos a 25 reais que dão direito a um copo personalizado e degustação de duas a quatro cervejas.


A Holanda foi um dos destinos escolhidos por André Meister e Richard Paixão em uma viagem guiada pelo gosto e pela curiosidade a respeito da bebida: visitas recompensadoras (Arquivo pessoal)
A Holanda foi um dos destinos escolhidos por André Meister e Richard Paixão em uma viagem guiada pelo gosto e pela curiosidade a respeito da bebida: visitas recompensadoras
Cada pessoa que visita uma cervejaria, seja ela um mosteiro na Bélgica ou um novo empreendimento perto do seu bairro, sabe que o presencial faz toda a diferença. “A cerveja não é só o líquido. É também um ambiente, o clima, a comida. Existe toda uma harmonização que fica marcada e torna a experiência única e inesquecível”, conclui Vinicius Madela.

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EDIÇÃO 59 | novembro de 2017