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EDUCAÇÃO | Concursos »

Teste de perseverança

O foco em carreiras específicas estimula concurseiros a apostarem alto em determinadas provas. Conheça histórias de quem largou tudo para estudar e dicas para quem está prestes a tomar esta decisão

Sara Campos - Publicação:29/06/2016 14:54Atualização:29/06/2016 16:16
A advogada Hellen Krystina de Sousa se dedica exclusivamente 
aos estudos com uma rotina regrada: foco na Defensoria Pública  (Raimundo Sampaio / Esp. Encontro / DA Press)
A advogada Hellen Krystina de Sousa se dedica exclusivamente aos estudos com uma rotina regrada: foco na Defensoria Pública
A crise financeira por que o país passa é uma das razões pelas quais a carreira pública tem se tornado um objetivo de vida recorrente entre muitos jovens que já estão no mercado de trabalho. A ampla oferta de concursos em Brasília também leva a cidade a atrair candidatos que enxergam possibilidade real de ascensão social e estabilidade.

Mas a busca pelo tão sonhado emprego público tem seus desafios. Fazer uma programação de estudos ou matricular-se em um cursinho não são garantias de aprovação. Não por acaso, a saída de candidatos de empregos no setor privado para dedicação integral aos estudos tem sido decisão cada vez mais comum entre os concurseiros.

Para a coordenadora geral do IMP Concursos, Ranil Aguiar, esta é uma decisão difícil, que deve ser tomada com cautela. “Antes de pedir demissão do emprego, é preciso pensar em três pontos: aproveito com qualidade o tempo que tenho para estudar? Tracei um plano de estudos? Possuo um bom pé-de-meia ou suporte financeiro para me manter com tranquilidade por um tempo?”, pontua.
Na avaliação da especialista, é comum a ilusão de que, caso abra mão do emprego, o candidato terá mais tempo livre para estudar. Para ela, nem sempre é assim, e os candidatos que já souberam conciliar os estudos com trabalho têm maior chance de se dedicar com afinco se a exclusividade for o estudo. “Na verdade, acontece muito de o aluno passar a ter tempo mais livre e optar por exercer outras atividades. Muitas pessoas ao redor acham que quem está se dedicando aos estudos está desocupado. Alguns estudantes acabam se transformando em verdadeiros quebra-galhos da família”, alerta Ranil, que acredita que a qualidade do tempo de estudo é mais importante do que a quantidade de horas.

Ranil Aguiar, coordenadora geral do IMP Concursos, diz que é comum a ilusão de que, caso abra mão do emprego, o candidato terá mais tempo livre para estudar: 'Nem sempre é assim' (Raimundo Sampaio / Esp. Encontro / DA Press)
Ranil Aguiar, coordenadora geral do IMP Concursos, diz que é comum a ilusão de que, caso abra mão do emprego, o candidato terá mais tempo livre para estudar: "Nem sempre é assim"
O pedido de demissão após sete anos trabalhando como vendedor em uma loja de instrumentos musicais foi uma realidade necessária para Tiago Menezes. O sonho de tornar-se policial militar impulsionou o jovem a mergulhar totalmente nos estudos no final de 2012. “Largar o emprego foi uma atitude ousada. Decidi depositar todas as minhas energias nisso. Dúvida era uma palavra que não existia no meu vocabulário”, conta ele, que, ao lado da mulher, que estava desempregada, recebeu suporte financeiro de familiares e amigos.

Sem condições financeiras para matricular-se em um cursinho, Tiago comprou material didático e estudou durante dois meses por conta própria. Ele revezava a rotina de estudos entre a casa do primo e a Biblioteca Pública de Ceilândia. A prova para a profissão desejada aconteceu em abril de 2013. Após receber o resultado positivo da primeira etapa, ele fez outras avaliações como teste físico, exames médico e psicotécnico e investigação de vida pregressa. “É um processo penoso e prolongado. A pressão que fazia a mim mesmo era muito grande”, ressalta Tiago, que esperou um ano até finalmente ser nomeado. “Não fazia ideia de que a convocação demorava tanto. Se soubesse disso antes, teria feito uma poupança para me preparar melhor”, diz o policial, que atualmente estuda para o concurso de oficial da Polícia Militar.

A persistência para atingir um objetivo claro tem feito parte da trajetória da advogada Hellen Krystina de Sousa. A escolha do curso de direito foi impulsionada pela possibilidade de ingresso na carreira pública. Após prestar serviços de assessoria jurídica voluntariamente na Defensoria Pública do Distrito Federal, ela se interessou pelo trabalho do órgão. “Fiquei encantada com o caráter social do trabalho realizado pela Defensoria Pública. Ajudar pessoas que não têm condições financeiras para arcar com as despesas processuais é muito gratificante”, afirma a advogada, que ingressou na Defensoria em 2014 para cumprir os anos de atividade jurídica exigido por alguns concursos da área.

'Concurso é um projeto a longo prazo e não pode ser feito sem critérios definidos e apenas por dinheiro', defende o psicólogo Tiago Costa (Raimundo Sampaio / Esp. Encontro / DA Press)
"Concurso é um projeto a longo prazo e não pode ser feito sem critérios definidos e apenas por dinheiro", defende o psicólogo Tiago Costa
Com o suporte financeiro dos pais, Hellen decidiu dedicar-se exclusivamente aos estudos com uma rotina regrada. Ela acorda diariamente às 6h30 e estuda até as 12h30. Após o intervalo do almoço, volta a ler o conteúdo durante a tarde e à noite pratica exercícios físicos. “Cuidar da saúde é essencial, principalmente neste período de preparação, que exige bem-estar físico e emocional. Aos finais de semana, também estudo, mas a rotina é mais tranquila se comparada aos dias da semana. Uso o tempo de lazer com a finalidade de descansar a mente e renovar as energias.”

Mesmo com o bom planejamento da própria rotina, a insegurança é um sentimento que também faz parte do dia a dia de Hellen. “Há momentos em que o cansaço aparece. Então eu faço alguns questionamentos sobre o método adotado e o conteúdo estudado. Isso gera ansiedade, medo e insegurança. Mesmo assim me esforço para manter o foco diário até concretizar meu objetivo”, diz. A ansiedade enfrentada pela advogada é atenuada com o apoio dos pais, por isso Hellen reconhece que tranquilidade no ambiente de estudo é um diferencial a quem se dedica aos concursos.

'É um processo penoso e prolongado. A pressão que fazia a mim mesmo era muito grande', conta Tiago Menezes, que abriu mão do emprego para estudar e ficou mais de um ano sem trabalhar (Raimundo Sampaio / Esp. Encontro / DA Press)
"É um processo penoso e prolongado. A pressão que fazia a mim mesmo era muito grande", conta Tiago Menezes, que abriu mão do emprego para estudar e ficou mais de um ano sem trabalhar
Mas não são apenas o volume de conteúdo e o ritmo de estudos que levam o candidato à aprovação. A saúde emocional – muitas vezes pouco valorizada – é fundamental para conquistar a vaga no serviço público. “Muitos casos de reprovação têm origem nas variáveis emocionais. Já atendi pacientes que estudaram para carreiras apenas para atingir o status entre a família e depois se arrependeram”, relata o psicólogo Tiago Costa.

O profissional explica que o aspecto emocional também está vinculado à memória, e isso pode justificar o esquecimento de alguns conteúdos no momento da prova: “É preciso equilibrar todos as áreas da vida para não ter reflexos nos relacionamentos. Concurso é um projeto a longo prazo e não pode ser feito sem critérios definidos e apenas por dinheiro. Caso contrário, a frustração pode ser muito grande e ocasionar doenças.”
 
 
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EDIÇÃO 59 | novembro de 2017