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COMPORTAMENTO »

Quase por acaso

Conheça história de casais que não tiveram ajuda de cupidos ou aplicativos para se apaixonarem: envolvidos em projetos ou atividades afins, eles dizem que foi a sintonia que os aproximou

Isabela de Oliveira - Redação Publicação:04/07/2016 08:51
Em tempos de internet, a web se consolida como o oráculo que tudo sabe, detendo, inclusive, a fórmula do amor. Cidades como Brasília, que ostentam, além da reputação de antissocial, uma quantidade relevante de solteiros - pelo menos 37%, apenas no Plano Piloto, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílios (PDAD) -, são um filão para aplicativos e redes sociais de paquera que buscam diminuir a distância entre os corações solitários, seja por uma noite, seja para a vida inteira.

Há, contudo, os que não compram a ideia de romance virtual e preferem seguir a vida distraídos, com os ônus e bônus da solteirice. Que, diga-se de passagem, nem sempre dura muito: alguns desses insurgentes da tecnologia contam como foram fisgados, sem perceber, onde e quando menos esperavam.

Foi entre burpees, deadlifts, squats e box jumps - como são chamados alguns dos exercícios do crossfit - que Camila Barros Santana viu pela primeira vez o carioca Israel Miranda de Jesus. Descabelada e aos pingos de suor, ela não imaginava que os dois, em pouco tempo, seriam um casal. O destino, contudo, deu pistas do romance antes mesmo que a jovem iniciasse os treinos no CrossFit Oxen.

Quando um professor a convidou a praticar os exercícios, Camila deu uma chance à modalidade. Apaixonou-se na primeira aula, mas não por Israel. Ela conta que até notou alguns olhares do carioca, que sempre a cumprimentava educadamente, mas só o conheceu algumas semanas depois, durante uma festa na qual "a galera do crossfit" compareceu em peso.  O casal não se separa desde então: Camila e Israel dividem tudo, da intensidade dos treinos à calmaria da rotina.
Camila e Israel começaram o romance entre exercícios de crossfit: agora dividem tudo, da intensidade dos treinos à calmaria da rotina (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press
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Camila e Israel começaram o romance entre exercícios de crossfit: agora dividem tudo, da intensidade dos treinos à calmaria da rotina

Felizes com a solteirice, os dois nunca cogitaram buscar um par na internet. "A tendência é acabar mentindo um pouco sobre nossos interesses, maquiar de leve as personalidades", avalia Camila. Israel completa: "No crossfit, você conhece a pessoa totalmente desalinhada, suja. Se você se apaixona desse jeito, dificilmente algo na aparência do outro vai surpreender."

Bibianna Teodori, personal coach e fundadora da Positive Transformation Coaching, explica que os distraídos que sentem prazer em viver o momento em que estão se atraem naturalmente. "Se você acha que quer uma relação afetiva satisfatória e apaixonante, mas na vida real não é assim, ou talvez não tenha ainda achado a pessoa certa para você, é porque no fundo, no seu inconsciente, você não quer verdadeiramente. É possível que seus sentimentos sejam diferentes e que enviem uma vibração diferente daquilo que você diz e acha que quer", diz a especialista em relacionamentos.

Segundo Bibianna, quando as pessoas estão na mesma sintonia - o que costuma ocorrer quando estão envolvidas nos mesmos projetos e atividades -, até as células de seus organismos se relacionam. "É isso que demonstra a física quântica: alguns componentes das nossas células corpóreas entram em comunicação com as de outras pessoas, principalmente se estão vivendo uma relação interpessoal conosco, como se fosse uma transmissão de ondas", explica.

Se os encontros por acaso são obra do universo ou da física, Vinícius Gonçalves de Andrade e Karina Mayara de Andrade não sabem. O casal prefere acreditar na intervenção divina: apesar de ambos serem brasilienses e pertencerem ao mesmo grupo de amigos, conheceram-se em 2011, a mais de nove mil quilômetros de Brasília, na Espanha, país que sediou, naquele ano, a Jornada Mundial da Juventude.  O primeiro contato ocorreu em um convento em Ávila. "Fizemos companhia um ao outro até Madri, onde percebemos que já existia um sentimento e que, a partir dali, algo mais poderia acontecer", conta a estudante."Foi um presente surpresa que Deus nos preparou. Não esperávamos que nada disso acontecesse, principalmente tão longe de casa", completa arquiteto.
Os brasilienses Vinícius e Karina pertenciam ao mesmo grupo de amigos, mas se conheceram na Espanha, a mais de nove mil quilômetros de Brasília: intervenção divina (Ernani Rocha/Divulgação)
Os brasilienses Vinícius e Karina pertenciam ao mesmo grupo de amigos, mas se conheceram na Espanha, a mais de nove mil quilômetros de Brasília: intervenção divina

A história dos recém-casados Rafaela e Higor Rodrigues, ambos corredores de maratonas e servidores públicos, mostra que, mesmo não sendo a responsável pelo encontro, a internet pode, sim, ajudar a iniciar um relacionamento verdadeiro. "Uma foto minha no Facebook, tirada após um treino de 33 km, chamou a atenção do Higor. Pesquisando, ele descobriu duas coisas curiosas: trabalhávamos no mesmo órgão e éramos amigos na rede social, mas não nos conhecíamos. Não sabemos até hoje como ficamos amigos lá, quem aceitou quem", lembra Rafaela.

Pela web, Higor soube que sua futura mulher, assim como ele, treinava para participar da Maratona do Rio de Janeiro, em 2014. "Então ele ligou quase na mesma hora para o meu setor e pediu para conversar comigo. Apareceu por lá no final da tarde. Durante muito tempo, nosso papo foi apenas a maratona."

Desde esse dia, o contato entre os colegas de trabalho ficou mais frequente. Já no Rio de Janeiro, na noite antes da maratona, os dois se beijaram e não se separaram mais. O noivado foi oficializado na virada de 2014 para 2015. "Jamais imaginei que iríamos nos conhecer, e estávamos muito próximos. Quando estava solteira, achava que encontraria alguém nos bares ou em festas com amigos, e saía à procura. Mas com a corrida foi diferente: eu não comecei porque estava interessada em outra pessoa, comecei como um investimento em mim", diz ela.
'Não comecei a correr porque estava interessada em outra pessoa, comecei como um investimento em mim', conta Rafaela, recém-casada com Higor, parceiro também de maratonas (Felipe Fontinele/Divulgação)
"Não comecei a correr porque estava interessada em outra pessoa, comecei como um investimento em mim", conta Rafaela, recém-casada com Higor, parceiro também de maratonas

Há diferentes opiniões sobre o "acaso", mas, para conhecer verdadeiramente alguém, não há lugar melhor que o palco, diz o casal de namorados Thays Elinne e Clóvis Leôncio. Nas oficinas teatrais conduzidas no Espaço Cultural Mapati, na Asa Norte, a regra é desinibir-se. "O toque, o olhar e a entrega são coisas muito trabalhadas nas aulas. É preciso se permitir participar. Os que se permitem acabam entrando na mesma sintonia, sem receio. As amizades que começam no teatro têm como característica serem muito intensas", conta Thays.

Já inseridos e acostumados ao ambiente mais liberal do que outros, os namorados só ficaram juntos em uma festa do grupo teatral há poucos meses. Os encontros tornaram-se frequentes, dando espaço para um relacionamento que, Thays e Clóvis garantem, "tem menos neuroses" que os vividos em momentos anteriores, especialmente fora do palco. "Isso porque o teatro faz uma espécie de seleção natural. Quem não se adapta, não tem a mesma visão das coisas, não fica. Isso faz com que pessoas com atitudes semelhantes acabem se encontrando e interagindo mais, mas sem algumas das barreiras sociais s que obedecemos em outros espaços", conta Clóvis.
Atores, os namorados Thays Elinne e Clóvis Leôncio dizem que teatro faz uma espécie de seleção natural de afinidades: 'Quem não tem a mesma visão das coisas, não fica', diz Clóvis (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
Atores, os namorados Thays Elinne e Clóvis Leôncio dizem que teatro faz uma espécie de seleção natural de afinidades: "Quem não tem a mesma visão das coisas, não fica", diz Clóvis

Na opinião da estudante Cássia Gomes Hipólito, a falta de afinidade e sintonia parece algo relativamente comum nos aplicativos de paquera, que apelam mais para aparência dos usuários do que para personalidades. "As coisas não evoluem naturalmente como na vida real, em que a gente conhece alguém e depois surge o interesse ou não por essa pessoa. No aplicativo, o interesse e a intenção são o que move as pessoas. A motivação é apenas a atração física." Ela notou a diferença nas dinâmicas ao conhecer o produtor cultural Guilherme Soares de Azevedo em um sarau. "Foi mais verdadeiro. Existiu um reconhecimento imediato que me permitiu ver como ele se comportava, como tratava as outras pessoas. Só depois disso surgiu o interesse", conta Cássia, que namora Guilherme há dois anos. Para ele, nos meios alternativos, sobretudo os culturais, a concentração de pessoas interessadas apenas em "pegação" é infinitamente menor.

"As pessoas buscam, primeiro, a cultura, a arte e a poesia. Elas se conhecem como consequência e, a partir daí, a essência do relacionamento é outra. Ele fica mais intenso por não ligar pessoas que só têm conexões físicas, mas que estão interessadas em uma causa maior. Eu sei que, com a Cássia, eu tenho companhia tanto para baladas quanto para programas mais alternativos", diz Guilherme.
Cássia e Guilherme se conheceram em um sarau: nos meios culturais, a concentração de pessoas interessadas apenas em 'pegação' é menor, acreditam (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
Cássia e Guilherme se conheceram em um sarau: nos meios culturais, a concentração de pessoas interessadas apenas em "pegação" é menor, acreditam

David Leslie, autor do livro Operação Cupido (editora CBE), diz que, apesar de a "vida real" permitir contatos mais genuínos que a internet, não existem meios e locais mais propícios que outros para se apaixonar. "Eles devem ser aqueles nos quais cada participante encontra no outro as características que procura. Quem procura poderá, eventualmente, achar. E quem não procura, também. Esbarrar quase que por acidente no seu par ideal acontece todos os dias. Quem é louco de não acreditar no destino?", provoca o escritor.
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EDIÇÃO 59 | novembro de 2017