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CAPA | Baladas »

A noite vai ser boa

O profissionalismo de jovens realizadores de eventos mostra que as estratégias usadas por eles têm dado certo - enquanto isso, o público brasiliense curte e pede bis

Jéssica Germano - Redação Publicação:27/07/2016 09:16Atualização:28/07/2016 12:13
Independentemente do estilo musical predominante, a cena tem fórmula parecida. Cenografia bem pensada, boa movimentação do bar e artistas qualificados no som costumam dar o tom da noite brasiliense. A partir daí, se todo o planejamento - que pode durar meses - der certo, a festa será de satisfação para a clientela, desde o momento da entrega do ingresso até a saída em segurança. Fugindo do estigma ultrapassado de que em Brasília não há o que fazer, as celebrações por aqui mostram que os pontos em que se divergem recaem mais sobre uma mesma questão: o profissionalismo e a formação de bons produtores têm falado alto na cidade que luta contra a burocracia da diversão.
 (Bruno Pimentel/Divulgação)

Alguns nomes soam quase como gíria na boca dos habitantes do quadradinho. Drop Like is Hot, Na Praia, Fica Comigo e Makossa se tornaram referências fáceis, que raramente precisam de tradução entre a moçada brasiliense. Prova disso são as bilheterias bem-sucedidas, que, edição após edição, não perdem o pique.

"Nós, que estamos sempre viajando, frequentando festas em outras cidades, vemos que o trabalho que fazemos aqui é realmente diferente", destaca Pedro Batista, nome que, ao lado de Karina Bessa e Felipe Colares, forma o trio jovem de sócios da Influenza Produções. Nascida com o propósito de promover artistas autorais (produzidos inicialmente por Pedro, que veio da cena do hip hop cearense), a empresa surgiu no universo acadêmico do UniCeub, mas logo ultrapassou as paredes estudantis e ganhou os eixos alternativos da cidade. "Nós estávamos no meio da produção artística", lembra o produtor, citando artistas que acompanhava, como o Fabão, ex-vocalista do Monobloco, o DJ A e a depois aclamada Ellen Oléria. "Nessa brincadeira, queríamos criar eventos para colocar os nossos artistas para tocar."

A partir da primeira festa, que ganhou o nome da produtora (inspirado no vírus em pauta no período), o calendário da cidade foi apenas se curvando às festividades com ênfase na música independente e resultou em um portfólio que hoje conta com oito eventos autorais ou em parceria. Entre eles, a Melanina, um dos carros-chefes da produtora que apresenta a cultura negra do som à identidade. Sucesso de público constante, em 2016 ela comemora cinco anos e sai pela primeira vez da Ascade para um evento de peso no estádio Mané Garrincha, em outubro.
 (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press; Bruno Pimentel/Divulgação)

"As produtoras estão se profissionalizando", constata Pedro, que assume como diretor de produção. Ele lembra facilmente o cenário que encontrou quando chegou a Brasília, em 2004, e deparou com um processo que acontecia de forma basicamente amadora. "Qualquer um fazia uma festinha em uma casa." Os tempos são outros, segundo ele.

Entre os principais pontos de cuidado no planejamento da Influenza está a identidade visual. Definido o conceito da festa, ponto inicial, a comunicação liderada por Karina, entra em ação e traça todas as referências estéticas que vão envolver o evento, incluindo o trabalho cenográfico. Entre os principais e mais constantes nomes de parceiros que ajudam nessa etapa, estão os grafiteiros Toys e Omik, que não raras vezes fazem live paiting enquanto a noite rola.

O próximo projeto já engatilhado segue os mesmos preceitos que embasaram a criação da empresa. Previsto para abril de 2017, o Samba do Avião unirá Influenza e R2 Produções. "Enquanto Brasília ainda tem a questão de valorizar demais o que é do Rio, duas produtoras que trabalham com o autoral vão fazer um samba daqui, buscando valorizar a capital", antecipa Pedro Batista, que vibra com a movimentação de profissionais do ramo. "A nossa concorrência é uma concorrência que trabalha demais. Isso é muito bom", avalia. "Os novos estão vendo que não é fácil entrar no mercado."
Influenza Produções: Karol Konká foi a grande convidada da festa Melanina, que ocorreu no  dia 2 de julho (Divulgação)
Influenza Produções: Karol Konká foi a grande convidada da festa Melanina, que ocorreu no dia 2 de julho

Filhos da boa safra de novas produtoras, a Funn Entretenimento é resultado da vivência em barzinhos entre três dos sócios (donos do Versão Brasileira e do Chiquita Bacana, então), aliada ao espírito animado representado pelo diretor jovem do Iate Clube, na época. "Nós viemos de empreendimentos que têm públicos diferentes, mas que de alguma forma já se envolviam nesse mercado de festas", resume Pedro Caetano, atualmente na sociedade também do Mercadito Bar & Restaurante, onde foi feita a foto de capa desta edição.

Com a ideia de atrair um público mais seleto, que quase não se reunia mais, a empresa nasceu em agosto do ano passado, apostando em um produto de qualidade para um número determinado de pessoas - a princípio, para cerca de 500 convidados. "Por mais que tenhamos crescido, nós tentamos manter nosso limite de festa em 2 mil, 2,5 mil pessoas, no máximo, que é até onde se consegue selecionar o público", explica o sócio Paulo Paim, que cuida da cenografia e da comunicação da Funn. Um dos fatores que permitiu seguir a filosofia, de acordo com ele, foi abrir mão de ganhar mais no início em vista do bom resultado. "Nós não deixamos de investir - o que faria cair a qualidade. Nós investimos diferente."
 (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press; Bruno Pimentel/Divulgação)

Indo do samba ao hip hop, a produtora responde por marcas (ou labels, nome dado na cena) como Rio Eu Te Amo, Baile do Zeh Pretim e Feijoadinha da Stella Stoir, que em pouco tempo de mercado já têm público cativo. Animados com a aceitação, mesmo em tempos de poucas gastanças, os sócios relacionam à veia de negócios contemporânea a oferta de boas festas na cidade.

"Esse perfil do empresário jovem que tem vontade de empreender, de trazer novidade, é a força que faz a diferença", acredita Pedro Caetano. Mas isso só não basta, garantem os empresários. "Muita gente sonha em fazer evento e pensa que é fácil: vou colocar um palco, uma banda, um bar, fechar a área, cobrar ingresso e pronto", elenca Hugo Andrade, genericamente, para lembrar que a própria Funn trabalha com uma série de empresas credenciadas, inclusive na fase de pré-produção. "E o risco é maior do que em qualquer outro negócio, porque pode dar errado por 'n' motivos, mas tudo acontece em um dia", pondera o dono do Mercadito.

Além dos desafios iniciais e mais conhecidos, como a Lei do Silêncio, que limita bastante a atuação das produtoras em Brasília, o quesito locação frequentemente se torna um problema. "Em muitos lugares daria para fazer eventos bacanas, mas eles são fechados para festas pagas por trauma de produtoras antigas", diz Pedro Caetano. Para contornar questões desse tipo, os produtores têm buscado novas opções, apostando em lugares até então não utilizados para fins comerciais, como o clube Ases. "Essa batalha é incessante e é difícil", lamenta o empresário, que logo traz um fator positivo: "Brasília tem feito festas com qualidade de nível nacional, que têm sido descobertas agora."

Para a professora de gestão de eventos em gastronomia do UniCeub Alessandra Santos, houve mesmo um aumento de profissionalismo e de preocupação em fazer produções de forma correta por aqui.  Para ela, além de uma clientela ávida por entretenimento e cada vez mais exigente, o cenário de Brasília tem se desenhado de forma satisfatória, o que acaba por moldar a oferta. "À medida que se começa a divulgar melhor o evento e ele tem um mote, um objetivo, não é uma mistura de eventos, direciona-se o público", diz ela, que é mestre em hotelaria e turismo.

As redes sociais, por sua vez, impulsionaram as realizações, dando visibilidade tanto a favor quanto contra. Elas podem perpetuar ou não um acontecimento, de acordo com a impressão cada vez mais pública dos compradores de ingressos. "O público só vai continuar indo aos eventos que tiverem as propostas de atenderem bem os seus clientes, que forem bem organizados, que não tenham problemas de segurança ou de os artistas não aparecerem", frisa Alessandra. O potencial de serem atrativos turísticos para a cidade também impulsiona o crescimento dessas festas: "Se elas têm uma continuidade de proposta, as pessoas começam a se deslocar para ir até elas", acredita a especialista.
 
Defensora de que o ramo é um bom investimento, a professora ressalta o ciclo de vida curto de empresas que eventualmente não tenham conhecimento apurado de gestão e planejamento. "Só vai permanecer nesse mercado quem trabalhar com profissionalismo", atesta.

Idealizadores da MOB Produtora, que se formalizou após participações de seus membros em diferentes frentes artísticas e de festas da cidade, em especial a Makossa, os produtores Léo Cinelli, Chicco Aquino e André Fonseca fizeram nome ao combinar música eletrônica e estilo underground. Iniciados nas festas dos anos 1990, o produtor, o músico e o DJ (respectivamente, na época) se uniram em 2014 para encabeçar novos projetos. "Começaram a surgir oportunidades de trabalho e nós sentimos a necessidade de ter um selo que abraçasse as marcas que já existiam", explica Chicco, que se destacava à frente da festa Mistura Fina e a partir de então passou a assinar ao lado da dupla de sócios labels como I Hate Halloween e Réveillon das Cores. "Hoje eu percebo que as produtoras fazem o trabalho para o seu público. Não tem só o cativo de determinada festa, mas sim aquele que compra o trabalho conceitual do selo", observa.
 (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press; Luís Xavier de França/Esp. CB/DA Press)

Para André Fonseca, um diferencial da MOB foi ter apostado, desde o início, em festas locais e produzidas por eles: "A maioria dos nossos DJs são pessoas daqui. Brasília tem essa excelência e cultura de DJ há muito tempo", defende. Chicco vai além e afirma que, nas realizações que fizeram, um artista convidado nunca falou mais alto do que o projeto como um todo. "Claro que a atração é uma cereja do bolo, que será uma pessoa superimportante para o processo, mas a festa não parte desse princípio", pondera, entregando parte da dedicação que investem na linguagem e identidade de cada evento que criam. Novidade recém-estreada no portfólio, a festa Lolliporn, por exemplo, uniu a temática pornô à ambientação do Conic, mesmo local onde estreou o fenômeno Makossa, em 2002, arrebatando cerca de mil pessoas.

Para o trio que acompanha o movimento de festas já há mais de duas décadas, a mudança maior está no alcance dos eventos. "Antes era para mil pessoas, hoje é para 3,5 mil", compara Léo Cinelli. "Há dois, três anos, nós montávamos a festa com mais meia dúzia de pessoas. Hoje é um miniexército." Chicco assina embaixo e aproveita para colocar produtoras com o perfil parecido no mesmo patamar, incluindo a Influenza, com quem a MOB divide espaço físico de escritório. "As pessoas fazem festa em Brasília como se estivessem fazendo quase um minifestival", declara. "Nós poderíamos ser rivais, mas escolhemos ser parceiros."
 
Case de sucesso da cidade, a R2 Produções comemora 11 anos de empresa com energia de quem apenas começou. Com escritório fixado em uma mansão no Lago Sul - com direito a área para produção e estoque de cenografia de todos os eventos que realizam, espaço para happy hour da equipe e treinamento de cada brigada contratada por festa -, a produtora tem quatro sócios majoritários seguidos por uma staff de 50 funcionários fixos.

Responsável por idealizações como Santa Feijuca, Bonfim e Na Praia, a marca cresceu ao ir além dos eventos comerciais, com ingressos vendidos. Com todos os setores que uma empresa formal precisa, Bruno Sartório, Rick Emediato, Rafael Damas e Eduardo Alves passaram a investir também no mercado de formaturas (com o intuito de fidelizar o cliente de festas desde cedo), de eventos corporativos, projetos incentivados por leis, do governo local e federal, e terceirização do próprio sistema de tecnologia da informação (TI).
 (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press; Bruno Pimentel/Divulgação)

"No início, como produtora, nós nos espelhamos muito nos Verris", lembra Rafael sobre os irmãos Rodrigo e Luciano, da Verri & Verri, precursores de shows grandes na cidade. "Mas depois, como empresa, nós não tínhamos em quem nos espelhar." Para os empresários de entretenimento, o pulo do gato e a perpetuação na cena brasiliense se deram justamente pelo investimento em estrutura de área financeira, administrativa, produção, comunicação e tecnologia, em conjunto. "Todo mundo começa pequeno, de forma amadora. Mas o problema não é como começa, é como continua", sugere Rafael.

"É preciso saber quanto se vai produzir, para saber o quanto vai vender, para ter uma perda mínima", resume o diretor financeiro e criativo da R2 a fórmula matemática que os levou - como criadora e coprodutora - a números impressionantes, como mais de 90 mil acessos na edição do ano passado do projeto Na Praia, além de mais de 120 horas de shows e 75 mil refeições vendidas no complexo. "Nós, do ramo do entretenimento, temos uma vantagem em tempos de crise", instiga Eduardo, para entregar a animação dos sócios pelo que ainda está por vir: "O ano da crise foi aquele em que nós mais crescemos."

À frente da Social Couture Entretenimento, que só neste ano já realizou 10 festas, Gustavo Antony teme um pouco mais por este cenário. "Brasília nunca teve tantas boas festas, com tantas atrações", frisa ele, que responde pela comunicação e criatividade dos eventos, ao lado de mais quatro parceiros. A ausência inicial de opções na cidade, inclusive, foi o combustível para ele e mais dois amigos, os empresários Daniel Garcia e Rafael Cigano, começarem a produtora, no fim de 2014. Hoje, a empresa conta com mais três sócios: Luiz Antony, André Moura e Márcio Guimarães. "Mas essa carência não só foi suprida, como foi saturada", pontua Gustavo, citando questões como pasteurização, tanto no modelo de divulgação quanto no formato das realizações.
 (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press;Social Couture/Divulgação)

No quadro, em vez de boates fixas, hoje quase inexistentes, a cada semana se constrói uma série de operações de festas. E a disputa por público cresce proporcionalmente à seleção da clientela, que no último ano, segundo os produtores, passou a escolher mais comedidamente. A premissa de que há espaço para todos, para eles, não vinga mais. "É gás financeiro, qualidade e trabalho", enumera Gustavo a receita de sucesso que prega e que vem acompanhada da aposta em renovação cíclica, inclusive de fornecedores. "Tem muitas produtoras conhecidas que procuram replicar a fórmula de sucesso da R2, por exemplo", diz o empreendedor. "Nós tentamos, de todas as maneiras, ser diferentes. Porque R2 já existe uma, já é um case de sucesso, é indiscutível. Tem espaço para coisa nova", aposta, com respaldo de produções como Esbórnia, Bondinho e Savage.

E na cena, não poucas vezes, são nas faculdades que os embriões de produtoras surgem. Foi o caso d’A República, que cresceu a partir de uma plataforma de diversão para estudantes universitários, como trabalho final de curso em comunicação de Léo Preto. Com um canal de vídeos que fazia cobertura de festas nesses espaços, especialmente na Universidade de Brasília (UnB), rapidamente a semente germinou e desde 2013, quando fez a primeira festa para comemorar um ano da iniciativa, o comunicador tornou-se também produtor. "Nossa ideia era atender o público universitário, que estava carente de eventos", conta Léo, mencionando tanto bilheterias mais baratas quanto atrações para as mais diferentes tribos. "Tem, sim, como fazer um evento mais acessível sem necessariamente cair a qualidade", aposta.

A produtora ganhou força quando se juntou ao centro acadêmico de comunicação da UnB, em 2014, para executar a Realize, festa que desde 1986 funciona como um tradicional trote para os calouros do curso. "Nestes três anos, nós conseguimos realizar coisas grandes dentro do ambiente universitário", comemora o idealizador. Já na primeira edição, A República trouxe o Bonde do Tigrão e a banda Tchakabum, com foco no tema nostalgia, e reuniu 7,5 mil pessoas. De lá para cá, nomes como Valesca Popozuda, Karol Conká, Ludmilla, Anitta e Araketu integraram o currículo da produtora.
 (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press; A República/Divulgação)

Para os estudantes de comunicação, que já no segundo semestre podem ter contato com o mercado de entretenimento pela comissão da Realize, a experiência abre possibilidades de formação também. "A Realize é um pontapé para se aprender e conhecer esse espaço de festas", define Henrique Gomes, hoje no quinto semestre. Após participar do evento no primeiro ano, o jovem engatou no meio e vem organizando outros festejos. "Envolve várias partes da festa: o antes, o depois, o contato com parceiros, a atuação nas redes sociais", completa Matheus Carvalho, que acabou de integrar a equipe da última festa, realizada em junho.

Divisão de tarefas feitas, com a comissão responsável pela parte de comunicação, criatividade e idealização; e A República por executar do início ao fim o evento, o que fica é a vontade de continuar movimentando a cidade. "Os alunos que participam disso não só se divertem e criam uma festa, mas realmente aprendem uma função de produção de eventos", estimula Henrique.
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EDIÇÃO 59 | novembro de 2017