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PERFIL | Simone Tebet »

Queridinha do Senado

Conhecimento, oratória e atuação na Comissão do Impeachment levaram Simone Tebet, senadora fora do eixo Rio-São Paulo, a despontar como uma nova liderança nacional

Glauciene Lara - Publicação:27/07/2016 10:56Atualização:28/07/2016 16:38
"Sou uma pessoa recatada, simples e muito família. Árabe tem disso." A discrição é característica no cotidiano como parlamentar, mesmo assim, a senadora Simone Tebet chamou a atenção dos brasileiros nos últimos meses, por sua presença diária na Comissão do Impeachment do Senado, coordenando a bancada pró-impeachment até o fim das longas sessões madrugada adentro.

De liderança local, do estado do Mato Grosso do Sul, Simone, aos 46 anos, tornou-se uma das principais lideranças do PMDB e do governo Michel Temer, embora ainda não tenha se dado conta da projeção que ganhou. "As coisas aconteceram sem eu perceber e sem que eu buscasse isso. Não foi premeditado. O que eu fiz foi meu papel. No começo, procurei me conter, mas diante de alguns argumentos jurídicos falidos da defesa, eu me vi obrigada a manifestar minha indignação." Ela acredita que Dilma Rousseff perdeu a oportunidade de mostrar a capacidade da mulher na Presidência da República.
Respeito conquistado: discreta e dedicada, Simone Tebet atribui sua ascensão ao conhecimento jurídico que possui (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
Respeito conquistado: discreta e dedicada, Simone Tebet atribui sua ascensão ao conhecimento jurídico que possui

Simone atribui sua ascensão ao conhecimento jurídico que possui. Formou-se com medalha de honra ao mérito em direito na Universidade Federal do Rio de Janeiro e fez mestrado em direito público na PUC-SP. Foi professora na área durante 12 anos. O presidente nacional do PMDB, senador Romero Jucá, confirma que Simone foi escolhida para atuar na comissão em nome do governo e do partido pela formação técnica e pela boa argumentação.

A oratória, condição fundamental para o sucesso na carreira política, parece ser mesmo um dom no caso de Simone, que a tornou conhecida num momento em que os brasileiros estão mais atentos à cena política. A senadora prefere falar de improviso a ler os discursos. E as intervenções são claras e firmes, sem precisar levantar a voz. Prova do sucesso está nas redes sociais. Se antes os fãs eram todos do estado de origem, agora, Simone recebe mensagens de apoio de todo o Brasil, elogiando a clareza, a objetividade e o conteúdo dos discursos. Senadora do Mato Grosso do Sul, estado de apenas 2,62 milhões de habitantes com pouca projeção no cenário político nacional, Simone Nasser Tebet chegou a Brasília no ano passado, com as bandeiras do desenvolvimento regional, da pauta feminina e "com a intenção de aproveitar o primeiro ano de mandato para observar" e adquirir experiência. É o que ela mesma diz em sua página pessoal, como se não tivesse uma carreira pregressa. Filha mais velha do político Ramez Tebet, Simone foi a única da família de quatro irmãos que seguiu os passos do pai, mesmo contra a vontade dele e da mãe Fairte Nassar Tebet, ambos filhos de libaneses que vieram para o Brasil no início do século 20.

A oratória, condição fundamental para o
sucesso na carreira política, é um dom: a 
senadora prefere falar de improviso a ler
os discursos (Jefferson Rudy/Agência Senado)
A oratória, condição fundamental para o
sucesso na carreira política, é um dom: a
senadora prefere falar de improviso a ler
os discursos
Em 40 anos de vida pública, Ramez passou por diferentes cargos até chegar à presidência do Senado de 2001 a 2003; faleceu em 2006, por complicações decorrentes do tratamento contra um câncer. Simone deu aulas de direito público, mesma cadeira na qual lecionou Ramez Tebet. Entre 1995 e 2001, foi consultora e diretora legislativa da Assembleia do Mato Grosso do Sul e, em 2002, elegeu-se deputada estadual.  "Minha mãe nos educou com certo distanciamento da política. As pessoas é que provocavam meu pai para que eu me candidatasse. Sempre participei dos bastidores, das campanhas, até que cedi", conta. Após dois anos como deputada estadual, candidatou-se à prefeitura da cidade natal, Três Lagoas. Foi prefeita de 2004 a 2010, a primeira mulher a governar a cidade de 96 mil habitantes. Saiu na metade do segundo mandato para concorrer ao governo do estado como vice de André Puccinelli, outro herdeiro político de Ramez Tebet. O caminho natural dele, que já estava no segundo mandato, seria o Senado, mas "Puccinelli não gosta muito de Brasília e do Legislativo e me permitiu ser candidata", conta. Simone ganhou a eleição com 640 mil votos, o que corresponde a 52,6% do eleitorado do Mato Grosso do Sul.

Em menos de um ano e meio de mandato, ela já conseguiu mostrar que não é apenas a filha de Ramez. Faz parte de 10 comissões e conselhos da casa, entre eles, a concorrida Comissão de Constituição e Justiça. Foi sondada para cargos do alto escalão do governo Temer, os quais não quis revelar, mas recusou. "Deixei claro para o governo que, neste momento, ninguém deve ter vaidades. Agora, tenho condições de contribuir melhor com o país no Legislativo", explica.
 
Simone também dispensou a liderança do governo no Senado, segundo ela, por falta de experiência política na casa. Entretanto, há quem diga que foi a abertura de um inquérito contra ela no Supremo Tribunal Federal que a levou à decisão de sair dos holofotes. A pedido do Ministério Público Federal, Simone Tebet foi investigada por suspeita de fraude em licitação de obra para recuperar um balneário em Três Lagoas, em 2006, época em que era prefeita, mas o inquérito foi arquivado este mês, por determinação do relator do caso, ministro Marco Aurélio Mello. Simone atribui a denúncia a adversários políticos e lamenta que, na cabeça do eleitor, a partir do momento em que um político tem um inquérito, a imagem fica manchada, mesmo que não dê em nada.

Simone Tebet tem hábitos diurnos. Acorda às 7h, mas gosta de ficar em casa, no apartamento funcional do Senado, na 309 Sul, até por volta das 10h, estudando os assuntos do dia, sem interrupções. Assessores contam que ela é muito estudiosa e gosta de saber todos os detalhes dos projetos de lei que vai discutir, mesmo que não seja a relatora. Esmiuçou o relatório do senador Antonio Anastasia (PSDB-MG), pela admissibilidade do impeachment. Simone é admiradora de Anastasia, principalmente pelo conhecimento jurídico do parlamentar. Embora esteja no comando da bancada pró-impeachment, pode-se dizer que é a "queridinha do Senado" pela relação cordial que mantém com todas as correntes partidárias, inclusive com senadores de oposição ao governo Temer, como Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM).
Simone é admiradora confessa do senador Antonio Anastasia (PSDB-MG), de quem está ao lado na foto: respeito pelo conhecimento jurídico (Edilson Rodrigues/Agência Senado)
Simone é admiradora confessa do senador Antonio Anastasia (PSDB-MG), de quem está ao lado na foto: respeito pelo conhecimento jurídico

Apesar do destaque dos últimos meses, Simone nem sempre vota com o governo. Ela mesma admite a dificuldade de se enquadrar na esquerda ou na direita, e diz que tem tendências liberais ou progressistas, a depender do assunto. Nas votações no Senado, tem demonstrado posições nacionalistas. Por exemplo, foi contra a quebra do monopólio da Petrobras na exploração do pré-sal. Também rejeitou a abertura de 100% das empresas aéreas ao capital estrangeiro, defendida pelo governo Temer.

A senadora costuma ficar sozinha em Brasília três noites, de segunda a quinta-feira. As outras quatro passa em Campo Grande, capital do estado, com a família e os compromissos políticos locais. O marido, Eduardo Rocha, é deputado estadual. "Meu marido gosta muito de política, é meu grande parceiro, então facilita muito. Ele vibra a cada sucesso meu, mais do que com o sucesso dele. Isso é raro na política e no homem", afirma. Simone e Eduardo têm duas filhas, que preferem manter longe dos flashes da vida pública. Assim como a mãe, Fairte, que não queria ver os filhos na política, Simone não quer que as filhas sigam sua carreira. "Estamos passando por um momento difícil, de criminalização da atividade política e de excesso de denuncismos. Porém, é um momento necessário, porque o Brasil precisa ser passado a limpo", diz Simone, referindo-se à Operação Lava-Jato, que desvendou a corrupção na Petrobras. Simone Tebet afirma que a Lava-Jato mostrou ao Brasil que a corrupção é sistêmica e os números desviados causaram espanto até em quem, como ela, faz política desde a adolescência. Mesmo assim, defende a operação e o surgimento de novas lideranças: "Assim que acabar a Lava-Jato, temos de tentar descriminalizar a política, talvez por meio da própria mídia. Se nós viemos da sociedade, não podemos ser todos corruptos. Talvez os nossos netos vão ter uma condição mais favorável na vida pública."

Ao contrário da maioria das lideranças do próprio partido, Simone Tebet, até agora, não foi citada na Lava-Jato. "Citação em delação tem de ser provada, e se for, independente de ser do meu partido ou de outro, é preciso punir. É isso o que a sociedade espera e eu não vou pensar diferente", defende.

Dona Fairte não queria ver os filhos
na política, mas Simone Tebet acabou
 não seguindo os conselhos da mãe: 
hoje é uma liderança nacional (Arquivo Pessoal)
Dona Fairte não queria ver os filhos
na política, mas Simone Tebet acabou
não seguindo os conselhos da mãe:
hoje é uma liderança nacional
A senadora entende que a principal reforma a ser feita pelo governo Temer é a política, para moralizar o país. Ela considera um avanço, mas insuficiente, a proibição de doações de pessoas jurídicas para as campanhas eleitorais, que começa a vigorar a partir da eleição deste ano. Defende também a redução do número de partidos pela metade, para acabar com a troca de cargos e ministérios por apoio político no Congresso. Hoje, para conseguir governar, "qualquer presidente que ganhe a eleição terá de fazer isto: se não der um ministério, 30 senadores ou 50 deputados não vão votar com você. No português claro, é isso que acontece", revela.

Simone conta que o PMDB ainda não discute candidaturas para 2018, porque o partido está focado no governo, mas confirma que Temer não será candidato. "O PMDB já mostrou mais de uma vez que, se for necessário abrir mão da candidatura à Presidência em prol de um nome que unifique as forças políticas em torno de um projeto nacional, o fará. Já fez na época de Lula e Dilma. Se tiver de fazer novamente, não vejo dificuldades."

Quanto à própria carreira política, Simone Tebet diz que também não está pensando em 2018, que pretende ficar mais sete anos no Senado e que não será candidata ao governo de Mato Grosso do Sul. "Isso depende de muitas variáveis que não estão sob o meu poder. O futuro dirá se minha carreira política finaliza nos próximos sete anos ou se terei outra missão pela frente." Se a opção for por continuar no Legislativo, para se igualar ao pai em termos de mandatos, faltam a reeleição como senadora e a presidência do Senado.
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EDIÇÃO 59 | novembro de 2017