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COLUNA | Nas telas »

Almodóvar sempre gigante

José João Ribeiro - Colunistas Publicação:28/07/2016 09:13
De todas as suas fases, bem distintas, o cineasta Pedro Almodóvar sabe trabalhar o universo feminino como poucos. Desde A Flor do Meu Segredo (1995), o diretor espanhol abriu mão da característica anarquia para se debruçar sobre roteiros elegantes e complexos, em especial com os dilemas das mulheres. Seu novo longa-metragem, Julieta, segue o padrão, baseado em contos da autora canadense Alice Munro. Mesmo com trama mais compacta, Almodóvar emociona o espectador, sabendo, como sempre, tirar o melhor do seu elenco e abusar dos recursos tradicionais, tais como a paleta de cores e os acordes sublimes do maestro Alberto Iglesias, parceiro de longa data.

Na trama, Julieta, uma senhora prestes a abandonar Madri para um recomeço em Portugal, tem um encontro casual em uma esquina. Desse encontro, o passado vem à tona, forçando Julieta a não mais negar as dores, mágoas e culpas que resolveu trancar em uma gaveta do inconsciente. Seu grande tormento é a ausência da filha, sumida por anos. Mas para entender todo o processo e poder seguir adiante, a professora de filosofia terá de relembrar e esmiuçar sua trajetória, a partir do dia em que conheceu Xoan, o pai de sua filha, numa viagem de trem.
Pedro Almodóvar sabe trabalhar o universo feminino como poucos: as atrizes de Julieta emocionam o espectador (Divulgação)
Pedro Almodóvar sabe trabalhar o universo feminino como poucos: as atrizes de Julieta emocionam o espectador

Com o intervalo e respiro em Os Amantes Passageiros (2013), quando retornou às estripulias dos anos 1980, Almodóvar aborda as relações de pais e filhos, tema que sempre rende lágrimas e fortes emoções no cinema quando bem conduzido. Julieta é parte desse gênero de notável qualidade, com uma mãe sufocada pela ausência da filha e, ao mesmo tempo, deprimida pela péssima relação com seu pai, que abandonou sua mãe para viver com outra mulher muito mais jovem.

Grande parte da crítica espera de Pedro Almodóvar a mesma excelência de seus mais premiados filmes. Uma bobagem. É possível ser gigante e emocionar com a mesma intensidade, contando uma história menor. Julieta pertence a uma cinebiografia rica, que sempre evolui, homenageando os grandes mestres da sétima arte, caso particular de Alfred Hitchcock, ídolo do artista espanhol. A semelhança com sua obra maior, Tudo sobre Minha Mãe, faz com que sua nova produção atice a curiosidade do público admirador.

Afiado, como sempre, o pulso exato no trato com o elenco. A personagem título é muito bem defendida nas duas fases, por Adriana Ugarte e Emma Suárez. E a figura masculina da vez, confiada ao carismático Daniel Grao, como Xoan, grande amor de Julieta. Aos almodovarianos, a participação de Rossy de Palma equivale ao obrigatório uso do vermelho exuberante.
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EDIÇÃO 59 | novembro de 2017