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COMPORTAMENTO | Terceira idade »

Idosos em uma cidade jovem

Como vive a população que tem mais de 60 anos no Distrito Federal? Integrantes de um grupo que soma quase 400 mil pessoas contam o que gostam de fazer em Brasília

Paloma Oliveto - Publicação:03/08/2016 14:27Atualização:03/08/2016 14:34
Marlene Cerqueira tem 82 anos, sendo 53 deles vividos em Brasília, e hoje preside a Associação dos Idosos Paz e Amor do Cruzeiro Velho: vida social agitada (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
Marlene Cerqueira tem 82 anos, sendo 53 deles vividos em Brasília, e hoje preside a Associação dos Idosos Paz e Amor do Cruzeiro Velho: vida social agitada
Eterno símbolo de modernidade, a capital da esperança amadurece, acompanhada por uma população de 390 mil pessoas – homens e mulheres com mais de 60 anos, muito dos quais cresceram com Brasília e, hoje, com os filhos criados, aproveitam a cidade em sua plenitude.

A edição mais recente da Pesquisa Distrital por Amostra de Domicílios do Distrito Federal, da Companhia de Planejamento de Brasília (Codeplan), mostra que 13% dos moradores da cidade já ultrapassaram a sexta década de vida. O percentual, comparado ao restante da população, sofreu uma leve queda desde o levantamento anterior. Mas, em números absolutos, hoje o DF tem 70 mil idosos a mais que em 2004.

Quase 70% deles estão aposentados ou são pensionistas e, com renda 80% acima da média nacional, podem, merecidamente, aproveitar a vida. Apesar de reclamações sobre segurança e custo de vida, eles admitem que Brasília é generosa em atividades para um público exigente, que se recusa a aceitar o estereótipo de uma velhice passiva e sedentária.

Que o diga Marlene Pinto Cerqueira, de 82 anos, 53 deles vividos em Brasília. Presidente da Associação dos Idosos Paz e Amor do Cruzeiro Velho, da qual participa há três décadas, ela tem vida social agitada, tomada quase toda pelas atividades recreativas que ajuda a organizar. “A associação preenche todo o meu tempo. Venho às segundas, terças e quartas. Nós passeamos, temos coral, fazemos apresentações de dança, saraus”, enumera Marlene, uma verdadeira pé de valsa. “A terceira idade é mais animada que os jovens”, acredita.

Quando não está nas reuniões sociais do Cruzeiro Velho, que acontecem na biblioteca pública do bairro, Marlene gosta de viajar. Os integrantes do Paz e Amor são habitués do aeroporto e já fizeram excursões para a Europa e a América do Sul, além de participar de cruzeiros. A próxima viagem já está sendo programada: um tour pelas cidades históricas de Minas Gerais.

A agitação social de hoje contrasta com a Brasília pacata e interiorana que Marlene encontrou quando chegou do Rio de Janeiro, aos 29 anos, acompanhada do marido e de dois filhos pequenos (o caçula é brasiliense). Em 1963, a capital ainda era um esboço. A família passou o primeiro ano no Acampamento JK, um dos loteamentos provisórios onde os pioneiros da capital eram acomodados. Foram tempos felizes, recorda-se Marlene. “Tínhamos muita liberdade. Era tudo muito pacato. As pessoas se juntavam, iam para a beira do lago Paranoá pescar”, conta. No fim de semana, o programa era enfrentar a poeira e a terra batida e “viajar” para o Núcleo Bandeirante, então Cidade Livre, para fazer compras. “Nós esperávamos por esse dia, era uma festa”, lembra.

Em Brasília, Marlene sofreu grandes perdas, incluindo o filho, com 34 anos. Também aqui, despediu-se do pai, da mãe, do marido, da irmã e do cunhado. Segundo ela, o envolvimento com as atividades da associação do Cruzeiro foi fundamental para enfrentar os momentos difíceis. “Temos de manter a cabeça ocupada”, ensina.

Integrante do grupo de divas dance da academia Vip Training, no Lago Sul, Maria Helena Muniz, de 74 anos, quase não para quieta: 'Não temos de ficar sentados esperando a morte chegar', diz (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
Integrante do grupo de divas dance da academia Vip Training, no Lago Sul, Maria Helena Muniz, de 74 anos, quase não para quieta: "Não temos de ficar sentados esperando a morte chegar", diz
Essa também é a fórmula de Maria Helena Muniz, de 74 anos. A cearense de Quixadá, moradora de Brasília desde 1978, quase não para quieta. Com orgulho, conta que cozinha e arruma a casa de três andares no Guará, faz artigos de artesanato para vender, dança ritmos ciganos, participa de ações sociais em um centro espírita e, há quatro anos, integra o grupo de divas dance da academia Vip Training, no Lago Sul.

Este último é um projeto idealizado em 2010 pela professora Roberta Marques, que conta com cerca de 700 alunas em 25 unidades, sendo 20 em Brasília. Duas vezes por semana, as meninas se reúnem para cantar e dançar ritmos diversos, como axé, bolero e rock da Jovem Guarda. Em algumas unidades, há mulheres mais jovens, mas, no geral, as participantes têm mais de 50. Algumas estão na oitava década de vida.

Maria Helena sempre gostou de dançar e há muito tempo integra um grupo de folclore cigano. Há quatro anos, foi convidada por uma amiga a conhecer as divas e logo as adotou como família. “Adorei, as pessoas são muito alegres. Isso me incentivou muito. Somos amigas e irmãs. O projeto nos faz se sentir mais jovem, mais querida”, conta. “E é muito bom porque a dança é livre. Nós não precisamos de par para dançar. Meu marido não leva jeito para dança”, diverte-se.

As atividades das divas não se resumem às aulas semanais. Elas vão ao cinema, ao teatro, viajam, saem para jantar, participam de ações sociais. Uma das aventuras mais divertidas, conta Maria Helena, foi um cruzeiro no qual aconteceu um concurso de beleza apresentado por Helô Pinheiro, a garota de Ipanema. “Ganhei o segundo lugar”, orgulha-se.

A idealizadora do projeto Divas, Roberta Marques, conhece bem o fôlego dos idosos que vivem em Brasília: 'Quando eu chegar lá, também quero ser livre, leve e para cima' (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
A idealizadora do projeto Divas, Roberta Marques, conhece bem o fôlego dos idosos que vivem em Brasília: "Quando eu chegar lá, também quero ser livre, leve e para cima"
Roberta Marques explica que a inclusão dos idosos na sociedade é o principal objetivo do projeto. “Não é só uma aula de dança. O objetivo é colocar as pessoas em conexão. A maioria das mulheres cuidou muito dos outros e desaprendeu a se cuidar. Aqui, elas aprendem a ser leve, ter bom humor, ser livre, a escolher ser feliz. É incrível como elas se libertam”, observa.

“Quando meus filhos eram pequenos, eu não tinha distração. Trabalhava fora e cuidava da casa”, revela Maria Helena. Com todos já crescidos, ela, finalmente, pode se dedicar às suas atividades. A agitada diva lamenta que algumas amigas tenham preferido se entregar ao desânimo. “Elas só querem ficar deitadas, ou estão sempre doentes. Chamo para almoçar, para me visitar, mas não adianta forçar. É muito triste quando uma pessoa se entrega. Por que ser assim? Não temos de ficar sentados esperando a morte chegar”, diz.

Também é na dança que Jorge Luiz Dias Filho, o “Chula”, de 66 anos, investe sua energia. O carioca é passista da mais tradicional escola de samba de Brasília, a Associação Recreativa Unidos do Cruzeiro (Aruc), e, há muito, trocou o carnaval do Rio pelo da capital do país. Na década de 1970, ele veio visitar parentes na cidade. “Eu frequentava muitas festas, aí conheci minha mulher”, conta. Apaixonado, mudou-se para a Asa Sul e começou a trabalhar no Itamaraty. Sem nunca, porém, deixar de lado o espírito sambista – todos os anos, ele viajava para desfilar pela Império do Maringá, de Jacarepaguá.

Pé de valsa: aos 66 anos, Jorge Luiz Dias Filho, conhecido como Chula, é passista da escola de samba da Aruc e não perde os ensaios semanais (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
Pé de valsa: aos 66 anos, Jorge Luiz Dias Filho, conhecido como Chula, é passista da escola de samba da Aruc e não perde os ensaios semanais
Até que Chula conheceu o batuque da Aruc. “Nunca mais fui para o carnaval do Rio”, conta. O passista não perde os ensaios semanais e, mesmo sendo um tremendo pé de valsa, diz que quer sempre se aprimorar. Em casa, bota o som e cai no samba, até sozinho. “Eu vou falar uma coisa: hoje o pessoal da terceira idade está muito mais animado que os mais novos”, diz. A idealizadora do projeto Divas, Roberta Marques, concorda: “Não podemos subestimá-los. Algumas alunas nos deixam para trás. Quando eu chegar lá, também quero ser assim: livre, leve e para cima”, diz Roberta, aos 39 anos.
 
 
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EDIÇÃO 57 | Setembro de 2017