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CULTURA | Literatura »

A atual cena literária brasiliense

Novos e antigos autores da cidade persistem na escrita e utilizam os mais diversos suportes para manter viva sua produção artística

Isabella de Andrade - Publicação:03/08/2016 14:48
Patrícia Colmenero é uma das jovens escritoras brasilienses que investem na publicação independente: %u201CNossa principal dificuldade ainda é a distribuição%u201D, diz (Raimundo Sampaio / Esp. Encontro / DA Press)
Patrícia Colmenero é uma das jovens escritoras brasilienses que investem na publicação independente: %u201CNossa principal dificuldade ainda é a distribuição%u201D, diz
Ainda que a venda de livros não tenha mostrado resultados animadores nos últimos anos, autores brasilienses se mantêm firme no propósito de fazer da literatura um meio contínuo de expressão, comunicação e reflexão. Em romance, prosa, poesia, zines ou quadrinhos, as novas e antigas gerações se adéquam aos novos tempos e a produção literária se estende entre os tradicionais impressos e os novos suportes on-line. Entre o concreto e o céu da cidade, temos autores que mostram que a inspiração para a escrita pode e deve permanecer ao longo do tempo, independentemente do suporte em que sejam colocadas as palavras e dos espaços de distribuição. O importante parece ser, de maneira consensual, criar e resistir.

O novo espaço de produção literária e de quadrinhos tem se mostrado presente em pequenas editoras, publicações independentes, feiras, editais, redes sociais, blogs e e-books. Independentemente da idade ou do tempo de carreira, autores e quadrinistas procuram investir nos mais diversos formatos para alcançar o público.

Patrícia Colmenero é uma das jovens escritoras brasilienses que investem na publicação independente e na valorização da produção local. Autora do livro Até a Morte Terei Fome, a escritora conta que, depois de enfrentar diferentes caminhos e obstáculos, optou por publicar seu primeiro livro de maneira independente, através de um edital que possibilitava que sua publicação não exigisse custo próprio. “Esse formato ainda se vê cercado de muito preconceito, as pessoas ficam em dúvida se o livro é bom por não ter sido endossado por uma editora. Nossa principal dificuldade ainda é a distribuição”, conta a escritora. Ela diz ter ficado surpresa com a boa receptividade de seu primeiro trabalho e, com ajuda das redes sociais, está quase finalizando as vendas de sua primeira tiragem de mil exemplares.

Empenhada na valorização da produção brasiliense, Patrícia se inspirou, ao lado de outras escritoras, no projeto Leia Mulheres para criar o Leia Poetisas, que teve suas primeiras edições em 2016 em Brasília e pretende se constituir como um projeto fixo. “A ideia é desmistificar a leitura de poesia e propiciar esse espaço de incentivo à leitura, ao debate e à reflexão na cidade. Muita gente tem receio de ler poesia, acredita que é complicado demais, e eu quero mostrar que é importante quebrar esse estigma”, diz a escritora. Ela busca facilitar o acesso ao público para que o interesse por trabalhos de autoras locais possa crescer.

Taís Koshino, Lívia Viganó, Ana Terra e Daniel Lopes criaram a feira Dente de Publicações: foco em ampliar a circulação dos trabalhos (Raimundo Sampaio / Esp. Encontro / DA Press)
Taís Koshino, Lívia Viganó, Ana Terra e Daniel Lopes criaram a feira Dente de Publicações: foco em ampliar a circulação dos trabalhos
Outra representante da jovem geração que investe no mercado de publicações e na expansão da criação brasiliense é Taís Koshino, uma das produtoras da feira Dente de Publicações. Além da quadrinista, estão no grupo artistas como Lívia Viganó, Daniel Lopes e Ana Terra Fensterseifer. A Dente teve sua primeira edição em 2015, e a segunda no mês passado (dias 17 e 18 de junho). E a aposta é que cresça, já que os organizadores percebem que o espaço de feiras de publicações está amplo em Brasília, aumentando seu público e alcance a cada ano. “A presença dessas feiras ajuda a divulgar nosso trabalho e a alcançar um público mais diversificado. Nelas, conhecemos muitas criações que ainda não tinham sido publicadas nem pela internet. Isso ajuda a construir essas relações entre artista e público”, conta Taís.

Com a percepção da necessidade de conectar os criadores ao cotidiano da cidade, Taís Koshino e os outros organizadores criavam também as feiras menores, como a Dente de Leite, que teve sua primeira edição na Universidade de Brasília. “A ideia é alcançar mais pessoas. No Brasil, em geral, ainda é muito difícil viver somente de quadrinhos. Precisamos então ampliar a circulação dos nossos trabalhos. A venda nos ajuda a investir”, diz a quadrinista.

Os jovens autores, ilustradores e criadores costumam investir na divulgação em redes sociais e afirmam que há novas plataformas que dão suporte a quem queira publicar. “Hoje existe a possibilidade de criar lojas on-line, produzir e-books, divulgar em sites especializados e criar um financiamento coletivo na internet para bancar o seu projeto e realizar as impressões”, ressalta Taís Koshino. A artista acredita que a produção de quadrinhos brasiliense seja diversificada, trazendo exemplares que passam por desenhos mais tradicionais (como a Aerolito), quadrinhos que debatem o feminismo e emponderamento da mulher (como a lovelove6) e produções experimentais (como a Piqui e a LTG).

'O trabalho da editora Nautilus inclui captar novos artistas que ainda não têm lugar no mercado tradicional', diz Luiz Reis (dir.) ao lado do amigo e sócio Fábio Lucas Vieira (Raimundo Sampaio / Esp. Encontro / DA Press)
"O trabalho da editora Nautilus inclui captar novos artistas que ainda não têm lugar no mercado tradicional", diz Luiz Reis (dir.) ao lado do amigo e sócio Fábio Lucas Vieira
Além de seguir o caminho das publicações independentes os novos autores podem optar pelas pequenas editoras, como é o caso da brasiliense Nautilus, criada em 2012 por Luiz Reis e Fábio Lucas Vieira. No início, o projeto era encabeçado por um grupo de amigos que queria potencializar suas próprias publicações. Com o tempo e com as possibilidades oferecidas pela era digital, a ideia cresceu para a criação da editora. Começaram publicando as próprias obras e as de autores iniciantes e sem espaço nas editoras tradicionais, mas hoje – eles acreditam – existe um mercado muito promissor para novas editoras e editoras independentes, o que proporciona um movimento em torno de publicações alternativas. “O mercado funciona em torno de feiras e espaços de produção. Ao mesmo tempo, existe um interesse em produções artesanais e diferenciadas com tiragens limitadas. O trabalho da Nautilus inclui captar novos artistas que ainda não têm lugar no mercado tradicional e possibilitar visibilidade a suas produções”, afirma Luiz. A editora optou por produzir também uma revista anual, a Bacanal, que chega ao seu quarto volume neste ano. Para expandir o campo de atuação, os criadores colocaram em seu repertório literário o lançamento de zines, livros artesanais com serigrafia, costura e desenho.

Representante de outra geração literária, Noélia Ribeiro trilhou outros caminhos para viabilizar a publicação de seus livros. A poetisa começou a escrever ainda muito nova e seu primeiro livro, Expectativa, foi feito no mimeógrafo, com investimento próprio e vendido de mão em mão, em 1982. Anos depois, com o mercado editorial modificado, o crescimento das gráficas e facilidades de impressão, Noélia reuniu outra leva de seus melhores poemas para lançar Atarantada, com uma primeira edição de 750 exemplares. “Ainda não sabia muito bem se seria bem recebida por alguma editora e resolvi bancar. Vejo que muitas pessoas por aí fazem suas próprias edições. Tem editoras que lançam tiragens bem pequenas, pois não querem arriscar em autores desconhecidos”, afirma.

De acordo com Noélia, em Brasília, o melhor momento para se vender livros é no lançamento. “Depois disso, o autor precisa andar com os exemplares sempre embaixo do braço, vendendo de mão em mão”, diz.

Ela atualmente também investe na internet, já que as livrarias cobram um preço alto pela exposição dos materiais e ficam com poucos exemplares, mantendo vivo o receio de que novos autores encalhem nas prateleiras.

Outro caminho percorrido por Noélia é a presença garantida em saraus da cidade. Além de recitar seus versos, ela mesma tenta vender sua obra aos interessados. “Não vejo a literatura com ganância, com o pensamento apenas no retorno financeiro. É a forma que tenho de me comunicar, de entrar em contato com os leitores. O livro abre o caminho do conhecimento poético, é um motivo para propiciar encontros, possibilitar trocas”, afirma a poetisa, que acredita que a troca entre livros, poesias e histórias é mais rica do que a realização de qualquer venda. Para não deixar de fora o alcance virtual, Noélia produz ainda vídeos com poemas recitados e publica na internet.
 
'A literatura é a forma que tenho de me comunicar, de entrar em contato com os leitores', diz a poetisa Noélia Ribeiro (Raimundo Sampaio / Esp. Encontro / DA Press)
"A literatura é a forma que tenho de me comunicar, de entrar em contato com os leitores", diz a poetisa Noélia Ribeiro
 
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EDIÇÃO 59 | novembro de 2017