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COMPORTAMENTO | Dança »

Fuerza flamenca

Escolas brasilienses popularizam o ritmo que narra a história dos povos que formaram a Espanha

Sara Campos - Publicação:04/08/2016 14:41Atualização:04/08/2016 15:14
As irmãs Renata e Patricia El-moor estão à frente da Oficina Flamenca: 'Como temos formas diferentes de dançar, os alunos se inspiram nessas diferenças e enxergam no flamenco um universo plural', diz Patricia (Augusto Costa / Divulgação)
As irmãs Renata e Patricia El-moor estão à frente da Oficina Flamenca: "Como temos formas diferentes de dançar, os alunos se inspiram nessas diferenças e enxergam no flamenco um universo plural", diz Patricia
O tablado de madeira recebe movimentos marcados pelo sapateado. As mãos podem emoldurar movimentos suaves ou mais bruscos. Essas variações dependem da coreografia interpretada pelos bailaores, termo em espanhol que define os dançarinos de flamenco – dança secular que tem origem no Sul da Península Ibérica. A região foi colonizada por mouros e ciganos, principais povos que influenciaram a arte imortalizada por nomes como Antonio Gades, Paco de Lucia, Sara Baras e Eva Yerbabuena.

A influência flamenca tem ganhado mais força nos últimos anos na capital do Brasil. São escolas com trabalhos plurais que recebem anualmente pessoas de diferentes idades e perfis. Alunos que enxergam no compasso do flamenco a beleza além de estereótipos musicais e estéticos. Apesar das particularidades, todas são unânimes na defesa da diversidade como peça fundamental do estilo de vida da arte que ultrapassou fronteiras espanholas.

Um filme sobre essa temática mudou para sempre o destino do coreógrafo Raphael Cortés. O clássico Carmen, do diretor espanhol Carlos Saura, encantou o pré-adolescente, na época com 11 anos, e o impulsionou a se aprofundar na dança flamenca. “Fiquei apaixonado tanto pela cultura e principalmente pela força que o papel masculino tem nessa dança. Decidi entrar nesse mundo para o resgate da minha cultura e de minhas raízes”, afirma ele, que é neto de um espanhol nascido em Jerez de la Frontera.

Na escola de Raphael Cortés, os instrumentos musicais tocados 
ao vivo indicam o que ele defende: 'O flamenco não nasceu pela dança, e sim pelo canto e pelo violão' (Marcelo Dischinger / Divulgação)
Na escola de Raphael Cortés, os instrumentos musicais tocados ao vivo indicam o que ele defende: "O flamenco não nasceu pela dança, e sim pelo canto e pelo violão"
Entre as marcas de trabalho de Raphael, que desde 2004 coordena a escola homônima na Asa Norte, está a ênfase aos instrumentos musicais tocados ao vivo durante aulas, ensaios ou espetáculos. “O flamenco não nasceu pela dança e sim pelo canto e pelo violão. Eu queria saber expressar e identificar o que cada ritmo transmite e repassar isso aos alunos”, destaca.

Durante as apresentações, Raphael toca o cajón, instrumento percussivo que auxilia os bailaores a ter maior compreensão de elementos como ritmo e compasso. “O flamenco praticado fora da Espanha necessita do cajón para guiar quem dança. Isso ajuda a familiarizar o aluno a um ritmo que pode não ser muito familiar em um primeiro momento”, ressalta.

As linhas do tempo registradas no rosto da dona de casa Olivia Bernardes, de 68 anos, não a intimidaram a realizar o desejo de dançar flamenco. A atividade faz parte da sua rotina três vezes por semana, quando palmas e compassos desafiam as limitações do tempo e provam que a dança não tem limite de idade. “É o meu remédio, mexe com meu corpo e minha mente. Passei a me valorizar e a me enxergar como alguém bonita e elegante. O flamenco é vida, superação e desafio constante.”

A expressividade é uma das marcas que fazem com que o flamenco ganhe força quando interpretado por mulheres maduras. “É lindo por isso. Justamente por essas mulheres terem mais experiência de vida, a verdade de cada uma fica mais evidenciada nos palcos”, comenta o professor de dona Olivia, Raphael Cortés.

Leonardo Barreto acredita que a dança ultrapassou o arquétipo de dança feminina: 'O flamenco tem a vantagem 
de abraçar todas as individualidades', diz (Nick El-moor / Divulgação)
Leonardo Barreto acredita que a dança ultrapassou o arquétipo de dança feminina: "O flamenco tem a vantagem de abraçar todas as individualidades", diz
Brincos grandes, tranças nos cabelos e tom vermelho nos lábios são elementos que revelam uma mulher vaidosa que vence grandes distâncias para se dedicar à arte. “Moro longe e demoro quatro horas para chegar aqui. Acho que cada minuto vale a pena”, ressalta Olivia, que também ensina dança cigana para crianças e adolescentes carentes em Formosa. “Posso não fazer tão rápido e tão perfeito, mas consigo vencer etapas. Acho que todas as mulheres da minha idade deveriam se presentear com essa chance”, diz.

Em parceria com a irmã, Renata El-moor, a socióloga Patricia El-moor fundou em 1998 a escola Oficina Flamenca. A formação da coreógrafa na área de humanas impulsionou a criação de aulas de cultura flamenca, que contam com o aporte de exibição de materiais audiovisuais e compartilhamento de textos sobre a história do flamenco. “Quando comecei a dançá-lo, queria mergulhar de forma mais profunda no surgimento e nos significados dos bailes e das coreografias, que são diversas. Comprava livros para me aprofundar e vi que poderia repassar isso aos alunos”, afirma Patricia, descendente de sírio-libaneses que tinha planos iniciais de aprender dança do ventre, mas se apaixonou pela dança flamenca após participar de aulas do ritmo nos intervalos da faculdade.

As viagens frequentes à Espanha fizeram com que as irmãs se identificassem com uma linha do ritmo: a Escola Sevillana de Baile, formada por um conjunto de elementos declarado pelo governo espanhol bem de interesse nacional e marcada pela elegância, graciosidade e utilização de acessórios como o sombrero, o bastón e o mantón. “Seguir o mesmo estilo de dança, sermos muito amigas e parceiras foram elementos determinantes para coordenarmos a escola juntas. Como temos formas diferentes de dançar, os alunos se inspiram nessas diferenças e enxergam no flamenco um universo plural. Eles não exigem de si movimentos idênticos”, conta.

Apesar de ser uma linha com características femininas, a escola seguida pelas irmãs El-moor têm atraído homens. Com a chegada deles para a prática da dança, a formação de uma turma masculina se transformou em uma realidade neste semestre. “Vimos que, quando os homens entravam na dança, eles desistiam rapidamente por serem os únicos na turma. Os alunos se uniram, apesar de terem níveis diferentes de desenvolvimento, e vão dançar a farruca, um baile de características masculinas que remete às touradas”, ressalta Patricia El-moor.

Um dos integrantes da turma de alunos da Oficina Flamenca, Leonardo Barreto acredita que o flamenco ultrapassou o arquétipo de dança feminina e atualmente transita entre danças de características interpretadas por ambos os sexos. “Temos uma visão preconcebida de que o flamenco é uma dança feminina. Apesar da técnica, é folclórica, e tem a vantagem de abraçar todas as individualidades. É algo difícil de acontecer em outras danças”, destaca o arquiteto, que considerou a primeira apresentação com a escola no Teatro dos Bancários, em 2008, um momento desafiador. “Apesar de estar com os nervos à flor da pele, meu estado de excitação era maior que a angústia. Pisar em um palco era algo que eu sempre quis fazer.” Apaixonado por dança, Leonardo pratica balé clássico paralelo ao flamenco. “Consegui evoluir mais rapidamente no balé graças às noções de compasso que aprendi no flamenco. Nele, eu consigo colocar toda a minha expressão.”

'O flamenco é vida, superação e desafio constante', diz Olivia Bernardes, que, aos 68 anos, se dedica à atividade três vezes por semana (Raimundo Sampaio / Esp. Encontro / D.A Press)
"O flamenco é vida, superação e desafio constante", diz Olivia Bernardes, que, aos 68 anos, se dedica à atividade três vezes por semana
Depois de se tornar bailarina clássica, a coreógrafa Patrícia Weingrill realizou os primeiros passos da dança flamenca com a professora Iara Castro, em São Paulo. Ao voltar para Brasília, em 1992, enxergou na cidade um potencial para a dança espanhola. “Vi que aqui não havia local para aprender o flamenco. Decidi criar a primeira escola, que funcionava na antiga Cultura Hispânica, onde fica o atual Instituto Cervantes”, relembra Patrícia, fundadora da Capricho Espanhol.

O ensino do flamenco direcionado a crianças é uma das grandes marcas da escola. As aulas são divididas de acordo com a faixa etária: de 3 a 6 anos e de 7 a 14 anos. “O tempo da criança é diferente. A técnica é a mesma, mas é preciso uma aula mais lúdica. As crianças costumam aprender mais rapidamente que os adultos e exigem que você sempre busque uma forma nova de ensino. O professor é incentivado a sair do comodismo”, ressalta. Ela enxerga, entre as grandes vantagens de aprender flamenco cedo, a compreensão da parte percussiva, além da melhora da postura e da coordenação motora.

'A dança nos uniu. Minhas filhas são um estímulo para continuar', diz Cilene da Silveira, ao lado das filhas Luara e Clara (Raimundo Sampaio / Esp. Encontro / D.A Press)
"A dança nos uniu. Minhas filhas são um estímulo para continuar", diz Cilene da Silveira, ao lado das filhas Luara e Clara
Na escola Capricho Espanhol, todas as crianças são filhas de praticantes de flamenco, o que transforma a rotina de ensaios em grandes encontros familiares. “As crianças admiram as mães no palco e ficam com vontade de fazer também. Quando mães e filhos conseguem fazer alguma atividade juntos, eles sempre ficam felizes. É um processo interessante de acompanhar.”

O interesse das filhas Luara, de 4 anos, e Clara, de 11 anos, durante os ensaios para os espetáculos semestrais resultou em uma atividade em família para Cilene da Silveira. Praticante de flamenco há 11 anos, ela enxergou nas filhas uma motivação para continuar na dança. “O flamenco nos uniu. Minhas filhas são um estímulo para continuar. Os adultos às vezes inventam desculpas para não persistir, mas com elas é possível ter mais perseverança”, destaca Cilene, que tem percebido nas filhas importantes mudanças. “Elas melhoraram a concentração nos estudos e estão aprendendo que atingir algo que se deseja é resultado de muito esforço e dedicação”, diz.
 
As irmãs Renata El-moor e Patricia El-moor fundaram a escola Oficina Flamenca em 1998: exploram, desde então, o universo plural do ritmo (Nick El-moor/Divulgação)
As irmãs Renata El-moor e Patricia El-moor fundaram a escola Oficina Flamenca em 1998: exploram, desde então, o universo plural do ritmo
 
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EDIÇÃO 59 | novembro de 2017