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CAPA | Design »

Talento e criatividade

Duas características - dentre várias outras - comuns a profissionais da cidade que inovam na criação de objetos úteis, práticos e, sobretudo, bonitos

Isabela de Oliveira - Redação Publicação:30/08/2016 11:12Atualização:30/08/2016 12:28
A vocação para criar está no nome: foi chamado de Brasil o território do pau-brasil, madeira cor de brasa que foi, por séculos, principal matéria-prima de artesãos e arquitetos portugueses. Mas uma identidade estética genuinamente brasileira só surgiu na primeira metade do século 20, quando o modernismo chegou ao país, com a espontaneidade e improvisação que faltavam para que os vanguardistas rompessem com o legado colonial e iniciassem o esboço da estética made in Brazil tipo exportação. Nesse conjunto de possibilidades, Brasília é celeiro de talentos por trás de alguns dos traços mais expressivos do mercado regional, nacional e internacional.

Bia Calza é um desses expoentes. Ela assina as peças da Möblia, loja virtual de mobília e decoração autorais que mescla arte com peças funcionais. O conceito de "mobília-terapia", inerente às produções, é inspirado nas ideias de Alain de Bottom. Em casa, o filósofo diz, a arte promove a homeostase das emoções e humor. Seus móveis, Bia garante, fazem o mesmo.

A Color Bossa, primeira linha de móveis da Möblia, é a preferida dos brasilienses. Faz sentido. Com estilo retrô que remete aos cobogós dos anos 1960 e 1970, as peças são uma referência à bossa nova, movimento musical de 1950 que revisou o velho jeito de fazer samba. Nesse cenário, Oscar Niemeyer e Lucio Costa são para a arquitetura o que Tom Jobim e Vinicius foram para a música: uma ruptura bem-sucedida com o tradicional. "É meio clichê, mas Brasília realmente inspira. Algumas peças que criei, tenho certeza de que só as fiz porque eu moro aqui", conta Bia. Na Linha Etnias, a designer mistura cores vibrantes com estampas étnicas, dando origem a um caldeirão visual que compõe as peças Tereza, Dandara e Clara, entre outras. A combinação é especialmente bem aceita entre os cariocas.

Outra mulher que tem atraído atenção no design é Raquel Chaves. Circulando tanto no design de mobília autoral - com a empresa virtual Moderno Design - quanto no design gráfico, com o Estúdio Revoada, ela produz peças clean que transmitem leveza. "Me inspira bastante o design escandinavo. Por ter estudado na Bauhaus, eu me identifico com a filosofia de lá também", diz.
 (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)

Referência em design, artes plásticas e arquitetura de vanguarda, a Universidade Bauhaus, na Alemanha, é herdeira da Staatliches-Bauhaus, uma escola pioneira no ensino do design que marcou o último século com ideais esquerdistas traduzidos em linhas retas, claridade e ausência de adornos. Esses mesmos ideais foram impressos na configuração das quadras residenciais de Brasília, além de monumentos como a Esplanada dos Ministérios - linhas secas, retas e claras, sem mistérios, edificam as pastas políticas mais importantes do país. "Só agora as pessoas estão descobrindo que existe uma produção no design local que valoriza tudo isso. A grande maioria ainda prefere ir a grandes redes de lojas ou sites de outros estados e outros ainda acham caro pagar 300 reais em uma poltrona, mas não em uma noitada", diz Danilo Vale, designer veterano na cidade, que também tem como inspiração o modernismo da escola alemã. A referência é clara em um dos seus últimos trabalhos, os bancos Tião, que valoriza (assim como a Bauhaus) o trabalhador e a funcionalidade de materiais simples. Criados com vergalhões, os bancos foram batizados em homenagem aos Sebastiões que trabalham na construção civil e que, assim como muitos dos materiais que manejam, são invisíveis.

Para Danilo, a perseverança da nova geração da produção regional de mobília está forçando a indústria de base a amadurecer. A matéria-prima de refinados móveis com estruturas de aço, por exemplo, é fornecida por empresas acostumadas com clientes que necessitam de materiais grandes e grosseiros, como estruturas metálicas para edifícios e treliças para telhados.
DANILO VALE, de 31 anos (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
DANILO VALE, de 31 anos

O diálogo diminuiu a distância entre a arte e a produção em série de matéria bruta. "Os fornecedores entenderam o que eu queria e se esforçam para me entregar o que eu preciso. Quando trabalho com vidros, a mesma coisa: 80% da demanda das empresas desse material são para blindex. Essas fábricas parceiras acreditam no nosso trabalho e, por isso, gastam energia e conhecimento para fazer nossas ideias virarem realidade", explica ele. Outro aspecto marcante é a geometria e modularidade das criações de Danilo. Os traços refletem os anos de Brasília, terra natal do designer. "A cidade tem setores específicos, com quadras perfeitamente divididas. Brasília modular, como meus trabalhos", descreve.

O uso inusitado de materiais também é um aspecto do trabalho de Thiago Lucas e Nina Coimbra, ambos designers. Carioca, Thiago diz que os conceitos modernistas de Brasília, expressos nas linhas curvas ou retas da cidade, influenciam seu trabalho. No entanto, a cidade tem algo mais que influenciou muito suas criações: "No Plano Piloto tudo é perfeito e organizado, mas a poucos quilômetros dele há o grande lixão da Estrutural. Em Brasília, percebi com clareza a relação dúbia da questão de classes. Isso existe no Rio de Janeiro também, mas foi aqui que eu comecei a refletir sobre a materialidade das coisas", conta Thiago Lucas, especialista em técnicas de reaproveitamento de materiais.

A experiência o levou a criar a Baru Design, empresa de móveis autorais e completamente sustentáveis da qual é sócio. As peças são idealizadas pelos designers, mas produzidas na cooperativa de ex-detentos Sonho de Liberdade, na Estrutural, com madeira de demolição coletada em canteiros de obra. Um exemplo de como o design de Thiago Lucas transita entre o lixo e o luxo é a poltrona Planalto, exposta na Pop Up Store, loja no shopping Liberty Mall.

Ao lado de Nina Coimbra, Thiago Lucas integra o Mostra Extraordinária, de Virshna Cunha. O projeto reúne artistas engajados com produções socioambientais para criar obras de arte com catadoras da Central de Reciclagem do Varjão. Algumas das peças serão expostas no Teatro Nacional em outubro, entre elas a poltrona Tunga. Sua origem é uma poltrona velha que foi restaurada e revestida com cabos de aquecedor solar encontrados no lixo.

"As mulheres que participaram do workshop que fizemos não são artesãs nem carregam saberes tradicionais. Nosso desafio foi olhar para elas e tentar encontrar formas de conectá-las com o design, permitindo que modificassem o olhar que tinham dos materiais coletados. Foi uma oportunidade para nós também, que experimentamos matérias-primas e continuaremos essa produção", conta Nina.

Designer e cenógrafa, Nina cria a ambientação de eventos e instalações em Brasília. "Os produtores da capital estão percebendo que a cenografia faz a diferença por fixar o evento na memória dos convidados", explica a autora do redário do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) em parceria com Thiago Lucas. Eles também criaram a cenografia do Curta Brasília, festival anual de curtas-metragens no Cine Brasília.
 (Raimundo Sampaio/Esp.Encontro/DA Press)
THIAGO LUCAS, de 30 anos
THIAGO LUCAS, de 30 anos
NINA COIMBRA, de 32 anos
NINA COIMBRA, de 32 anos

Seja no design de mobiliário seja nas cenografias, Nina considera que é possível reconhecer o trabalho de outros brasilienses de longe. "Identificamos traços fortes do modernismo e pós-modernismo nas peças e é possível notar uma brasilidade que é rebuscada, e, ao mesmo tempo, tropical", avalia.

A maioria dos cenógrafos são arquitetos, com alguns dos mais promissores do campo do design assinando projetos da Domingo Arquitetura & Design. Dimitri Lociks, Gustavo Goes e Simone Turíbio são autores do design de móveis da Linha Trama, que inclui bufê, bar e luminária fabricados pela Essenza, uma das maiores empresas no mercado nacional de decoração.

O resultado dessa parceria foi apresentado no mês de julho em uma das maiores feiras de mobiliário da América Latina, a Feira da Associação Brasileira de Móveis e Acessórios de Alta Decoração (Abimad), em São Paulo. Com Thiago Lucas, Nina Coimbra e outros colegas, os sócios da Domingo criaram o coletivo Entre Eixos, que reúne designers e arquitetos locais para aumentar a visibilidade de Brasília no mercado nacional de móveis, cenografia e arquitetura.

Arquiteto, Gustavo Goes diz que não há tanta diferença entre desenhar um móvel ou um prédio. "Há o mesmo sistema de força. A arquitetura é o jogo contra a gravidade. Muitos arquitetos não projetam realmente espaços, apenas elencam móveis", diz. Enquanto ele e a também arquiteta Simone Turíbio enxergam primeiro o espaço e depois o objeto, o designer Dimitri Lociks faz o caminho inverso.

"Apesar disso, o trabalho é ombro a ombro, e todas as criações são coletivas. Há sinergia que nos permite trabalhar simultaneamente espaço e objeto, como se fosse uma coisa só", conta Dimitri. A empresa oferece aos clientes uma "experiência sensorial completa", de acordo com os sócios. Vai desde o projeto arquitetônico e móveis até os uniformes dos funcionários.

A cenografia nunca fica fora desse contexto, de acordo com Simone. Um exemplo é o 22 Gym Box, box de crossfit no Meliá Brasil 21: "A ideia é revolucionária não só aqui, como no mundo. Fizemos uma automação de luzes que se movem e pulsam conforme o ritmo do treino. A banda Pearl Jam disse que nunca viu nada parecido e também recebemos elogios do time do Flamengo, que ficou surpreso com a infraestrutura. O jogo de luz e sombra está presente também nos móveis."
 (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)

Segundo Gustavo Goes, a concepção do projeto da 22 Gym Box se baseou na experiência do usuário do espaço. Por isso, além de vasta pesquisa nas artes plásticas, a equipe precisou estudar a dinâmica e fisiologia do corpo e mente humanos. "Quando você muda a cor do ambiente, altera a abertura da pupila e passa a sensação de que o usuário está em outro local. Percebemos que a mudança de percepção faz com que as pessoas não se cansem de frequentar a academia", diz.

O corpo também é o que move Phillip James Fiuza Lima, autor da Bambu Bike, uma bicicleta confeccionada com bambu pensada especialmente para usuários entre 3 e 7 anos de idade. "A bicicleta  para adultos se ajusta ao tamanho da pessoa, que pode ter de 1,20 m a 2 m", explica o idealizador. A Bambubini, feita para crianças, custa cerca de 650 reais. O protótipo da versão adulta está ainda em estudos.

O modelo, segundo Phillip, adapta-se bem a realidades de qualquer parte do mundo. "O importante é não pensar apenas em um modal, mas intermodalidade com outras formas de transporte público e particular. As bicicletas são feitas para todas as crianças, de qualquer cidade, e pessoas que possam tornar o mundo mais humano. Por isso, o projeto inclui trabalho social para ajudar as pessoas a terem mais conhecimento e empreendedorismo", afirma.
 (Bruno Pimentel/Esp. Encontro/DA Press)
 
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EDIÇÃO 59 | novembro de 2017