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DEZ PERGUNTAS PARA | Cacai Nunes »

Embaixador do forró

Um dos produtores culturais que mais difunde a cultura nordestina em Brasília, Cacai Nunes mostra a potencialidade dos projetos de que está à frente

Sara Campos - Publicação:30/08/2016 13:41Atualização:30/08/2016 13:55
'As passagens subterrâneas são espaços que têm um estigma que não pertence a elas. A cidade pulsa lá dentro. Há muito sorriso, suor e muita alegria. É de lavar a alma' (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
"As passagens subterrâneas são espaços que têm um estigma que não pertence a elas. A cidade pulsa lá dentro. Há muito sorriso, suor e muita alegria. É de lavar a alma"
Nascido em 17 de agosto de 1978, no Recife, Carlos Eduardo Nunes Pinheiro é um dos grandes responsáveis por difundir a cultura nordestina na capital do país. Criador do Forró de Vitrola, projeto itinerante que divulga nomes esquecidos do ritmo, ele marca presença pelas ruas de Brasília com uma Kombi 1973 – década de ouro do forró nas rádios e TVs brasileiras. Apresentador do programa Acervo Origens, na rádio Cultura FM, ele mostra aos brasilienses discos recheados de brasilidade e revela às novas gerações as preciosidades que narram a história de um povo esquecido.

ENCONTRO: Quando começou sua paixão pelo forró e pelos vinis?
CACAI NUNES: Começou no fim dos anos 1990, quando montei o Trio Perfumado e passei a frequentar constantemente os forrós que aconteciam no Don Taco e no Gate’s Pub. Em 2005 montei com amigos o Lorota Boa, que tocava no evento de mesmo nome no Bar do Calaf. Nesse tempo, comecei a adquirir boa parte dos discos que tenho em função da morte de Oscar Rodrigues, um entusiasta do forró pé de serra. Sua coleção ficou à disposição numa loja que frequento muito e não teve jeito. Gastei muito dinheiro lá, mas consegui comprar um belíssimo acervo, principalmente de forró. Hoje, minha coleção está perto de 3 mil títulos. Não me preocupo muito com quantidade, mas sim com o conteúdo que está lá.

E: Quais desafios você enfrenta para tornar a festa Forró de Vitrola possível?
CN: Faço algumas ações gratuitas durante o ano para atrair público para o ritmo, como uma estratégia. Fazer o Forró de Vitrola tem sido uma das minhas maiores satisfações nos últimos anos, porque trabalho um conteúdo muito relegado na cultura brasileira. Quem está envolvido com o forró percebe que, ultimamente, ele tem tido mais espaços em todas as mídias, mas ainda não é o que merece. Mostrar as tradições, os registros históricos, os autores, os intérpretes e as capas dos discos é de uma importância sem fim para quem quer se aprofundar dentro nesse universo.

E: Como surgiu a ideia de tocar forró em passagens subterrâneas?
CN: Sempre quis ocupar lugares inusitados para mostrar o potencial deles, e nada melhor do que fazer isso com boa música e dança. Ainda mais sabendo que Brasília não tem espaço cultural decente, e entra governo e sai governo as promessas ficam para a história... das campanhas políticas, claro. As passagens subterrâneas são espaços que têm um estigma que não pertence a elas. É o povo que não sabe usar, os inconsequentes governos que as abandonaram nas gestões. Felizmente fazemos nossa parte e levamos um pouco de sentimento para elas. A cidade pulsa lá dentro. Há muito sorriso, muito suor e muita alegria. É de lavar a alma.

E: Quais nomes do forró são menos conhecidos pelo público e que você faz questão de discotecar nas festas?
CN: Ary Lobo, um paraense que interpreta muito bem a música nordestina; Zito Borborema, paraibano que formou o primeiro Trio Nordestino com Dominguinhos nos anos 1950; Jacinto Silva, cantor e compositor alagoano que segue a escola de Jackson do Pandeiro na maneira de interpretar e dividir o ritmo no gogó; Marinalva, irmã de Marinês, a Rainha do Xaxado; Coronel Narcizinho, importante produtor e radialista piauiense, e até os primeiros registros do Trio Siridó, grupo estabelecido no DF e que, nos anos 1980 e 1990, gravou discos muito bons para dançar.

'A Kombi associada ao repertório tem aberto muitas portas' (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
"A Kombi associada ao repertório tem aberto muitas portas"
E: Como é montado o seu acervo? O que o impulsionou a disponibilizá-lo em formato digital?
CN: Ele está todo organizado em ordem alfabética, etiquetado, cadastrado em planilha e vem sendo, gradativamente, digitalizado com fotos da capa, contracapa, selos e áudio completo. Tenho muita coisa de forró, que é meu maior vício, mas tenho comprado muito disco de choro, samba, música caipira, música de terreiros e tudo aquilo que remete à essência de nosso povo e nossas tradições. Acho que mais pessoas têm o direito de ter acesso a esse material. Seria muito egoísmo ter esse material todo e não disponibilizá-lo. Faço isso basicamente de três formas: discotecando nos bailes do Forró de Vitrola, que de vez em quando, eu gravo e coloco à disposição na internet; no Programa Acervo Origens, na Rádio Nacional, aos sábados, às 19h, e no site acervoorigens.com, no qual é possível baixar LPs completos, ouvir os programas e baixar alguns outros conteúdos desse acervo.

E: Desde o ano passado, o projeto Forró de Vitrola ganhou uma Kombi. Quais são as facilidades de um trabalho itinerante?
CN: Além do impacto visual que ela proporciona, procurei agregar valor a esse conteúdo dos discos, trazendo um elemento da mesma época deles. Comprei essa Kombi 1973, que parecia uma sucata, completamente podre. Depois de mais de um ano de reforma, coloquei para rodar. É muito mais prático fazer nossas ações com ela, pois todo o equipamento fica lá dentro e não preciso carregar e descarregar, já que uso equipamentos muito pesados. Realmente, foi um alívio nesse sentido. Onde a Kombi estaciona, chama a atenção. Costumo dizer que agora ela é o grande barato do forró. Eu sou apenas um detalhe ali na discotecagem.

E: Esse formato tem alcançado novos públicos?
CN: Sim, tenho feito muitas festas particulares e em locais em que nunca imaginava chegar com esse meu repertório. A Kombi associada ao repertório tem aberto muitas portas. E que abra mais! Enquanto eu puder dirigi-la, vou levar o forró junto.

E: Como você enxerga a relação da nova geração de brasilienses com o forró?
CN: É incrível como tem gente nova passando a frequentar o forró. É um gênero musical muito agregador. Nele, você passa a conhecer as pessoas só por dançar. Quantos casais novos já se formaram nos bailes da cidade? Quantos novos trios e grupos já surgiram nesses anos? Os trios de fora que vêm tocar em Brasília saem encantados com a receptividade do público. É um diferencial nosso.

E: O que os entusiastas do ritmo podem esperar para o próximo semestre?
CN: Queremos fazer uma edição do Forró de Vitrola no Conic, afirmando o Setor de Diversões Sul como um potencial espaço cultural da cidade. Tenho vontade de fazer um baile gratuito em Ceilândia, cidade com um povo acolhedor e que recebe com carinho a música nordestina. E em setembro ou outubro vai rolar mais uma edição Pé de Passagem, na passagem subterrânea da 111/211 Norte. Vou aproveitar ao máximo a época da seca para andar por aí com a Kombi recheada de discos, colocando todo mundo para dançar.

E: Você passou a infância no Plano Piloto e mudou-se para uma chácara em Sobradinho. Quando e por que tomou essa decisão?
CN: Esse já era um desejo bem antigo. Confesso que, frequentando a cidade ultimamente, percebo o quanto isso me fez bem. O clima em Brasília hoje é muito denso, caótico e com muita competitividade. Na área rural, a monotonia é criativa, contemplativa. Tudo isso me envolve muito. O silêncio é inspirador. Mas, apesar de estar enfiado na roça, ainda dependo da cidade para realizar meus trabalhos, mesmo conseguindo fazer muita coisa de casa. Tento conciliar as idas à cidade para resolver as coisas pontuais e voltar logo, até para fugir do trânsito que nos persegue. Além das minhas atividades profissionais, tenho outros hobbies: planto hortaliças, crio minhas galinhas e vasculho o cerrado, que é tão forte e presente nessa área. Fui para a chácara em 2012 e uni o útil ao agradável, pois sempre tive vontade de ter uma propriedade rural.
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EDIÇÃO 59 | novembro de 2017