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COLUNA | Nas telas »

O limite do erro

José João Ribeiro - Colunistas Publicação:31/08/2016 10:05
Semanas atrás na Comic-Con, a celebração anual do universo nerd, do qual Hollywood, sabiamente, tomou posse, parecia que na briga entre a DC/Warner e a Marvel/Disney, a primeira, finalmente, levaria a melhor nas futuras estreias. Só parecia. Esquadrão Suicida, do diretor David Ayer, que atiçou os fãs com trailers muito bem editados, foi uma ducha de água fria. A ideia, que parecia genial, de reunir os vilões de vários quadrinhos, sobretudo do Batman, começa e termina sem a identidade anárquica que prometia.

Seria algo novo, no já saturado gênero dos super-heróis, a formação de um grupo série B, com anti-heróis, todos saídos de penitenciárias e sanatórios para uma missão de fazer o bem com o controle do governo norte-americano. Inevitável não comparar com o delicioso Deadpool, produto da Marvel, que surpreendeu a crítica no início do ano. A concorrente DC Comics teria a chance de explorar uma franquia mais adulta, subversiva, com piadas e enredos mais livres dos padrões de censura, que mutilam essas produções. Mas o humor não acontece. Nada tem graça. Esquadrão Suicida soa forçado demais e o combustível do absurdo/bizarro não é devidamente usado nas mais de duas horas de projeção.

Os desacertos de Batman VS Superman, que acaba de ser lançado em blu-ray em versão bem mais interessante, com quase 40 minutos extras, poderiam ter sido a luz amarela para os produtores de Esquadrão. De nada adiantou. A DC/Warner parece se preocupar apenas com a renda, que de fato não decepciona, quebrando recordes de arrecadação para o mês de agosto. Porém, em longo prazo, o resultado pode perder até esse efeito. O público poderá começar a associar a marca como a que sempre sucumbe perante a excelência da Marvel, condenando o Homem de Aço, o Batman e a Mulher Maravilha a desaparecerem das telonas.
O combustível do absurdo/bizarro não é devidamente usado em Esquadrão Suicida: barulho e propaganda não seguram uma saga (Divulgação)
O combustível do absurdo/bizarro não é devidamente usado em Esquadrão Suicida: barulho e propaganda não seguram uma saga

O elenco, repleto de cobras, não foge da decepção. Will Smith e Joel Kinnaman (surpresa da última temporada de House of Cards) somente rosnam nos papéis mais importantes, não saindo no braço, como toda sequência insinua que irá acontecer. Outra protagonista, a excepcional Viola Davis parece perdida na superprodução. O vilão Coringa de Jared Leto tinha tudo para ressurgir apoteótico, após a inesquecível interpretação de Heath Ledger, no segundo Cavaleiro das Trevas, de Christopher Nolan. O novo Coringa, no entanto, não passa de uma figura estranha, exagerada na caracterização, que não assusta, nem passa a impressão de obrigatória psicopatia, herança do anterior.

Na grande vilã de Cara Delevingne fica a conclusão do erro. Como entregar uma personagem tão importante a uma atriz nitidamente fraca e sem expressão? O fôlego de tanto equívoco, sem dúvidas, é a Arlequina de Margot Robbie, que soube entender o clima pinel e mergulha de cabeça na proposta. Acerto de Martin Scorsese, que a revelou em O Lobo de Wall Street.

As notícias recentes dão a entender que a DC/Warner já compreendeu que barulho e propaganda não seguram uma saga. Ben Affleck assumindo totalmente a produção do novo Batman, para bom entendedor, reflete o nervosismo do estúdio. Com trama medonha e estúpida, Esquadrão Suicida é o limite do erro.
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EDIÇÃO 57 | Setembro de 2017