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PERFIL | Rico Malvar »

O caminho até chegar ao comando

O cientista-chefe da Microsoft, Rico Malvar, é cria da Universidade de Brasília. Lá ele se graduou, deu aulas por 15 anos, fez grandes amigos e se tornou inspiração para colegas e alunos da instituição

Glauciene Lara - Publicação:31/08/2016 13:27Atualização:01/09/2016 09:39
Responsável por conectar os 12 laboratórios de pesquisa da Microsoft no mundo, Rico Malvar diz que aplicar o conhecimento para melhorar a vida das pessoas é o que mais o motiva no trabalho (Marcelo Jatobá/ Agência UnB)
Responsável por conectar os 12 laboratórios de pesquisa da Microsoft no mundo, Rico Malvar diz que aplicar o conhecimento para melhorar a vida das pessoas é o que mais o motiva no trabalho
Se você assiste a vídeos pelo Youtube ou Netflix, envia imagens e áudios pelo celular, saiba que toda essa tecnologia tem a participação de um brasileiro que há mais de 20 anos, no tempo do celular-tijolo, já imaginava os aparelhos multimídia. Ele é Henrique Sarmento Malvar, cientista-chefe da Microsoft, mais conhecido como Rico Malvar – já que o apelido é mais fácil de se pronunciar em outras línguas.

Pode-se dizer que, aos 58 anos, Rico é reconhecido como um gênio brasileiro que pouca gente conhece em seu país de origem. Ele tem 119 patentes nos Estados Unidos e mais de 160 artigos científicos publicados. É membro da Academia Norte-Americana de Engenharia, mais alto reconhecimento que um engenheiro pode receber no país. Sediado no campus da Microsoft em Redmond (EUA), próximo a Seattle, o brasileiro é responsável por conectar os 12 laboratórios de pesquisa da empresa no mundo e por escolher os projetos nos quais a companhia vai investir (hoje, são 18 áreas).

Para citar alguns exemplos, sob o comando dele saiu o JPEG XR, uma evolução do JPEG, com melhor resolução de imagem; o Skype Translator, que faz tradução simultânea nas chamadas pelo software, disponível para download em português brasileiro desde dezembro do ano passado; e o Hololens, óculos que permitem ver uma imagem 3D sem a necessidade de uma tela. Em entrevista a Encontro Brasília, pelo Skype, Rico contou que atualmente a Microsoft testa, com a colaboração de instituições sociais norte-americanas, um programa para que tetraplégicos e pessoas que sofrem de esclerose usem o computador apenas com o movimento dos olhos. A proposta é fazer a distribuição gratuita dessa tecnologia, que é semelhante à usada por Stephen Hawking, mostrada no filme A Teoria de Tudo.

Sempre em contato com estudantes e pessoas de diferentes locais: estar próximo à comunidade acadêmica ajuda a acompanhar as tendências, de acordo com Malvar (Marcelo Jatobá/ Agência UnB)
Sempre em contato com estudantes e pessoas de diferentes locais: estar próximo à comunidade acadêmica ajuda a acompanhar as tendências, de acordo com Malvar
Malvar descobriu que queria ser engenheiro aos 8 anos de idade, quando ganhou do pai um kit com peças de eletrônica. “Eu adorei o negócio. Gostava de montar e desmontar coisas. Meu pai percebeu isso e me apoiou”, conta. Aos 11 anos, o carioca se mudou para a capital federal, cidade onde viveu por mais tempo até hoje: mais de 20 anos. Na época, os pais, Henrique Tafuri Malvar e Gilséa Sarmento Malvar, professores universitários, foram convidados a criar o Departamento de Estatística da Universidade de Brasília (UnB). Rico se formou em engenharia elétrica na mesma universidade e se lembra de montar e desmontar tudo o que podia, emendando um comentário feito pelo pai: “Não dá para ter nessa casa um equipamento que dure seis meses?”, ri. E conta que até hoje é assim, com os 12 computadores que tem em casa.

Aos 22 anos, em apenas oito meses, terminou o mestrado no Coppe, famoso centro de pesquisa em tecnologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro. De volta à UnB, tornou-se professor. Fez o doutorado no Massachusetts Institute of Technology (MIT) e, em 1987, fundou o Grupo de Processamento Digital de Sinais da UnB (GPDS), embrião dos trabalhos que desenvolveu na área de multimídia. Atualmente, o laboratório é coordenado pelos professores Francisco Assis e Ricardo de Queiroz. O primeiro foi aluno de Rico e o segundo trabalhou com ele. Hoje, são amigos com admiração mútua. “Ele sempre foi destaque em todo lugar por onde passou, não só pelo conhecimento que possui. Ele também é bom em lidar com pessoas”, diz Queiroz. Assis conta que nunca conheceu um professor que tivesse um conhecimento tão profundo em tantas áreas diferentes como Malvar.

Sobrinha de Rico, Sara Malvar tem apenas 23 anos, grandes prêmios no currículo e carreira acadêmica promissora: seguindo os passos do tio, ela se dedica às pesquisas (Arquivo Pessoal)
Sobrinha de Rico, Sara Malvar tem apenas 23 anos, grandes prêmios no currículo e carreira acadêmica promissora: seguindo os passos do tio, ela se dedica às pesquisas
Rico foi o primeiro ganhador do Prêmio Jovem Cientista, em 1981, promovido até hoje pelo CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico). Ele não se considera um gênio e diz isso sem falsa modéstia: “Inteligência tem mais a ver com como usamos do que com o que temos. Não é nascer inteligente e pronto. Se você consegue entender as coisas razoavelmente bem, tem certa responsabilidade social em usar isso de alguma forma”, afirma. Aplicar o conhecimento para melhorar a vida das pessoas é o que mais o motiva no trabalho que, para ele, é também uma diversão. “Tenho sorte de poder combinar as duas coisas”, diz o cientista, que se considera nerd, com orgulho.

A mudança em definitivo para os Estados Unidos aconteceu em meados da década de 1990, após a abertura do país à tecnologia estrangeira, durante o Governo Collor. Nessa época, as empresas brasileiras viveram um momento difícil, por falta de condições de competição, e muitos engenheiros saíram do Brasil. Após quase 15 anos na UnB, Malvar decidiu, com a mulher, que a mudança também seria uma boa experiência para os dois filhos. Foi trabalhar com amigos que conheceu no MIT, na PictureTel, posteriormente adquirida pela Polycom. “Vi que a empresa dava a oportunidade de fazer uma pesquisa bastante avançada e com impacto real”, conta.

Malvar entrou na Microsoft por um gesto ousado: recomendou ao dono da empresa, Bill Gates, que investisse em multimídia. “O Henrique disse ao Bill Gates que o computador e depois o telefone iriam agregar todas as coisas e que ele precisava investir nisso”, conta o professor Francisco Assis. Bill Gates, então, o levou para a empresa onde trabalha há quase 20 anos. Malvar se tornou uma das pessoas mais influentes em tecnologia no mundo. “Um superastro internacional da ciência”, de acordo com Assis.

Com a a sobrinha Sara, a irmã Helena e o cunhado Roberto Mauá: quando está em Brasília, Rico faz questão de encontrar tempo para ir com a família a restaurantes  (Arquivo pessoal)
Com a a sobrinha Sara, a irmã Helena e o cunhado Roberto Mauá: quando está em Brasília, Rico faz questão de encontrar tempo para ir com a família a restaurantes
Rico Malvar confessa que não é fácil estar sempre um ou mais passos à frente nas pesquisas, diante da velocidade com que a tecnologia evolui. “Temos de arriscar e é assim mesmo: a maioria dos projetos dá errado, mas um ou outro dá certo”, brinca. Segundo ele, estar em contato com a comunidade acadêmica ajuda a acompanhar as tendências. Com o objetivo de manter esse vínculo, Rico é professor afiliado da Universidade de Washington, onde não recebe salário, prática comum entre pesquisadores da Microsoft. “O contato com os estudantes é muito legal. Só agora, no estágio de verão, por exemplo, nosso laboratório em Redmond tem entre 300 e 400 estagiários”, conta.

Ele também gosta de acompanhar a Imagine Cup, um evento anual que a empresa realiza para estudantes do mundo todo, que competem na criação de aplicativos capazes de mudar a rotina das pessoas. Na edição deste ano, em julho, a equipe de brasileiros da PUC Minas ficou em terceiro lugar na categoria games, com o jogo Sonho de Jequi, inspirado na vida de personagens do Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais.

Nada de sedentarismo: apesar da rotina
de viagens, Rico encontra tempo para 
corridas diárias pelos parques de Redmond (Arquivo Pessoal)
Nada de sedentarismo: apesar da rotina
de viagens, Rico encontra tempo para
corridas diárias pelos parques de Redmond
O cientista também diz ser fundamental estar em contato com pessoas de diferentes locais, motivo pelo qual a Microsoft mantém laboratórios espalhados pelo mundo. “Esse é um modelo em que investimos bastante. Um projeto começa de uma ideia local e acaba gerando tecnologias de aplicação global. A diversidade ajuda a pensar de forma mais ampla”, explica. Ele reconhece que fazer pesquisa é caro e o retorno pode levar anos, mas defende que, apesar da crise econômica, o Brasil mantenha e até aumente seus investimentos nessa área, se quiser ser mais competitivo no cenário internacional. “Se em 10 projetos um der certo, está bom. Às vezes, não se consegue nem 10% de sucesso, mas os que derem certo podem ter o retorno financeiro que compensa os que deram errado. Vale a pena.”

Para se ter uma ideia, o orçamento do Ministério de Ciência e Tecnologia para este ano é de 9,8 bilhões de reais. A cada ano, a Microsoft sozinha investe pelo menos três vezes mais do que o Brasil: em média, 11 bilhões de dólares, o que corresponde a 10% do faturamento bruto da empresa.
 
 
 
Como cientista-chefe de uma das maiores empresas de tecnologia do mundo, a rotina de Rico Malvar é de muitas viagens. Mas ele encontra tempo para corridas diárias pelos parques de Redmond, para fazer trilhas com a mulher aos fins de semana e acompanhar as corridas de Fórmula 1, que ele adora. Enquanto estava na faculdade, ele tinha um grupo de corrida de kart semiprofissional com os colegas, hábito bem brasiliense.

A Brasília, ele costuma vir duas vezes por ano, para visitar a família, dar palestras e encontrar-se com autoridades do governo brasileiro. Gosta de ir à Feira da Torre e a restaurantes na beira do lago. Também adora comer o quindim e o bolo de banana feitos pela irmã, Helena, professora de gastronomia e consultora no SENAI Taguatinga.

 (Cristiano Costa/ Divulgação)
No ano passado, fez questão de vir à banca de mestrado da sobrinha, Sara Malvar, engenheira de carreira acadêmica promissora, já com dois prêmios no currículo. Sara confirma que vem seguindo os passos do tio Henrique, que é um grande exemplo para ela. Também se inspira em outros familiares: “Nossa família não é mais inteligente que as outras, mas é muito dedicada, acho que por criação. Meus avós, meu tio e minha mãe são pessoas que se dedicaram muito a um bem maior que é a produção de conhecimento e o ensino”. A mãe, Helena, conta que, desde criança, Sara gostava de brincar de Lego e “montava coisas maravilhosas”. Aos 16 anos, foi aprovada na UnB para o curso de engenharia elétrica. “Na dúvida sobre qual engenharia fazer, escolhi elétrica justamente porque meu tio fez esse curso. Gosto de entender como as coisas funcionam, de fazer pesquisa e de criar novidades”, conta. O mestrado foi na mecânica, também na UnB, e em 2016, aos 23 anos, entrou no doutorado na USP (Universidade de São Paulo), que pretende concluir em apenas três anos. E engana-se quem pensa que ela vive só no laboratório de pesquisa.

No momento, Sara estuda o movimento de microrganismos vivos chamados nematoides e seu efeito nos fluidos, assunto novo no Brasil e iniciado por um professor da Universidade da Pensilvânia (EUA), onde ela pretende passar uma temporada no fim do ano. Uma das aplicações práticas possíveis da pesquisa é reduzir os efeitos colaterais de medicamentos no tratamento de doenças como o câncer. A pesquisadora explica que, ao injetar um remédio nesses nematoides, que, segundo ela, são inofensivos para os seres humanos, eles poderiam viajar pela corrente sanguínea e, por meio de microchips, liberar a substância apenas no local infectado. “Sempre tive muita vontade de deixar uma contribuição para a humanidade”, confessa. Nesse ritmo, o mundo ainda verá muitas contribuições da família Malvar.
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EDIÇÃO 59 | novembro de 2017