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PERFIL | Ensinoz »

Brasília com sotaque francês

Aliança Francesa, que tem quase 60 anos de história na cidade, inaugura mais duas unidades e amplia a sede da 708 Sul, que em breve vai ganhar um bistrô

Teresa Mello - Publicação:01/09/2016 09:20
O segundo semestre vem carregado de novidades para a tradicional Aliança Francesa de Brasília. A instituição, cuja pedra fundamental foi inaugurada pelo então presidente Juscelino Kubitschek em 1959, abre unidades em Águas Claras e no Lago Sul. A sede, na 708 Sul, recebe nova diretora e ainda o bistrô Le Jardin, com cardápio a cargo do chef francês Lionel Ortega.
Fachada da Aliança Francesa de Brasília: escola foi fundada por JK antes mesmo da inauguração (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
Fachada da Aliança Francesa de Brasília: escola foi fundada por JK antes mesmo da inauguração

Pelos três blocos do prédio, circulam 1.349 alunos e 31 professores, divididos em níveis que vão do iniciante a classes de conversação, de filosofia, de história, de literatura e de tradução francesas. Em Águas Claras, 10 novas turmas funcionarão na avenida Araucárias e, no Lago Sul, cinco turmas dentro do Liceu François Mitterrand. Existe também uma filial na Quadra 301 do Sudoeste. "Nós expandimos para Águas Claras porque a parte jovem de Brasília está lá", justifica o presidente Amaury José de Aquino Carvalho, de 85 anos. "A capital do país tem uma população mais intelectualizada e a cultura francesa merece ser transmitida aos brasilienses", diz.
O presidente da Aliança Francesa de Brasília, Amaury Carvalho, na nova unidade de Águas Claras: área mais jovem da capital foi especialmente escolhida pela instituição (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
O presidente da Aliança Francesa de Brasília, Amaury Carvalho, na nova unidade de Águas Claras: área mais jovem da capital foi especialmente escolhida pela instituição

Língua oficial em 25 países, o francês é o segundo idioma em outras cinco nações. A primeira Aliança Francesa no mundo foi inaugurada em 1883, em Paris, e no Rio de Janeiro, dois anos depois. Hoje, o Brasil tem 39 unidades, 500 professores e 35 mil alunos. Desde 2010, a entidade mantém convênio com a Secretaria de Educação do Distrito Federal e oferece bolsas de estudos a alunos da rede pública.

Um deles foi Vinicius Sena de Lima, de 35 anos, que frequentou o local durante 14 anos como aluno e outros dois lecionando. "Eu me encantei com a língua francesa, tive um ensino de alta qualidade e sem custos, e depois fui colega dos meus professores", conta. "Sinto muita saudade de lá", completa. Durante o curso de psicologia na Universidade de Brasília (UnB), ele também foi bolsista e continuou se aperfeiçoando. "A língua francesa é fundamental no meu estudo acadêmico e no intercâmbio de ideias", afirma.

Érica Cirino, de 31 anos, fez ciência política na UnB e mestrado no Canadá. Estudou na Aliança, onde dá aulas há cinco anos. "Sou colega do meu primeiro professor aqui", diz ela. "É a realização de um sonho." Mineira de Uberaba, a mestre conquistou alunos fiéis. No intensivo de julho, as quase três horas diárias de aula significavam aprendizado com diversão para Isabela, Roberta e Erismar, que estudam juntos há dois anos com a mesma professora. Com a cantina em reforma, o pessoal levava cappuccino e bolo de casa para o lanche em sala de aula.
A mineira Érica Cirino, que estudou na Aliança e é professora há cinco anos na instituição: 'Sou colega do meu primeiro professor aqui' (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
A mineira Érica Cirino, que estudou na Aliança e é professora há cinco anos na instituição: "Sou colega do meu primeiro professor aqui"

"O francês é o nosso momento lúdico, em que fazemos amigos e voltamos a ser criança", descreve a procuradora do Distrito Federal Roberta Fragoso, de 37 anos. Filho de mãe francesa, mas no Brasil desde pequena, o servidor público Erismar Freitas, de 32 anos, brinca: "Acho que sei mais francês do que minha mãe". A também servidora Isabela Andrade, de 37 anos, completa: "Meu sonho é fazer um curso de gastronomia na França". A professora Érica motiva a turma por meio de vídeos, recursos multimídia, teatrinho. O resultado é imediato. E o carinho também: "Eles se divertem, é uma injeção de ânimo", diz ela.
Isabela Santiago, Erismar Freitas e Roberta Fragoso, colegas de Aliança há dois anos: 'O francês é o nosso momento lúdico, em que fazemos amigos e voltamos a ser criança', diz Roberta (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
Isabela Santiago, Erismar Freitas e Roberta Fragoso, colegas de Aliança há dois anos: "O francês é o nosso momento lúdico, em que fazemos amigos e voltamos a ser criança", diz Roberta

A também professora Valérie Deneux, de 42 anos, nasceu na Normandia (região Norte da França) e está no Brasil há 15 anos, seis deles na Aliança. "Minhas raízes procuraram um lugar onde eu me sentisse em casa", conta. Casada com um brasileiro e mãe de Diego, de 2 anos e meio, ela afirma que "veste a camisa da escola com muito orgulho". A mesma sensação tem o coordenador pedagógico da entidade, o francês Guillaume Perche, de 32 anos, natural de Vendôme, na região central do país: "Eu fui acolhido em Brasília e aqui tenho a minha segunda família, que é o grupo de professores". Formado em letras/espanhol pela Sorbonne, fez mestrado em ciências sociais na UnB. Sobre a especialização do quadro docente, declara que eles não fecham as portas para quem não tiver formação acadêmica. Bom mesmo para ele é o prazer de ver muita gente com interesse pela cultura francesa.
O francês Guillaume Perche é coordenador pedagógico da entidade: 'Eu fui acolhido em Brasília e aqui tenho a minha segunda família, que é o grupo de professores' (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
O francês Guillaume Perche é coordenador pedagógico da entidade: "Eu fui acolhido em Brasília e aqui tenho a minha segunda família, que é o grupo de professores"

A vertente cultural da instituição se encarrega de difundir eventos tradicionais: a Semana da Francofonia, em março, da qual participam 50 países em Brasília; a Semana da Europa, em maio; o Festival Varilux de Cinema Francês, em junho, em todo o Brasil; o Goût de France, jantar mundial celebrado por chefs na primavera (no Brasil, em março); e o Festival da Canção Francesa, em 21 de outubro.

O JARDIM E O BISTRÔ
Os quase 2 mil m² da sede abrigam o auditório Françoise Valière, em homenagem a uma ex-diretora, a mediateca, o futuro bistrô e um magnífico jardim, onde florescem ramos de lavanda, segundo a secretária-geral Luzirene Santos, de 53 anos, 22 deles na Aliança. "Foi a madame que comprou", diz Sebastião Eustáquio da Silva, de 44 anos, referindo-se à última diretora, Elisabeth Ranedo. O jardineiro de Araguari (MG) trabalha há seis anos no local e conhece cada planta, cada passarinho: "De manhã, vem canarinho azul e preto, canarinho preto e amarelo e muito sabiá". Há pé de jambo, cedro, samambaia-gigante, espada-de-são-jorge-dourada, azaleia. Dois troncos de buganvília entrelaçam flores de dois tons, rosa e laranja. "Isso aqui é uma chácara", define Sebastião.

Em meio às árvores está o futuro bistrô Le Jardin, administrado por Paul Sepanik e com cardápio elaborado por Lionel Ortega, chef de cozinha do embaixador do Canadá. "Vamos ter pratos variados no almoço, jantar e também pães, quiches, saladas e sanduíches, como o coq monsieur", enumera Ortega, de 41 anos, que trabalhou no restaurante Clos de la Violette, em Aix-de-Provence, na França. "Minha mulher é brasileira, fazia doutorado, e eu voltei na mala", brinca ele, há cinco anos no Brasil.
O chef do Le Jardin, Lionel Ortega, e Paulo Spanik, da Aliança: bistrô terá pratos variados no almoço e jantar (André Violatti/Esp. Encontro/DA Press)
O chef do Le Jardin, Lionel Ortega, e Paulo Spanik, da Aliança: bistrô terá pratos variados no almoço e jantar

A mediateca, com acervo de 12.912 livros, CDs, DVDs e HQs, também fica em frente ao jardim. "Temos acesso a computadores, tablets, emissora TV5, jogos e sites de exercícios", explica Robson Adriano de Paula. Aos 47 anos, está há 25 na Aliança. "Estudei 12 anos aqui, fiz todos os cursos que tinha." Em 2015, teve oportunidade de estagiar em mediatecas na França e voltou impressionado com a interação do espaço com os moradores.
Ex- aluno e funcionário há 25 anos, Robson de Paula coordena a mediateca, com acervo de mais de 12 mil itens: acesso a computadores, tablets, emissora TV5, jogos e sites de exercícios (André Violatti/Esp. Encontro/DA Press)
Ex- aluno e funcionário há 25 anos, Robson de Paula coordena a mediateca, com acervo de mais de 12 mil itens: acesso a computadores, tablets, emissora TV5, jogos e sites de exercícios

Na Asa Sul, os destaques são os romances clássicos da literatura francesa, como Balzac, peças de Molière, poesias, contos e ainda biografias de reis e personalidades da história. Além de receber alunos da instituição, Robson atende pessoas que desejam estudar o idioma fora do Brasil, em cursos que vão de uma a 12 semanas. Basta escolher a cidade: Bordeaux, Nice, Montpellier, Strasbourg, Vichy e Paris.

Na entrada da Aliança, há outro funcionário fiel, sempre atento aos carros e às pessoas. O brasiliense João Batista - ele diz que se chama Jean Baptiste - do Carmo, de 54 anos, fez um semestre de francês e lê diariamente um livro de francês para turistas. Há quanto tempo ele trabalha ali? "15 ans."
João Batista do Carmo, ou melhor, Jean Batiste, como ele diz, funcionário há 15 anos: um brasiliense apaixonado pela França (André Violatti/Esp. Encontro/DA Press)
João Batista do Carmo, ou melhor, Jean Batiste, como ele diz, funcionário há 15 anos: um brasiliense apaixonado pela França
 
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EDIÇÃO 57 | Setembro de 2017