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Apaixonados pelo besouro

O Fusca, modelo mais popular da história automobilística e que já encantou dois presidentes do Brasil, ainda é o grande amor de muitos motoristas brasilienses

Luciano Marques - Publicação:01/09/2016 10:31Atualização:01/09/2016 11:08
Na década de 1950, o Brasil havia deixado para trás as raízes rurais e o analfabetismo, e vivia um momento de entusiasmo por causa de um certo sorridente e jovial presidente da República: Juscelino Kubitschek. Ele apostava na industrialização e modernização dos transportes, alimentação e educação. E é nesse cenário que entra o carro mais popular que já existiu no planeta. Um automóvel que já foi tema de músicas, virou estrela de Hollywood e se tornou ícone pop. Estamos falando do Volkswagen Sedan, mais conhecido por aqui como Fusca, que recentemente fez 82 anos sem jamais sair de moda.

Aqueles eram outros tempos. As pessoas andavam de bonde, mal sabiam o que eram as escadas rolantes e o nosso futebol - ainda sem títulos -, padecia do complexo de vira-latas. Mas o incentivo dado às empresas estrangeiras para se instalarem aqui mudaram completamente essa cena, fazendo com que os brasileiros até mesmo alterassem suas casas, construindo uma garagem. Foi quando a montadora alemã começou a produzir em série Fuscas e Kombis, em 1959, em São Paulo. À beira da década de 1960, o brasileiro decidia dar um salto e ter seu transporte: tchau, bonde; oi, carro próprio!

O Volkswagen Sedan chegou por aqui no início da década de 1950, quando já era uma febre europeia há mais de uma década. Primeiro montado com peças importadas, depois, fabricado quase que totalmente com produtos nacionais. Nasceu para ser popular em todos os sentidos, especialmente no preço. A ideia era que todo alemão pudesse ter seu carro. E o mesmo aconteceu por aqui. Mas não só por causa do valor mais em conta. O design, que lembra um besouro, deixaria qualquer criança apaixonada por uma vida inteira.

"Meu pai era militar em 1969 e veio para Brasília transferido, com toda a família. Ele, minha mãe, eu e meu irmão chegamos aqui em um Fusca ano 1966", lembra Miguel Pinheiro. “Aconselharam meu pai a encarar a estrada com um carro mais robusto, afinal, quase não havia postos na estrada Rio-Brasília, quanto mais mecânicos de plantão. E o nosso fusquinha foi escolhido porque até um açougueiro conseguiria arrumá-lo caso desse defeito.”
Em 1969, Miguel Pinheiro chegou em Brasília com a família: a inesquecível viagem desde o Rio foi feita em um Fusca ano 1966 (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
Em 1969, Miguel Pinheiro chegou em Brasília com a família: a inesquecível viagem desde o Rio foi feita em um Fusca ano 1966

Miguel tinha apenas 9 anos e caiu de amores pelo Besouro, principalmente porque o pai e a mãe teriam vários outros modelos do carro. Aprendeu a dirigir em um deles, três anos depois (àquela época, isso era comum), e nem imaginaria que se tornaria um apaixonado por Fuscas quando adulto. "O meu xodó, hoje, é o Willber, um Volkswagen Sedan ano 1973. Um amigo praticamente me deu para ensinar minha filha a dirigir. Mas ela não se adaptou e o carro ficou comigo. Encantei-me pela originalidade, fui arrumando devagarinho e hoje ele é praticamente um membro da família. Todos o chamam carinhosamente de Willber", conta.

Há, realmente, uma aura de personalidade que envolve o modelo. O Volkswagen ("carro do povo" em alemão) era chamado aqui pelos montadores alemães de "VW" na década de 1950. O "Fau Vê" (as letras, em alemão) rapidamente virou "fulque" na boca dos brasileiros e ainda foi "fulca" antes de ganhar a definição que perduraria até hoje. Portanto, Fusca não é um nome de fábrica, é o apelido dado pelo povo. Em 1968, um carro em particular ganharia a grande tela no filme Se Meu Fusca Falasse. Herbie era um Volkswagen 1963 dotado de vida própria, inteligência, carisma e personalidade. Uma história que parece se repetir com aqueles que são apaixonados por Fusca.
 (Divulgação; Arte/Encontro)

Matilde "nasceu" em 1968, é branca e pertence a Marcelo Bressan. O publicitário não consegue enxergar um Fusca quando olha para "ela". "Todo aficionado por Fusca acaba colocando um nome no seu carro e, acredite ou não, ele ganha vida. Olho para ele e vejo uma pessoa", comenta. Como vários outros adolescentes das décadas de 1970 e 1980, Bressan aprendeu a dirigir num Besouro e a paixão brotou para nunca mais ir embora. "Eu já tive uns 15 Fuscas, mas depois que eu já estava casado, em 2005, consegui finalmente comprar o VW que eu queria, um 1968. Aí comecei a ir atrás das peças originais, que é uma das vertentes desse hobby." 
'Todo aficionado por Fusca acaba colocando um nome no seu carro e, acredite ou não, ele ganha vida', diz Marcelo Bressan, dono da Matilde (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
"Todo aficionado por Fusca acaba colocando um nome no seu carro e, acredite ou não, ele ganha vida", diz Marcelo Bressan, dono da Matilde

A paixão pelo carro mais popular do planeta pode surgir também de outro amor. Andrea Nalini começou a namorar Rodrigo Machado há cinco anos. O advogado convive com Fuscas desde pequeno, mesmo quando a família morava no México. "O primeiro Fusca que eu tive era lindo, prateado. Eu morava no Rio de Janeiro. Com três meses, roubaram. Depois tive um 1994, quando Itamar Franco resolveu reviver o modelo no país (a produção havia encerrado no Brasil em 1986 e retornou a pedido do presidente). Esse eu arrumei todo, vim para Brasília com ele e, infelizmente, roubaram também", conta Rodrigo. "Foi quando a Andrea me convenceu a ter um Fusca mais original. Um amigo me devia um serviço e acabou me dando o Fusca 1970 que eu tenho até hoje." Adivinha o que aconteceu? Foi roubado. Mas de um jeito menos traumático, pelo menos. "Quando ele pegou esse carro e não precisou pagar, eu o roubei", brinca Andrea, que viu a paixão reacender quando deu de cara com o Besouro setentão. Hoje, o "Meu Bebê", como ela o chama, é partilhado pelo casal. "Fico com ele mais que o Rodrigo, mas nós dois mexemos nele e vamos atrás das peças para deixá-lo o mais original possível. E um dia compro um Fusca conversível vermelho da década de 1970."
Andrea Nalini e Rodrigo Machado compartilham um Besouro setentão: a paixão pelo modelo se reacendeu quando ela deparou com o carro (André Violatti/Esp. Encontro/DA Press)
Andrea Nalini e Rodrigo Machado compartilham um Besouro setentão: a paixão pelo modelo se reacendeu quando ela deparou com o carro

Apesar de chamar a atenção de muitas crianças, há quem se apaixone pelo Fusca tardiamente. E por meios completamente inusitados. "Eu nem mesmo gostava de Fusca. Quando eu era pequeno, minha família tinha um Opala. Mas há 24 anos, quando eu estudava e tinha 28, meu pai me deu um VW como incentivo para concluir a faculdade", conta Humberto Coimbra. "O carro, um modelo 1965, estava no Rio de Janeiro e o conheci quando fui passar férias lá. Rodei com ele por uma semana e me apaixonei. Mas eu só fui autorizado a trazê-lo para Brasília seis anos depois, quando me formei em economia. Só então o Diploma, como meus amigos o apelidaram, pôde ficar comigo em definitivo."

Humberto já teve diversos carros, mas o Fusca virou sua grande paixão e acabou contagiando as gerações futuras. "Vi uma reportagem em que um senhor de 90 anos foi enterrado no seu Pontiac ano 1973. Se brincar, acontece o mesmo comigo. E vi que não vai parar por aí. Meu pai continua dando um automóvel para todo jovem da família que passa no vestibular. Um dia desses uma sobrinha ingressou na faculdade e adivinhem? Pediu um Fusca."
Humberto Coimbra ganhou o primeiro VW do pai como incentivo para concluir a faculdade: o carro então ganhou o apelido de diploma (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
Humberto Coimbra ganhou o primeiro VW do pai como incentivo para concluir a faculdade: o carro então ganhou o apelido de diploma

A combinação de baixo custo de aquisição e manutenção com uma resistência capaz de afrontar os caminhos e condições de uso mais difíceis tornou o Besouro o ponta de lança da motorização do Brasil. E enquanto aquele design único ia se tornando ícone da indústria automobilística e da cultura mundial, o "Pão de Queijo" ou a "Joaninha" (apelidos menos conhecidos) vendeu 30 milhões de unidades no planeta. Só por aqui foram mais de 3 milhões - até hoje ocupa a terceira colocação do veículo mais vendido no Brasil. Nenhum carro tem identidade tão forte quanto o Fusca, o modelo de automóvel cujos anos glamorosos parecem não ter fim. E se você duvida que esse clássico nunca sai de moda, vá ao Parque da Cidade no primeiro sábado de cada mês. A partir das 13h, no estacionamento 8, é possível entender por que Matilde, Willber e tantos outros Fuscas têm vida eterna e são adorados por quem passa por perto.
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EDIÇÃO 59 | novembro de 2017