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GASTRÔ | Estabelecimentos »

Muito além da boemia

Conheça bares da cidade que apostam em apresentações de suas identidades com um ponto em comum: a música como atração à parte

Sara Campos - Publicação:01/09/2016 13:27Atualização:01/09/2016 13:43
A Olhos de Águia, em Taguatinga Norte, além de galeria e bar, abriga diferentes ambientes: Morissm Cavalcante e o pai, Ivaldo Cavalcante, apostaram em sinuca e lounge com vinis da boemia (Raimundo Sampaio/ Esp. Encontro/ DA Press )
A Olhos de Águia, em Taguatinga Norte, além de galeria e bar, abriga diferentes ambientes: Morissm Cavalcante e o pai, Ivaldo Cavalcante, apostaram em sinuca e lounge com vinis da boemia
Com veia musical pulsante, Brasília imprime em suas opções de bares uma identidade cercada de sons. As casas temáticas que não pecam pela falta de personalidade têm ganhado um público cativo sedento por bebida gelada, petiscos saborosos e música de qualidade.

O apreço pelos gêneros jazz e blues impulsionou a dupla de amigos de adolescência Saulo Tavares e Moisés Almeida a abrir o restaurante Nola, novidade na Asa Norte. O endereço diminuto é inspirado na cidade de Nova Orleans: mundialmente conhecida por ser o berço do jazz. “Essa cidade é um dos endereços mais miscigenados dos Estados Unidos. Isso se reflete na culinária, com forte influência africana e francesa”, afirma o empresário Moisés.

A mistura de referências gastronômicas internacionais criou a vertente culinária cajun, também conhecida como creolé, e que despertou o interesse do chef Saulo Tavares. “Quando fui a Nova Orleans, a passeio, os temperos e o clima boêmio da cidade chamaram minha atenção”, lembra o cozinheiro, que prepara clássicos servidos no endereço como o arroz-jambalaya, considerado o carro-chefe da casa. A receita é composta por camarão, frango, linguiça-calabresa, bacon, molho ao sugo, abobrinha, pimenta-jamaicana e tomilho, e é uma das mais populares da região americana.

As casas de jazz espalhadas na cidade privilegiam os drinques autorais. No Nola, a coquetelaria ganha destaque com carta assinada pelo barman Jean Ponce, do restaurante paulistano D.O.M., de Alex Atala. A bebida, intitulada Nola Sour, leva bourbon, conhaque, suco de limão-siciliano e vinho tinto seco, e é uma adaptação do New York Sour.

A ampliação dos eventos de jazz entre o público brasiliense também incentivou o conceito da casa. “Percebo que Brasília tem um público jovem com interesse nesse estilo musical. Apesar de ser um gênero que nasceu no subúrbio dos Estados Unidos, o jazz deixou de ser considerado elitizado pelos brasileiros e está mais popular”, diz Saulo Tavares, fã de medalhões como Miles Davis, Chat Baker, Budy Guy e B.B. King. A veia musical do Nola é intensificada todas as quintas, sextas e sábados, com programação musical a partir das 20h. Exemplares de jazz e blues recebem interpretação de músicos brasilienses.

Apaixonados por jazz e blues, a dupla de amigos Moisés Almeida e Saulo Tavares investiu no Nola: inspiração em Nova Orleans (Raimundo Sampaio/ Esp. Encontro/ DA Press )
Apaixonados por jazz e blues, a dupla de amigos Moisés Almeida e Saulo Tavares investiu no Nola: inspiração em Nova Orleans
Após trabalhar 33 anos como repórter fotográfico em diferentes jornais da cidade, Ivaldo Cavalcante enxergou na falta de espaço do apartamento uma oportunidade de alugar um local onde pudesse guardar o material de suas exposições de imagens. “A minha casa estava muito apertada. Por isso surgiu a ideia de ter um ponto onde eu pudesse guardar meus arquivos e dar espaço para expor o trabalho de outros fotógrafos da cidade.” Esse foi o impulso inicial para o surgimento da galeria Olhos de Águia, em Taguatinga Norte. As cortinas teatrais vermelhas dão acesso ao amplo salão de 200 m², decorado com itens de antiquário ao estilo americano. Ele comanda o espaço em parceria com o filho Morissm Cavalcante.

“O bar me dá estrutura para que eu faça meus projetos autorais”, destaca Ivaldo, cujo trabalho já preencheu as páginas de dois livros: Taguatinga, Duas Décadas de Cultura e Brasília: 25 Anos de Fotojornalismo. A galeria foi aberta em 2005 e hoje abriga diferentes ambientes: um lounge com vinis, vitrola e uma pequena biblioteca que leva o nome de Gervásio Baptista, ícone da fotografia política no país e autor de fotos oficiais da inauguração de Brasília. Ao centro está o diminuto bar Faixa de Gaza, com uma carta enxuta de cervejas nacionais e importadas. Para Ivaldo, o nome da região marcada por conflitos foi uma homenagem à resistência. “É uma responsabilidade muito grande substituir de alguma forma esses dois locais icônicos.”

Acompanhado do drinque Nola Sur, o arroz-jambalaya é o carro-chefe do novo point da Asa Norte: mistura de referências gastronômicas internacionais  (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/ DA Press)
Acompanhado do drinque Nola Sur, o arroz-jambalaya é o carro-chefe do novo point da Asa Norte: mistura de referências gastronômicas internacionais
A veia musical do bar é impulsionada pela projeção de um telão 2 m x 3 m, no qual as músicas podem ser escolhidas pelos clientes por um laptop. Entre os petiscos disponíveis na casa está o bolinho de bacalhau, receita da sogra de Ivaldo, Djanira Rodrigues.

Mensalmente, as paredes da galeria recebem quadros de artistas de Taguatinga e região no projeto fixo Artistas do Bairro. “Queremos fomentar a cultura da cidade, e abrir esse espaço foi uma forma de substituir ícones culturais como os bares Blues Pub e Rola Pedra”, afirma o fotógrafo, em referência a pontos de encontro históricos que reuniram importantes artistas locais nas décadas de 1980 e 1990, como as bandas Aborto Elétrico, Plebe Rude e Detrito Federal.

Ivaldo se apresenta como fã do rock da década de 1970, da banda Black Sabbath, e ritmos como blues, jazz e rock. É membro da ONG Task Brasil Trust, criada pelo guitarrista do Led Zeppelin, Jimmy Page.

Já o frequentador do bar Café com Vinil, o empresário Cristian Oliveira, enxergou no acervo de vinis a possibilidade de criar identidade a um novo negócio: o bar Victrola. Para colocar em prática o conceito de bar musical, ele contou com a parceria do sócio Flávio Lenz, grande apreciador de vinis. Inaugurado em fevereiro de 2014, o espaço tem entre os principais lemas a escolha das músicas pelos frequentadores, sempre orquestrada pelos DJs residentes.

“Compramos o acervo do dono do antigo negócio e aumentamos a quantidade de vinis. Inserimos alguns títulos de rock, como Foo Fighters e Iron Maiden. Investimos muito em rock clássico, mas não definimos o que toca. O cliente tem de se sentir à vontade para escolher o que deseja ouvir naquele momento”, explica Cristian, que com o sócio investiu em bolachões das décadas de 1970, 1980 e 1990 – período áureo da indústria fonográfica.

Lucas Ferreira está à frente de um dos pontos culturais mais tradicionais da cidade, o restaurante Feitiço Mineiro: apoio aos músicos de Brasília (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press )
Lucas Ferreira está à frente de um dos pontos culturais mais tradicionais da cidade, o restaurante Feitiço Mineiro: apoio aos músicos de Brasília
Todos os dias da semana, a casa conta com discotecagem de DJs de diferentes perfis, entre eles Dena Clara (pop), Biofa (black music) Raul Lafuente (rock e disco) e Alex Vidigal (MPB, sendo o mais eclético). Um dos fortes da casa é a dose dupla, que acontece de segunda a sábado, das 18h às 21h, e aos domingos é estendida até o fechamento. A promoção é composta por cinco tipos de drinques conhecidos da coquetelaria internacional: mojito, cuba libre, caipirinha de limão, kir royal e cosmopolitan.

“Buscamos inserir o conceito de gastrobar. As pessoas estão em busca de algo além daquele conceito tradicional de bar e restaurante”, diz Cristian, que fez uma releitura da famosa receita do chef Rodrigo Oliveira, do restaurante Mocotó, em São Paulo: dadinhos de queijo coalho servidos com geleia de pimenta. Apesar de terem passado por uma queda no movimento (como muitos do setor), a dupla de sócios decidiu seguir firme com o conceito de vinil. “Até pensamos em colocar música ao vivo no Victrola, mas decidimos insistir com o vinil. Ele é a alma da casa”, destaca Flávio Lenz, que preserva nas prateleiras mais de 4 mil exemplares.

O projeto Victrola: para colocar em prática o conceito do bar musical, 
Cristian Oliveira (dir.) contou com a parceria do sócio Flávio Lenz  (Raimundo Sampaio/ Esp. Encontro/ DA Press )
O projeto Victrola: para colocar em prática o conceito do bar musical, Cristian Oliveira (dir.) contou com a parceria do sócio Flávio Lenz
Um dos pontos culturais mais tradicionais da cidade, o restaurante Feitiço Mineiro foi a primeira casa comandada pelo falecido restaurateur Jorge Ferreira. Mineiro de Cruzília, Jorge foi um dos grandes nomes da cidade a dar espaço aos novos músicos na capital federal. “O Feitiço sempre teve em sua história o apoio aos músicos de Brasília e é um dos poucos lugares que mantém essa veia por tantos anos”, afirma o filho de Jorge, Lucas Ferreira, que comanda a casa ao lado do irmão Leonardo.

Não foram apenas nomes locais que pisaram no palco simples, que fica, ironicamente, entre os banheiros do restaurante – o que gerava piadas bem-humoradas de Jorge Ferreira. Grandes nomes da música brasileira como Jorge Aragão, Martinália, Noca da Portela e dona Ivone Lara já tocaram no espaço que tem em seu DNA a predileção pelos ritmos brasileiros. “Meu pai criou o projeto Gente do Samba, que convidava os medalhões do gênero numa época em que a Lapa, no Rio de Janeiro, estava um pouco caída”, conta Lucas.

A forte inclinação musical do Feitiço compete com o bufê mineiro: o pão de queijo recheado com pernil é receita de Terezinha, mãe de Jorge Ferreira (Raimundo Sampaio/ Esp. Encontro/ DA Press )
A forte inclinação musical do Feitiço compete com o bufê mineiro: o pão de queijo recheado com pernil é receita de Terezinha, mãe de Jorge Ferreira
A forte inclinação musical do espaço compete com o bufê mineiro, diariamente servido em panelas de barro. Clássicos da culinária mineira como o frango ao molho pardo, a canjiquinha, o pernil desfiado e o pão de queijo são receitas de Terezinha Ferreira, mãe de Jorge. Ela foi tutora do chef Geraldo Rocha, que chegou ao endereço ainda em construção, como servente de pedreiro, com apenas 17 anos. Com o aprimoramento na cozinha, Geraldo chegou ao cargo de chef, e hoje é possível vê-lo monitorando o bufê com esmero. Além da famosa feijoada, servida às sextas e sábados, a casa também tem opções à la carte, como o Lombo JK, grelhado e acompanhado de arroz com queijo minas e feijão-tropeiro e a costelinha frita e acompanhada de mandioca cozida, tutu de feijão, couve refogada, arroz e farofa. São boas opções para quem não quer deixar de ouvir boa música em um em um dos bares históricos da cidade.

A casa sempre teve preferência por intérpretes pessoas que imprimam a sua identidade na música. “Acho que lidar com a arte é uma questão de sensibilidade. E meu pai tinha essa sensibilidade”, afirma Lucas, que foi criado entre microfones e violões na casa onde passava a infância assistindo a shows de samba e MPB.
 
Instrumentos por todos os lados: a veia musical do Olhos de Águia 
está marcada nas paredes e é impulsionada pela possibilidade de 
as músicas serem escolhidas pelos clientes (Raimundo Sampaio/ Esp. Encontro/ DA Press )
Instrumentos por todos os lados: a veia musical do Olhos de Águia está marcada nas paredes e é impulsionada pela possibilidade de as músicas serem escolhidas pelos clientes
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EDIÇÃO 59 | novembro de 2017