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GASTRÔ | Bebida »

Felicidade engarrafada

Crescem na capital a venda e o consumo de chope artesanal em growler, recipiente próprio para armazenar a bebida na forma mais fresca. O melhor? Custa menos do que se imagina

Rebeca Oliveira - Publicação:01/09/2016 13:44Atualização:01/09/2016 14:08
Chope londrino no conforto do lar: Fernanda Mesquita vende 
grandes marcas inglesas para growler no bar London Street engarrafada (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
Chope londrino no conforto do lar: Fernanda Mesquita vende grandes marcas inglesas para growler no bar London Street engarrafada
Em uma ruela em Roma, na Itália, cercada por um clima intimista e acolhedor, o brasiliense Denilson Postai vivenciou uma cena que o deixou instigado. Ao parar para abastecer um veículo, notou que, no estabelecimento, famílias locais faziam mais que comprar gasolina. Também preenchiam garrafões com vinho. Seis anos se passaram e o bancário pode, finalmente, repetir o feito pertinho de casa. Dessa vez, enchendo uma garrafa de cerâmica com chope fresco e de alto padrão.

Antes raro, o gesto de Denilson está cada vez mais comum no Distrito Federal. Pedir chope para viagem no growler (nome importado para os enormes garrafões de vidro, cerâmica, inox, alumínio e até PET) é a mais recente tendência na cena cervejeira local, em timing que acompanha o mercado nacional – e que parece ignorar a recessão financeira que tira o sono de milhares de donos de micro e pequenos negócios.

Atentos à demanda do bancário e de outros fregueses, empresários locais enfrentam o tempo de vacas magras com inovação e criatividade. Encher growlers é uma forma de driblar a crise e, também, de permitir que tomem a bebida alcoólica mais consumida no país na forma mais pura, refrescante e cremosa em casa, longe do perigoso casamento entre álcool e volante. Com capacidade de armazenar até 5 litros de cerveja não pasteurizada, os growlers nasceram para acomodar a bebida fresca, muito mais aromática e saborosa.

Eduardo Golin, da Corina Cervejas Artesanais, investiu em equipamento de ponta para oferecer chope de alto padrão: sem perder em sabor, aroma e frescor  (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
Eduardo Golin, da Corina Cervejas Artesanais, investiu em equipamento de ponta para oferecer chope de alto padrão: sem perder em sabor, aroma e frescor
Vendido por litro, diretamente na garrafa, o chope mantém a principal característica que difere as cervejas especiais do tipo industriais, encontradas aos montes nas prateleiras de supermercado: a qualidade dos ingredientes. Qualquer estilo de chope pode ir à garrafa. O mais interessante é optar por um exemplar que tenha o lúpulo (conhecido como o perfume da cerveja) como ponto forte, caso das India Pale Ale, considerada a “nova” pilsen – o estilo que ainda impera nos lares e bares brasilienses.

Retornável, a garrafa também é exemplo no quesito sustentabilidade, uma vez que evita que novas embalagens sejam produzidas e, consequentemente, jogadas no lixo. Outra vantagem é o aquecimento da economia local, visto que cervejarias da região passam a ser preteridas para os growlers, por chegarem mais rapidamente até a garrafa. Ainda bem.

Uma vez fechado, o recipiente permite que o líquido contido em seu interior seja consumido em até uma semana. Depois de aberto, dura dois dias, mas o ideal é beber o mais rápido possível. A conta fica ainda mais interessante porque o preço final do chope pode ser reduzido em até 40%. O sistema é novo por aqui, mas já entrou em vigor em vários endereços da capital. E o número só tende a aumentar à medida que a moda se populariza.

A venda é adotada no Mercadinho Lobão, no Empório Soares e Souza, e até por beer trucks, caso da Corina Cervejas Artesanais. Caçulas na cena cervejeira do DF, os bares London Street, I Love Beer – Tap House e Beco das Garrafas também investiram na proposta, que começou a receber atenção há poucos meses.

No Guará, o Mercadinho Lobão tem chope entre 20 e 45 reais, o litro: descontos chegam a 40% se comparados aos mesmos rótulos nos moldes tradicionais (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
No Guará, o Mercadinho Lobão tem chope entre 20 e 45 reais, o litro: descontos chegam a 40% se comparados aos mesmos rótulos nos moldes tradicionais
Íntimo do universo das cervejas artesanais e criador da Cerrado Bier, Denilson Postai costuma apreciar o chope direto do growler enquanto fabrica a própria cerveja, aos fins de semana, ou quando vai à casa de parentes e amigos, como quem demonstra afeto. O ato é acompanhado de boa companhia e de euforia. Os amigos repetem o gesto de Postai. Cada um com seu garrafão, costumam se reunir ao redor das enormes panelas e, entre malte, lúpulo e levedura fervendo na boca do fogão, trocam impressões sobre os rótulos escolhidos. “Existe uma sentença, com a qual concordo plenamente, que prega: a melhor cerveja do mundo é aquela fabricada ao lado de casa”, explica Postai, destacando o frescor da bebida extraída especialmente para o consumo em growler. Ele costuma comprar no beer truck Corina Cervejas Artesanais. “Pegá-la direto na fonte, em barril que acaba de ser aberto, é totalmente diferente de beber uma cerveja que sofreu dias e até meses com o transporte”, diz Postai.

Essa leveza do chope não é mera coincidência. Pioneiro no uso de um sistema exclusivo para enchimento de growler no Distrito Federal, Eduardo Golin, um dos fundadores da Corina, orgulha-se do mais recente investimento da empresa, que quer ser conhecida para além da ideia de uma Kombi personalizada. Há menos de dois meses, o empresário e os sócios desembolsaram cerca de 14 mil reais em um maquinário russo capaz de extrair o chope na contrapressão. É o único em funcionamento em Brasília por enquanto.

Para comercializar a bebida carbonatada, batizaram um evento semanal de Gráuler Dei, apelido tupiniquim para o gesto repetido em países como os Estados Unidos, onde a tradição ganhou força há uma década. Atitude, aliás, importada de Europa, eterna referência quando se fala em cervejas especiais. “A nomenclatura aportuguesada é proposital. Procuramos desconstruir as convenções em torno da cerveja artesanal. Ela pode ser boa, independentemente dessas formalidades”, explica Eduardo Golin.

O casal Tatiana André e Claudio Rocha, à frente do I Love Beer - Tap House: os clientes podem abastecer os chopes nas 30 torneiras disponíveis no bar (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
O casal Tatiana André e Claudio Rocha, à frente do I Love Beer - Tap House: os clientes podem abastecer os chopes nas 30 torneiras disponíveis no bar
Os entusiasmados cervejeiros do truck de cor preta, que exibe os dizeres “Quem não aguenta bebe milho”, vendem até 200 litros de cerveja por edição do evento. O preço varia de 22 a 28 reais o litro. Para comparar com ocasiões em que os chopes não são vendidos em growler, o copo de 300 ml para beber no local custa entre 10 e 13 reais. Eduardo explica a diferença de preço: “Ganhamos no volume de vendas. Além do mais, como o cliente compra e leva para casa, há uma redução de gastos com funcionários.”

Consciência social, economia, bebida de qualidade: mais que vender chope para garrafão, o growler day dos brasilienses chama a atenção da cena local, cada vez mais diversa e longe de paradigmas. A derrubada de estereótipos também é o ponto forte do evento de igual tom que acontece no Mercadinho Lobão, no Guará, nomeado de Lobão On Tap. Em ambiente que lembra bodegas do interior do país, mas com cerca de 500 rótulos de cerveja diferentes, os sábados tornaram-se dias de encher growlers, das 9h às 20h.

No Empório Soares & Souza, Luciana Isaac vende chope artesanal há sete anos: somente agora vê o público comprá-lo para levar e beber em casa   (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
No Empório Soares & Souza, Luciana Isaac vende chope artesanal há sete anos: somente agora vê o público comprá-lo para levar e beber em casa
Assim como os colegas da Corina, são três os chopes eleitos por semana, em escolha democrática e, diferente da ambientação da lojinha, nada retrô: todos são elencados junto aos fregueses por meio de votação nas redes sociais. Os preços variam de 20 a 45 reais, o litro. Para Vinícius Lobão, que toca a iniciativa, a tendência há de se alastrar. “A cerveja é o novo vinho. Com 100 reais toma-se um vinho de qualidade premium. Gastando o mesmo valor, prova-se de três a quatro cervejas de alto padrão”, calcula. “Já não se trata de um produto de nicho. Está ficando bastante popular”, salienta Lobão.

No Mercadinho Lobão são vendidas garrafas de vidro com tampa de rosca de 1 litro por 10 reais, um preço simbólico, segundo Vinícius, para angariar novos adeptos. Futuramente, o entusiasta do setor pretende trazer para Brasília ideia posta em prática pela cervejaria mineira Wäls, que ergueu growler station (ou estação de growler, em tradução literal) em um supermercado de Belo Horizonte, em maio.

Pegar e levar: freguês pode encher a garrafa e, na mesma visita, encomendar tira-gostos no Beco das Garrafas, dos empresários André Tavares e Felipe Gentil  (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
Pegar e levar: freguês pode encher a garrafa e, na mesma visita, encomendar tira-gostos no Beco das Garrafas, dos empresários André Tavares e Felipe Gentil
Esse tipo de iniciativa reforça a tese de que a cerveja artesanal está, como nunca, em alta. Uma comprovação está nos números superlativos registrados na abertura do bar I Love Beer – Tap House, no fim de junho: 1.600 pessoas degustaram mais de mil litros de chope em menos de seis horas. A certeza de que os growlers vieram para ficar é o investimento do bar no formato, que tem como espinha dorsal a variedade: são 30 torneiras de chope on tap (na pressão). Por trás da ideia grandiosa estão os empresários Claudio Rocha e Tatiana André, que migraram do ramo da educação e agora têm objetivos ambiciosos, incluindo a venda de produtos personalizados. Os growlers entram nessa lista, que inclui também camisetas e louças, aos moldes de gigantes como o Hard Rock Café, rede presente em todo o mundo.

No endereço, o chope custa em média 25% a menos para quem levá-lo para casa no garrafão. O ponto forte é extração na pressão de nitrogênio, que forma minúsculas bolhas de ar na bebida, deixando-a mais cremosa. “Temos chope a partir de 6 reais. O cliente pode provar, conhecer e escolher o que quer levar para casa, perdendo o medo de arriscar e pagar caro por uma cerveja que não conhece. Com tantas opções, dá para agradar a todos os paladares, inclusive dos cervejeiros mais exigentes”, orgulha-se Tatiana André.

Luciana Isaac, sócia do Empório Soares & Souza, abriu a primeira loja em 2007 e, dois anos depois, instalou torneiras de chope no bar e empório. Mas só agora vê procura pela bebida para os garrafões, que pode custar até 10% menos. “Quanto mais pessoas tomando, melhor. Não apenas por uma questão empresarial, focada no lucro, mas por uma mudança de pensamento, que passa pelo consumo consciente”, enfatiza. Para ajudar os clientes a fazer a melhor escolha, a loja conta com beer sommelier, profissional treinado para recomendar o rótulo apropriado para cada ocasião e cardápio.

Quem não tem intimidade com as caçarolas, pode comprar chope para o growler e, na mesma visita, levar tira-gostos para casa no Beco das Garrafas. Capitaneado pelo beer sommelier Felipe Gentil, em sociedade com o amigo André Tavares, no endereço, os clientes podem fazer encomendas de petiscos com perfume gourmet, como o pão de cerveja stout com manteiga maltada (10 reais, com 150 g). De três torneiras, o cliente escolhe o chope e, no cardápio criado com primor, opta pelo quitute que mais lhe apetece. “O diferencial é a minha presença integral na casa, ajudando a fazer as combinações mais acertadas”, afirma Felipe.

Consumidor exigente, Denilson Postai abastece o growler de cerâmica: chope 'ganhou vida' para além das mesas de bar (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
Consumidor exigente, Denilson Postai abastece o growler de cerâmica: chope "ganhou vida" para além das mesas de bar
Com oito torneiras, o pub London Street trabalha com a mesma margem de desconto que os demais bares da cidade – entre 10% e 25%. Longe de serem concorrentes, os endereços se complementam. Essa é a visão de Fernanda Mesquita, que toca o empreendimento aberto há quatro meses na mesma quadra do Santuário, um dos primeiros a vender cerveja on tap na capital. “A cena é colaborativa e não nos vemos como rivais. A diversidade é benéfica porque os distribuidores fornecem a bebida para mais pontos de venda, baixando o preço e permitindo uma negociação vantajosa a toda a cadeia produtiva. Assim, fica mais fácil competir com as cervejas de larga escala”, analisa. Os cervejeiros agradecem.
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EDIÇÃO 59 | novembro de 2017