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PET | Adoção »

Amor, com amor se paga

Um projeto social de fotografia capta cenas que revelam como é o dia a dia de pessoas que adotaram cães em Brasília

Paloma Oliveto - Publicação:02/09/2016 11:22Atualização:02/09/2016 12:06
Eles formam um verdadeiro exército de patinhas cuja única luta é por um lar. Segundo a Organização Mundial de Saúde, 10 milhões de gatos e 20 milhões de cães vagam pelas ruas brasileiras à espera que alguém olhe para seus focinhos e os leve para casa. Em recompensa, oferecerão todo o amor do mundo.

Sensibilizada com o problema do abandono de animais em Brasília, a fotógrafa Paula Leon de Abreu teve a ideia de retratá-los de forma muito diferente da que costumam aparecer. Em vez de clicar os cães nas ruas ou nos abrigos, com os olhos tristes e os rabinhos abaixados, ela optou por mostrar histórias felizes. No projeto Adotar, Um Ato de Amor, as lentes de Paula registram a felicidade dos que foram adotados e das famílias que os receberam de coração aberto.

"Eu sempre quis fazer trabalho voluntário", conta a fotógrafa, que, profissionalmente, faz books de crianças e pets, entre outros. Apaixonada por cães, teve um estalo: por que, então, não começar a fotografar cachorros adotados? "Eu queria contar o depois, mostrar o que mudou na vida dos tutores após a adoção. Cada ensaio tem uma história especial", explica.

Nos perfis do projeto nas redes sociais é possível acompanhar os relatos por imagens e textos sobre cãezinhos resgatados por pessoas que se despiram do preconceito, abriram mão de raça e pedigree, e não se arrependeram nem um pouco. Todos os books assinados por Paula no projeto são presentes que ela dá aos tutores. "Se não pagou pelo cachorro, também não vai pagar pelo álbum", diz.

Ao mostrar que todos os animais são lindos e podem mudar a vida de quem os abriga, a fotógrafa espera estimular outras pessoas a pensar antes de comprar um cão e dar a chance para aqueles que foram retirados das ruas, foram abandonados ou que nasceram em abrigos. A estratégia dá certo na opinião de uma das clicadas, a empresária Marina Oliveira de Figueiredo Cavalcanti, tutora de Lolinha, uma vira-lata sapeca de 8 meses. "Eu compartilhei as fotos em redes sociais e vi que muitos dos meus contatos passaram a falar de adoção e contar que estavam adotando animais", comemora.

Conheça algumas das histórias de amor reveladas pela lente de Paula.

MILK, O PEQUENO GIGANTE

Gigante é exagero. Milk, de 9 meses, tem porte médio. Mas, para quem chegou todo miudinho, ele cresceu a um ritmo aceleradíssimo e adquiriu um tamanho de cão que os fotógrafos Paula Leon de Abreu e Janio de Abreu Filho jamais imaginaram ter em casa. Quando decidiram que era hora de arrumar um irmãozinho para a yorkshire Cookie, eles estavam decididos a adotar. Sabiam que queriam uma fêmea e, antes de tudo, bem pequena. Paula e Janio já estavam cansados de procurar. Olhavam anúncios na internet, visitavam feirinhas, e nada de encontrarem uma irmã para Cookie. Eles deram de cara com Milk em um evento de adoção. "Quando vi que ele era macho, meu coração doeu", relata a fotógrafa. Ela até começou a considerar adotar um macho, mas veio o balde de água fria: "A moça da feirinha disse que a mãe dele era de porte médio. Eu não podia agir por impulso. Fui embora chorando", diz. A busca pela fêmea pequenina continuou. Sem tirar Milk da cabeça, na semana seguinte, Paula voltou à feira de adoção. "A moça falou: Olha quem te esperou! Ele estava lá. Vi e comecei a chorar", recorda. Aí, não teve jeito. O miudinho de 1 mês e 27 dias acabava de ganhar um lar. Então, Paula viu os próprios preconceitos caírem por terra:  "Ele tem um olhar diferente. Um jeito grato, que vejo em todos os animais adotados."
 (Paulinha Leon Fotografia/Divulgação)

NA TERCEIRA, DEU CERTO


Quando Marina Oliveira de Figueiredo Cavalcanti e Victor de Castro Gebrim decidiram se casar, resolveram adotar uma filha de quatro patas. Ela já tinha Pipoca, uma poodle de 10 anos, que passa boa parte do tempo na casa dos pais de Marina. Em vez de comprar, o casal fez questão de abrigar um vira-lata. Num sábado, foram a uma feira de adoção, só para olhar os bichos, pois não pretendiam fazer adoção naquele dia. Então viram Lola, de apenas 3 meses e já com uma vidinha marcada pelo abandono. Ela já havia sido adotada e devolvida duas vezes. Na primeira, a tutora alegou que o pelo da cadela provocou crise alérgica na filha. Na segunda, o tutor afirmou que a pequenina era muito agitada, e que ele não conseguia acompanhar seu ritmo. A terceira adoção de Lolinha, porém, foi definitiva. "Meus olhos foram direto para o rostinho sonolento da Lola, que era o último animal, no último cercadinho, lá no fundão. Nós nos aproximamos dela e não nos separamos nunca mais", recorda Marina.
 (Paulinha Leon Fotografia/Divulgação)

A FELICIDADE NÃO SE COMPRA


Para o casal Roselane de Araújo Gomes e Wagner Costa de Oliveira não bastava adotar. Eles queriam abrigar um cão que tivesse passado por maus-tratos. A ideia era oferecer todo o amor do mundo a vidas até então sofridas, que não conheciam outros sentimentos, senão medo, frio, fome e dor. A primeira a entrar para a família e a deixar o sofrimento para trás foi Mila. "Um dia, resolvemos visitar uma feirinha e lá estava ela, tímida e mostrando a barriguinha para todos que passavam", revela a zootecnista. A voluntária da ONG que organizou o evento contou que Mila já teve um lar. Até ser abandonada com uma corda no pescoço, na frente do abrigo. Lá, não conseguiu se adaptar. Chegava a apanhar dos outros cachorros. Mila chegou acuada. Mas, depois de uma semana, revelou seu lado brincalhão. "Ela virou nossa princesinha, motivo de muita alegria", revela Roselane. Mas a família não estava completa. O casal resolveu resgatar um cão na rua. Depois de um ano e meio da adoção de Mila, Todinho surgiu na vida deles. "Passeando com ela pelo nosso bairro, ela choramingou e insistiu em olhar para dentro do prédio vizinho ao nosso. E lá estava ele na lixeira (provavelmente passou pela grade e lá se escondeu), imundo, trêmulo de medo, molhado de chuva", conta Roselane. "Não teve jeito! O 'amor à primeira vista' aconteceu novamente." Hoje, Mila e Todinho são grandes amigos.
 (Paulinha Leon Fotografia/Divulgação)


BLACK, O PITBULL BOA-PRAÇA

O preconceito não existe apenas contra os vira-latas. Algumas raças carregam estigmas que dificultam a adoção. É o caso dos pitbulls, que podem passar a vida toda em abrigos, sem que ninguém ouse se aproximar deles. A história de Black, de 12 anos, mostra que, com amor, eles podem ser mais mansos que um gatinho.Quando Ramhon Peixoto de Oliveira Santos apareceu em casa com um filhotinho de pitbull, ouviu da mãe um "não" sonoro, repetido em frases como: "Olha o que passa na TV, ele vai morder a gente! Não quero, vai me atacar!", recorda-se ele, aos risos. Black, hoje um senhorzinho de focinho branco, sempre foi calmo. Mesmo no auge da juventude. "Ele nunca teve nada daquele estereótipo que cachorro de devora todo mundo. Sempre foi muito tranquilo e observador", diz o cinegrafista. "Quando as pessoas compram um cachorro, parece que ele é uma mercadoria. Mas, quando escolhem por amor, não pensam em raça, não pensam em valor", reflete Ramhon. "Tem um monte de cachorro esperando para ser adotado. Ninguém precisa comprar."
 (Paulinha Leon Fotografia/Divulgação)


AGORA ELE É FAMOSO

Branquinho tem um passado de muito sofrimento. Ele foi vítima do abandono e da maldade humana. Encontrado por uma família na rua, com os olhos muito machucados devido a uma despigmentação nas pálpebras, foi levado ao veterinário e tratado. Contudo, as pessoas que o resgataram não tinham condição de levá-lo para casa. Continuaram cuidando dele, mas na rua. Assim, durante um ano, ele sumia e voltava, quase sempre machucado. "Um dia, estava deitado tomando o seu sol matinal e um motorista passou por cima da pata dele de propósito. E foi aí que eu me apaixonei por ele. Eu sou médica veterinária e, dos muitos cachorros que passaram pelos meus cuidados, nunca tinha sentido o que senti por Branquinho", relata Rayane de Lima Silva. "Eu não podia permitir que aquele serzinho voltasse para as ruas. Resolvi levá-lo para casa." Foi a primeira vez que Rayane adotou um cão, e não se arrepende. "Ele me ensinou valores, me ensinou o que é um olhar de gratidão e me ensinou o quanto é bom fazer a diferença na vida de um animal. Tive o privilégio de acompanhar a transformação dele, de cãozinho encardido, machucado e assustado em um cachorro bonito, alegre e fotogênico", orgulha-se.
 (Paulinha Leon Fotografia/Divulgação)

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EDIÇÃO 59 | novembro de 2017