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COMPORTAMENTO | Carreira »

Virada 180 graus

A vontade de fazer algo diferente leva muitas pessoas a mudarem completamente de profissão e, por conta disso, o rumo da vida pessoal

Camila Costa - Publicação:02/09/2016 13:56Atualização:02/09/2016 14:14
'Foi um plano B que deu certo, uma surpresa até para nós', diz Bruno Douglas Lopes, que largou o ramo de combustíveis para abrir um restaurante, ao lado do sócio, o arquiteto Ricardo Brizolim, que abandonou a carreira bem-sucedida (Raimundo Sampaio/ Esp. Encontro/ DA Press)
"Foi um plano B que deu certo, uma surpresa até para nós", diz Bruno Douglas Lopes, que largou o ramo de combustíveis para abrir um restaurante, ao lado do sócio, o arquiteto Ricardo Brizolim, que abandonou a carreira bem-sucedida
Decidir qual ramo seguir na vida profissional não é tarefa fácil. Envolve família, anseios, pressão, insegurança. Costuma demorar. Porém, uma hora a lâmpada da ideia acende e a escolha é feita. Daí em diante, muito empenho, dedicação e qualificação estruturam a carreira. Mas não são raras as vezes em que as dúvidas voltam: e se o negócio próprio fosse mais rentável? E aquele sonho de abrir uma loja de roupas? Um restaurante não seria mais viável? É a vontade de fazer algo diferente que faz muitas pessoas mudarem completamente o ramo na vida profissional – e, consequentemente, o rumo da vida pessoal.

Ter um “plano B” de vida é recomendado por muitos especialistas, mas no fundo quase ninguém acha que de fato vai usá-lo. Desviar a rota traçada geralmente traz insegurança, necessidade de investimento e coragem, principalmente. A percepção de tempo restante para correr atrás e fazer dar certo pode ser menor do que antes, e isso amedronta. Abandonar a rotina do escritório, o chefe estressado, os prazos apertados e planejar um negócio próprio ou se dedicar de vez a outro segmento pode ser a saída para dias mais felizes. Mas a ruptura, mesmo que desejada, não é fácil.

Bruno Douglas Lopes, de 28 anos, que o diga. Profissional bem-sucedido no setor de combustíveis, ele decidiu jogar tudo para o alto e apostar em uma receita de hambúrguer. Trabalhou com revenda de combustíveis por 10 anos, no maior grupo do Distrito Federal. Entrou na empresa como auxiliar, ganhando 800 reais, e foi lá que conseguiu oportunidade para crescer na vida. Em sete meses tornou-se supervisor na diretoria da empresa e o salário deu um belo salto. “Combustível é um ramo dinâmico, eu amava o que fazia. Cheguei a passar necessidade, e trabalhar neste setor mudou minha vida”, conta o empresário.

Mesmo com todo o sentimento de gratidão pelo emprego, não teve jeito. O desejo de ser o próprio chefe, liderar algo que fosse dele, falou mais alto. Para não apostar tudo no primeiro momento, Bruno foi tocando o projeto paralelamente ao trabalho. “Foi um plano B que deu certo, uma surpresa até para nós. Em seis meses, já éramos um sucesso. Então sentei com a diretoria do meu trabalho para dizer que iria me dedicar apenas ao meu negócio. Ninguém acreditava, mas aconteceu. Conciliei por um tempo as duas coisas, mas 30 de maio foi meu último dia no antigo emprego”, conta.

Das três sócias da Vestido de Chita, duas já abandonaram os antigos empregos para apostar na loja de roupas femininas: Polliana Ribeiro e Roberta Luiza estão otimistas com os primeiros resultados (Raimundo Sampaio/ Esp. Encontro/ DA Press)
Das três sócias da Vestido de Chita, duas já abandonaram os antigos empregos para apostar na loja de roupas femininas: Polliana Ribeiro e Roberta Luiza estão otimistas com os primeiros resultados
Agora, toda a atenção está voltada para o projeto Brazilian American Burguer. Mas engana-se quem pensa que Bruno teve toda essa coragem sozinho. Sempre ao seu lado, Ricardo Brizolim, de 37 anos, foi um grande apoiador. Inclusive, é dele a receita sigilosa do hambúrguer de sucesso. Arquiteto bem-sucedido, com uma boa carteira de clientes em Brasília, nada foi suficiente para segurar a ânsia de também dar uma virada na vida. “No começo, Bruno ia para a frente do comércio e chamava os clientes para conhecerem a casa. Fizemos por onde, acreditamos nisso e em um mês já tínhamos respostas”, recorda Ricardo.

O reconhecimento não para de crescer. Na última edição do prêmio Encontro Gastrô – O Melhor da Cidade, eles venceram a categoria Sanduicheria. No Foursquare, é a melhor nota de Brasília. E no TripAdvisor, o primeiro lugar também é deles, em qualidade dos produtos e atendimento. “Não temos mais como desistir. Só crescer”, afirma Bruno, que abriu no mesmo bloco uma loja de sorvetes com os mesmos princípios de excelência em qualidade e atendimento. Ele e Ricardo já planejam novas lojas, em outros pontos do DF. De tanto se empenharem, eles arriscaram e deu certo, no entanto, começar algo novo, virar a vida 180 graus e tomar novo rumo demanda planejamento. Ou melhor, pede uma organização prévia de recursos, com plano de negócio e estudo de mercado, segundo os experts no assunto.

Com as donas da loja Vestido de Chita foi assim. Ou quase assim. O começo foi em cima dos erros, mas, há algum tempo é estruturada em planejamento estratégico.O investimento em estudos de negócio é para manter o sucesso que a marca tem conquistado e, quem sabe, fazer o plano B virar o A, definitivamente. Até agora, das três sócias, duas já abandonaram os antigos empregos para apostar na loja de roupas femininas, com vestidos de diversos modelos a preços convidativos. “Ter uma loja de roupas sempre foi um sonho para mim, mas a realidade era distante. Tudo parecia muito complicado para se fazer sozinha”, revela Polliana Ribeiro de Sousa Lemos, de 32 anos.

Graziela Cardoso Piloni Amorim abriu mão da lista de atrativos da carreira pública para abrir uma franquia: hoje, sente-se muito mais realizada do que antes (Raimundo Sampaio/ Esp. Encontro/ DA Press)
Graziela Cardoso Piloni Amorim abriu mão da lista de atrativos da carreira pública para abrir uma franquia: hoje, sente-se muito mais realizada do que antes
Um dos maiores problemas era a distância. Polliana morava em Goiânia, enquanto Millena Lopes Gomes, de 34 anos, e Roberta Luíza Eduardo, da mesma idade, em Brasília. “Quando a Millena precisou de uma segunda renda, sugeri a ela o que eu mesma gostaria de fazer: vender roupas femininas. Ajudei a iniciar o negócio não só por amizade, mas por gosto pelo negócio. Queria ver dar certo. Era animadora a ideia de trabalhar para mim, buscando crescimento, inovação e trabalhando um lado que, até então, estava só no meu desejo”, conta Polliana, que deixou um cargo público bem remunerado na cidade goiana para se dedicar ao plano empreendedor na capital. No ano passado, o plano B tomou formato. Em cinco meses, surgiu uma loja virtual e, dois meses depois, a loja física, no Sudoeste. Em princípio, apenas um showroom, mas a procura pelos vestidos demandou mais. Polliana e Millena juntaram esforços com Roberta e mãos à obra. “Fazemos tudo lá, desde escolher tecido a limpar o banheiro. É uma caminhada trabalhosa, mas muito, muito prazerosa. Empreender é desafiador e ver seu negócio tomar forma no meio de uma crise sem precedente é ter a certeza de que se está no caminho certo”, comemora Millena.

Roberta, que tinha dois empregos, também abriu mão de um para mergulhar no sonho das amigas. Deixou para trás carteira assinada e outros benefícios do emprego fixo. “Investimos para o crescimento diário e temos projetos a médio e longo prazos. Não é uma brincadeira. Não trabalhamos pensando apenas nas vendas do dia seguinte. Tem dado certo e por isso temos tanta confiança no futuro”, explica a sócia.

Luísa, personagem-título de Fernando Dolabela no livro Os Segredos de Luísa, também deu uma virada na vida ao escolher um caminho diferente do até então previsto. Na história, com trama, conflitos e reviravoltas, Luísa decide abrir uma empresa para vender a goiabada cascão produzida pela tia. O autor procura ensinar passo a passo tudo o que é preciso saber para tirar o plano do campo das ideias e jogá-lo ao mercado. Dolabela se aprofunda nas informações específicas sobre marketing, plano de negócios, finanças, administração e organização empresarial, em meio a um romance. A dedicação da menina que mal pensava em seguir por um plano B de vida rendeu até um prêmio. “As pessoas têm atitudes que demonstram vocação. Quando você, ao longo do tempo da carreira, identifica-se como empreendedor, não tem jeito. Acaba enveredando para esse lado. Porém, não pode trabalhar na incerteza. O que as pessoas precisam é se preparar, porque não adiantam só vocação e recursos”, garante o superintendente do Sebrae-DF, Valdir Oliveira.

E nessa onda muitos apostam na vocação. Mas, para dar certo, é preciso mais do que jeito para a coisa. Segundo Valdir, é muito importante ter uma certeza em mente: não existe bula de remédio. “Não é cartesiano. Cada pessoa é uma pessoa, tem casos que dão errado e casos que dão certo, das formas mais variadas possíveis”, pondera (veja dicas no quadro). Um ponto, entretanto, é certo: o medo não pode entrar junto na nova caminhada. “O empreendedor tem de se adaptar à realidade. Por exemplo, há uns 10 anos, houve um aumento das vendas de comida no DF, novos consumidores entrando no mercado. Veio a crise, as pessoas não deixaram de comer, mas passaram a comer diferente. Em 2014 e 2015, houve aumento do comércio de quentinhas. Ou seja, se prestar atenção e se ajustar, o empreendedor desse ramo tem muita chance de sobreviver. O risco faz parte do empreender”, observa Valdir.

Todo mundo sabe que concurso público é o sonho de muitos brasilienses. Estabilidade, carga horária predefinida, folga nos fins de semana, férias em dia, salário bom, todos os direitos trabalhistas garantidos. Impossível alguém trocar tudo isso para investir em outro rumo de vida, certo? Errado! Graziela Cardoso Piloni Amorim, de 30 anos, não só abriu mão dessa lista de atrativos, como se sente, hoje, muito mais realizada do que antes. Ainda menina, com 19 anos, ela veio para a capital federal seguir os passos mais tradicionais do brasiliense: passar no vestibular e se formar na Universidade de Brasília (UnB), depois prestar concurso público. E assim foi feito. Formou-se em pedagogia e fez concurso quase no fim da faculdade. Passou. Em 2010 já era funcionária do Governo do Distrito Federal. “Eu passei para nível médio porque não tinha terminado a faculdade quando prestei o concurso. Mas sabia que não ficaria lá, tendo nível superior, a vida inteira. Então agarrei quando veio a oportunidade de abrir uma franquia”, explica.

'O que as pessoas precisam é se preparar, porque não adiantam só vocação e recursos' , garante o superintendente do Sebrae-DF, Valdir Oliveira (Vinícius Santa Rosa/ Encontro/DA Press)
"O que as pessoas precisam é se preparar, porque não adiantam só vocação e recursos" , garante o superintendente do Sebrae-DF, Valdir Oliveira
Graziela, na época, tinha o incentivo do noivo, que já era empresário. Ainda assim, a angústia foi inevitável. Pensou, ficou insegura, mas resolveu ousar. “Corria o risco de não dar certo. Venho de uma família toda concursada e fugir disso me deixou pensativa. Pesquisei, refleti bastante e considerei que ainda estava nova para me acomodar no serviço público”, pondera. Ela tinha cargo de chefia, salário razoável, amava o trabalho. Tudo ficou para trás, todo o plano de carreira e de vida pensados ainda na época da faculdade. Há dois anos, Graziela virou empresária, dona de uma franquia, e trabalha com planejamento financeiro e proteção familiar. Aumentou a renda em cinco vezes e, nesse tempo, já ganhou três viagens internacionais por reconhecimento profissional. Está no seleto grupo de 1% de melhores profissionais da área. “Estudei muito, fiz treinamentos e, quando decidi, sabia que meu planejamento pessoal teria de ser melhor do que antes. Dedicação maior, mas quero aproveitar enquanto estou nova e com muita disposição”, justifica a empresária, que tatuou na pele a frase que leva para a vida: “O futuro pertence àqueles que acreditam na beleza dos seus sonhos.”

Se Graziela deu uma virada de 180 graus na própria vida, Tiago de Castelo Branco, de 35 anos, está quase em 360 graus. O rapaz era apaixonado por biologia. Fez vestibular, passou e se formou pela UnB. Conseguiu estágio na área, trabalhou como professor, dava aulas de reforço e a ideia era ficar no ramo, inclusive fazer mestrado e ser um propagador de informação. Até que veio um estalo e uma viagem para Londres o levou a desenvolver o lado gastronômico, especialmente voltado para os doces e sobremesas. “Minha mãe me incentivou. Fiz a faculdade de gastronomia e para minha surpresa, logo arrumei um estágio na área. Em seis meses, eu já estava no lugar do meu chefe”, lembra.

O biólogo Tiago de Castelo Branco, que já foi professor e trabalhou em uma gelateria: ele agora quer segurança e estabilidade, e estuda para concurso público  (Raimundo Sampaio/ Esp. Encontro/ DA Press)
O biólogo Tiago de Castelo Branco, que já foi professor e trabalhou em uma gelateria: ele agora quer segurança e estabilidade, e estuda para concurso público
A nova paixão rendeu uma viagem de especialização na Itália, por um mês, com investimento de 12 mil reais. “Fiquei quatro anos em uma gelateria e, quando a loja foi vendida, eu comecei a cogitar dar uma virada. Cansei de fazer o que eu gosto. Quero ter segurança, quero horário para entrar e para sair, quero estabilidade”, conta. Assim, Tiago resolveu seguir o rumo contrário de Graziela. Agora, o foco são os concursos. “Vou ser servidor público, mas não descarto o resgate dessas áreas depois. Seguir a vida em linha reta tem seus atrativos, porém, tenho orgulho de saber várias coisas diferentes. Todo mundo deveria fazer algo diferente, nem que seja paralelamente ao trabalho que já tem. É bom para criar experiências”, diz.
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EDIÇÃO 59 | novembro de 2017