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BEBIDAS | Cachaças »

Queridinha do Brasil

Com 500 anos de história, a cachaça, bebida genuinamente nacional, pode ser usada ate como ingrediente de alta gastronomia

Alexandre de Paula - Publicação:16/09/2016 09:48Atualização:16/09/2016 10:26
Pinga, caninha, branquinha… Os apelidos são muitos, quase tantos quanto a paixão do Brasil pela cachaça. A bebida, genuinamente criada no país, é a queridinha dos brasileiros e até em tempos de crise não sai da lista de compras. Uma pesquisa feita pela PeopleScope e divulgada pelo Ibope mostrou que, na verdade, é na crise que o brasileiro compra mais aguardentes. Os resultados geraram até um índice, chamado de Índice da Cachaça, que mostra que quanto menor a expectativa do consumidor maiores são as vendas.
 (Bruno Pimentel/Esp. Encontro/DA Press)

Em Brasília, o hábito de consumir a bebida é cada vez maior, segundo a chef Raquel Amaral. "Aqui, a cachaça vem sendo cada vez mais apreciada. De muitos lugares que visitei, incluindo Minas Gerais, percebo ser o lugar com mais bares e restaurantes especializados em pinga ou com extensa carta da bebida", diz a chef, que também a usa em suas receitas. Para ela, hoje, a bebida ganha cada vez mais espaço: "Antes, ela era considerada uma bebida barata e de péssima qualidade. Agora, temos uma grande variedade de estilos, muita qualidade e mais aceitação".

A chef Raquel Amaral usa cachaça em suas
receitas: a bebida vai bem com pratos
clássicos brasileiros, como feijoada e as
comidas mineira e goiana
 (Antonio Cunha/CB/DA Press)
A chef Raquel Amaral usa cachaça em suas
receitas: a bebida vai bem com pratos
clássicos brasileiros, como feijoada e as
comidas mineira e goiana
O Brasil pode se orgulhar de ser o pai da bebida, que completa 500 anos em 2016.  Apesar de ser difícil precisar uma data, acredita-se que a cachaça tenha surgido com o primeiro engenho de cana-de-açúcar do país, no litoral Pernambucano, por volta de 1516. Para garantir a origem, a própria legislação brasileira decretou que somente bebidas produzidas no Brasil podem ser chamadas de cachaça. "É uma marca registrada, mas foi uma luta chegar até a lei. Alguns países consideravam a cachaça e o rum a mesma coisa por serem feitos de can"”, explica Raquel. Segundo ela, o que diferencia as duas bebidas, no entanto, é o modo de produção. "O rum é feito com o sumo cozido da cana e a cachaça, com o cru, o caldo da fruta. O teor alcoólico médio da cachaça é maior que o do rum", diz.

Para quem quer usar a bebida na gastronomia ou em drinques, a especialista dá algumas dicas: para deixar o sabor mais sutil, melhor optar pelas sem envelhecimento. Já para evidenciá-lo, as envelhecidas são a opção mais adequada. "Cachaças sem envelhecimento são as mais usadas em geral, pois são mais leves e não influem tanto no sabor. Mas gosto é gosto, e eu prefiro as envelhecidas. Quero que o sabor esteja presente", afirma. Na hora de harmonizar a bebida com a comida, ela recomenda pratos clássicos brasileiros, como feijoada e as comidas mineira e goiana. "A base é que harmoniza com comidas gordurosas e fortes", diz.

Ela ressalta a qualidade das pingas produzidas no Nordeste e em Minas Gerais. "São lugares que fazem ótimas cachaças." Além das industriais e mais conhecidas, há as versões premium e as produzidas artesanalmente. Algumas delas passam por processo de envelhecimento, que pode durar anos. "O envelhecimento é feito em barris. Existem várias madeiras brasileiras que podem ser usadas, como jequitibá, bálsamo e umburana. Cada uma dá coloração e sabor diferentes", explica Raquel. Outra madeira muito usada para a técnica é o carvalho. "Ele costuma ser usado depois da exaustão do envelhecimento de outras bebidas, o que confere à pinga vários aromas", diz ela.

Proprietário do Empório da Cachaça (405 Sul e 314 Norte) e estudioso da bebida, Igor Romão destaca as versões premium como opções frequentes na carta do estabelecimento. "Elas são caras e com processo de envelhecimento que pode durar três, cinco anos ou até mais. São mais caras do que uísque, com doses a 30 reais, por exemplo, e garrafas a 250 reais", conta.
Igor Romão, do Empório Cachaça, entende do assunto: ele vende cachaças que custam mais do que uísque (Bruno Pimentel/Esp. Encontro/DA Press)
Igor Romão, do Empório Cachaça, entende do assunto: ele vende cachaças que custam mais do que uísque

Com 20 anos de empresa, Romão acredita que o brasiliense gosta, sim, da bebida e identifica três tipos de público entre os consumidores do DF. Os primeiros são os conhecedores da bebida, que optam por versões mais elaboradas e caras. "São pessoas geralmente com mais de 40 anos, que entendem de envelhecimento, estudam a bebida e sabem reconhecer uma boa cachaça", aponta. Depois, vem um grupo intermediário, de pessoas que começaram recentemente a se interessar com mais profundidade pela bebida: "Nesse caso, são um pouco mais jovens, geralmente até influenciados por pais e avós que conhecem muito da bebida". Por último, ele cita o público mais jovem, que prefere a bebida em drinques ou versões saborizadas com adição de açúcar e frutas. "Em geral, eles não entendem tanto de cachaça, mas gostam porque pode ser refrescante e gostosa", afirma.
 (Arte/Encontro)
 
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EDIÇÃO 59 | novembro de 2017