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ESPECIAL EDUCAÇÃO | Capa »

Sem limites para ensinar

Estimulados por uma geração hiperconectada e ativa de alunos, seis professores da capital mostram como fazem para fugir do lugar-comum e dar aulas de forma criativa

Jéssica Germano - Redação Publicação:21/10/2016 12:38Atualização:21/10/2016 17:04
Ao soar o sinal, não entram em cena figuras quietas ou clássicas. Pelo contrário. A extroversão é quase uma disciplina básica no currículo desses profissionais. Sobre o tablado ou em chão firme, ali a moeda de troca entre magistério e alunado é, especialmente, a espontaneidade. Esqueça o simples quadro-negro ou os pincéis. Nas mãos, esses professores têm tecnologia, criatividade e inovação. Protagonistas de um ambiente cada vez mais informado e conectado, alguns docentes de Brasília têm mostrado que o ensino lúdico tem levado um pouco mais além os estudantes brasilienses. Sem metodologias tradicionais, eles acumulam o que podem e lançam mão do bom humor, aliado ao conhecimento, para atrair a atenção de crianças, adolescentes e jovens em formação. Do teatro para ensinar Machado de Assis ao funk perfeitamente ritmado que explica a reprodução das plantas, não há limites quando o assunto é aprender.
 (Raimundo Sampaio/Esp. encontro/DA Press)

Só no Distrito Federal são mais de 38 mil professores, segundo a sinopse da educação realizada em 2014 pela diretoria de estatísticas educacionais do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep). Um número que responde pela formação de 887.216 alunos, da educação básica ao ensino superior, e que, segundo o mestre em educação Cristiano Muniz, precisa ser cada vez mais integral, no sentido amplo da palavra. "É entender que cada criança é formada por emoção e afetividade. Que ela é um ser social e cognitivo e que está pronta para participar de questões científicas, culturais e éticas da sociedade", explica.

Especialista em métodos e técnicas por meio da aprendizagem criativa, o professor da Universidade de Brasília aposta no espaço educacional como ambiente para a formação e transformação de pessoas. "Nós temos de fazer avançar os jogos dentro da sala de aula, de tal forma que os grandes objetos que sustentarão as atividades lúdicas serão a leitura, a escrita, a ciência", diz. "Hoje, o método científico da pedagogia precisa estar sustentado na possibilidade de cada sala de aula perceber as formas diversas de pensar e sentir o mundo", completa.

E a filosofia de inovação nos processos de ensino-aprendizagem vale para todos os segmentos: "Onde tiver educação nós precisamos ter a preocupação de um ensino lúdico", defende Muniz. É colocando esses mecanismos em prática que figuras como Marcos Pereira cria personagens em uma realidade virtual para apresentar as teorias do design, por exemplo. Já para o professor de biomedicina Paulo Queiroz, a sala de aula serve de cenário perfeito para um assassinato fictício, onde os alunos aprendem, na prática, sobre criminalística. Dois casos de seis que não poupam cartas na manga quando se trata de conhecimento a longo prazo.
 
MATEMATICA NA COZINHA
 
As disciplinas precisam conversar entre si. Esse é o ponto de partida da metodologia praticada por Marco Antônio Custódio (com a professora de gastronomia Marcela Ferro) na escola que já tem como pano de fundo a interdisciplinaridade de conteúdos. Para o docente do Seriös, bacharel e licenciado pela UnB para ensinar matemática - o terror da maioria dos alunos -, a questão principal está em levar para o dia a dia as equações tão teorizadas.

"Nós vemos as regras matemáticas em sala de aula e as aplicamos na vida financeira deles", exemplifica a prática que chega até os temas de história, cinema e gastronomia. Desse último assunto, também disponível na grade curricular do colégio onde leciona, o professor recorta o que pode e insere no conteúdo dado para o ensino fundamental, para o 6º ano e para turmas do ensino médio que se preparam para o Enem.
'Nós precisamos trazer a realidade deles para dentro de sala de aula. É importante colocar os alunos como sujeitos ativos, e não o professor ficar como mero transmissor de conteúdo' (Raimundo Sampaio/Esp. encontro/DA Press)
"Nós precisamos trazer a realidade deles para dentro de sala de aula. É importante colocar os alunos como sujeitos ativos, e não o professor ficar como mero transmissor de conteúdo"

"Matemática, querendo ou não, tem uma parte muito abstrata e precisa ir para o lado prático", explica. "Na culinária nós fazemos o link com a parte de frações e de medições de uma xícara, de uma colher, um copo, com um quarto, um terço", cita. Completam ainda a atmosfera iniciativas para a participação constante dos estudantes em sala, como inserção de plataformas digitais.

Para trabalhar os números na obra literária O Pequeno Príncipe, tema proposto para todas as disciplinas abordarem na escola durante o primeiro trimestre do ano, por exemplo, Marco Antônio montou uma caça ao tesouro via QR Code. Enquanto isso, aposta também na disposição de carteiras em duplas ou grupos, com monitores, permitindo a troca de saberes entre os alunos. "Queremos que eles sejam mais interativos conosco, bem mais próximos da matéria. E que não vejam o professor como figura onipotente, conhecedor de tudo", diz. 
 
CADA AULA É UM ESPETÁCULO
 
A entonação forte, acompanhada de um enredo que facilmente parece ensaiado, não faz parte de uma peça teatral em cartaz na cidade. Mas poderia. Para Camilla Osiro, professora de literatura há 14 anos, as histórias dos livros sempre vieram acompanhadas de uma narrativa passional. Ao decidir pelo vestibular, a paixão apenas se formalizou em profissão, a partir do curso de letras.

Responsável atualmente pelas turmas de literatura do ensino médio e do pré-vestibular do Galois, ela usa os recursos dramáticos que consegue para falar e apresentar aos jovens figuras como Machado de Assis, Gonçalves Dias e Clarice Lispector. "São nomes sobre os quais, às vezes, os alunos têm preconceito, e eles se apaixonam, acham que é novela", relata. "Eles amam Guarani, Senhora, e isso é José de Alencar", enfatiza, como quem lembra que estamos vivendo a todo vapor com a geração Y.
'Eu comecei a dar aula já com esse jeito. As escolas perceberam, foram me reconhecendo, me chamando, e minha grade foi aumentando. Hoje, consigo ter o privilégio de ter uma renda boa e não preciso trabalhar todos os dias' (Raimundo Sampaio/Esp. encontro/DA Press)
"Eu comecei a dar aula já com esse jeito. As escolas perceberam, foram me reconhecendo, me chamando, e minha grade foi aumentando. Hoje, consigo ter o privilégio de ter uma renda boa e não preciso trabalhar todos os dias"

"Eu estou competindo com a internet, com todas as redes sociais, com televisão, cinema", lembra a professora, pouco antes de falar do papel fundamental que as escolas exercem no ensino inovador proposto pelo corpo docente. No caso da instituição em que trabalha, recebeu apoio para encabeçar um projeto de cinema que resultou em um longa-metragem produzido pelos estudantes, e mais recentemente um musical, sustentado por obras exigidas no PAS. "Preparar uma aula é perguntar: o que vou fazer de diferente? Quando se faz isso, ganha-se reconhecimento. E é imediato", garante a professora, formada pela UnB.
 
DA FICÇÃO PARA A ACADEMIA
 
A carreira de docente permitiu algumas coisas a Marcos Pereira. Uma delas foi trocar o Rio de Janeiro por Brasília, enquanto a outra foi ganhar um sobrenome que corresponde ao seu alter ego, criado para apresentar a seus alunos os fundamentos do design via RPG, jogo de representação virtual. De cara, o visual do também conhecido Marcos "Archanjo" chama a atenção. Cabelo vermelho, All Star e camisa de super-herói são apenas alguns dos quesitos que compõem as ministrações do professor no Iesb.

"A sala de aula como nós conhecíamos, com o professor na frente dando uma aula tradicional, não funciona de forma alguma", atesta ele, após ter feito mestrado sobre o entretenimento aliado ao conhecimento, na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Ainda nos anos 2000, Marcos passou a entender a importância da abordagem criativa e a utilizar, entre outras, diversas referências divertidas, como histórias em quadrinhos.
O grande desafio não é chegar para o alunado e propor uma coisa nova. É convencer o professor a fazer isso. Porque funciona para qualquer disciplina' (Raimundo Sampaio/Esp. encontro/DA Press)
O grande desafio não é chegar para o alunado e propor uma coisa nova. É convencer o professor a fazer isso. Porque funciona para qualquer disciplina"

"Eu comecei a perceber que, se usasse o meio tradicional, mas com atividades lúdicas, o engajamento seria muito maior", afirma. Foi a partir de conclusões como essa que ele criou novas técnicas de abordagem. A primeira foi transformar o curso por completo em um seriado: "Cada aula é um episódio", explica. E completa: "Com narrativa, ponto de virada e participação dos alunos".

Além disso, os ensinamentos vêm sempre acompanhados de trilha sonora ao fundo, com playlist disponibilizada com o material projetado. "O negócio virou pelo avesso e teve um resultado incrível. Quanto mais eu instigo os alunos, mais eles vêm", diz.
 
NO RITMO DA BIOLOGIA
 
"Hoje, teremos participações especiais no palquinho, como sempre", anuncia para a turma de pré-vestibular, logo no início da aula, Leonardo Cavalli, deixando aparente a descontração que tomará conta dos próximos 50 minutos. Com associações lógicas e rápidas, marcadas por rimas, o professor ensina biologia de forma divertida desde 2005. "Tudo que é micro é masculino. Tudo que é macro é feminino", entona em sequência, seguido em coro pelos alunos.

Pesquisador de métodos de avaliação com base na neurociência desde a época da faculdade, ele constatou que esse tipo de recepção de informação aumenta a proficiência. "As pesquisas têm mostrado que as emoções e as diversas sensações interferem na construção das memórias. A aula fica dinâmica e o resultado é significativo", garante. "Aluno que teve aula comigo há três, quatro anos, me encontra e fala do conceito que aprendeu", orgulha-se.
'Não basta colocar para o aluno um monte de texto escrito. Eu comecei a pensar na minha aula como uma forma para que o aluno aprendesse e nunca mais esquecesse o que ensinei' (Raimundo Sampaio/Esp. encontro/DA Press)
"Não basta colocar para o aluno um monte de texto escrito. Eu comecei a pensar na minha aula como uma forma para que o aluno aprendesse e nunca mais esquecesse o que ensinei"

E, se as repetições não forem suficientes, até pancadão de funk pode ser ecoado para falar sobre a reprodução das flores. "A polinização está rolando e o tubão vai descendo até o fundão, o fundão", canta, ovacionado pelos alunos na faixa etária de 16, 17 anos. Para quem critica ou vê com maus olhos a abordagem em tom de brincadeira, Leonardo rebate: "Em momento algum estou deixando de dar conteúdo. Eu entro em sala, dou aula sem parar, o sinal bate e eu ainda estou ensinando". Para ele, o que vale mesmo é o saldo final: "Aprender para nunca mais esquecer."
 
 
CENA DE FILME POLICIAL
 
Um boneco coberto de sangue cinematográfico, balas espalhadas pelo chão e isolamento da área. Se não fossem as referências fictícias anunciadas, a cena poderia integrar qualquer perícia real de um crime. E era essa a intenção do doutor em genética e professor Paulo Queiroz ao montar, junto ao centro acadêmico de Biomedicina do UniCeub, um cenário hipotético perfeito para um assassinato.

Pelo quarto ano seguido, a atividade se repete na semana que homenageia o curso e segue com palestras e ações. "Com a disciplina, o objetivo é tentar formar uma massa crítica de como o profissional trabalha, quais são os princípios criativos que ele tem de aplicar", explica. Segundo o professor, a iniciativa é direcionada, a princípio, apenas aos estudantes de criminalística.
'Como é algo diferente do que eles veem em termos acadêmicos, é um momento mais fácil de aprendizado' (Raimundo Sampaio/Esp. encontro/DA Press)
"Como é algo diferente do que eles veem em termos acadêmicos, é um momento mais fácil de aprendizado"

"Quase deu brigas e tapas por vaga nesse último minicurso", conta Luiza Rezende, uma das alunas que testemunhou o engajamento de vários colegas não só matriculados na mesma cadeira. Para Paulo, a ideia é adequada ao maior desafio atual dos docentes: a fixação de conteúdo. "É também a grande cobrança que vemos por parte do alunado", pondera. "Então, tenho de dar vida ao conteúdo, colocar isso no ambiente de trabalho para eles." Com propostas dinâmicas, como as que costuma realizar, esse caminho fica mais fácil, segundo ele. E, no fim, a via de satisfação é de mão dupla: "Das disciplinas que dou essa é como se a instituição pagasse para eu me divertir", conta, sem esconder a satisfação.
 
FÍSICA NAS REDES SOCIAIS
 
"Vocês vão precisar de um lápis, uma folha de papel como rascunho e o celular." As recomendações podem soar estranhas para quem saiu do ensino médio antes dos anos 2000. As instruções, porém, fazem parte do cotidiano de Samara Brito para lecionar física para a 1ª, 2ª e 3ª séries do ensino médio do Colégio Marista. Fato que a fez chegar nos Trending Topics do Instagram no ano passado, devido a uma atividade que desafiou os alunos a registrar fenômenos ópticos, postados com uma hashtag no aplicativo de fotos. "Nós mostramos como as redes sociais podem facilitar a aprendizagem da física", conta. "Hoje, temos um banco com mais de 2 mil imagens."
'Os educadores estão percebendo que os alunos de agora aprendem de maneira diferente. A ideia é mostrar a eles que existem novas metodologias de ensino' (Raimundo Sampaio/Esp. encontro/DA Press)
"Os educadores estão percebendo que os alunos de agora aprendem de maneira diferente. A ideia é mostrar a eles que existem novas metodologias de ensino"

Certificada pelo Google após ter participado de uma imersão que selecionou 43 professores no Brasil, para que impactassem suas comunidades por meio de recursos tecnológicos, a licenciada pela UnB defende a necessidade de renovação por parte dos educadores. "Tudo mudou. O aluno não quer anotar, ele quer tirar foto. Em uma apresentação, ele prefere fazer PowerPoint em vez de só discursar", observa. É por essas e outras que Samara tem levado a realidade digital dos jovens para os conteúdos que precisa ensinar. Formulários on-line, que fazem correção automática de exercícios, ou aplicativos que transformam perguntas em games estão entre as ferramentas exploradas. "O professor pode ir além da sala de aula. Nós temos de usar a tecnologia para facilitar a nossa otimização de tempo", diz.
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EDIÇÃO 57 | Setembro de 2017