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COLUNA | Nas telas »

Aquarius é de esquerda? Se for, e daí?

José João Ribeiro - Colunistas Publicação:24/10/2016 09:31Atualização:24/10/2016 09:39
No início dos anos 1980, o então presidente da República, general João Batista Figueiredo, encerrou uma discussão com uma frase que lhe era peculiar: “Não vi e não gostei”. No Brasil de hoje, rachado, por que não, doente, quem aprecia uma boa obra de arte rejeita esse tipo de postura. Aquarius, do pernambucano Kleber Mendonça Filho, é um dos melhores filmes de 2016 e merece ser assistido, independentemente da inclinação política do espectador. Intelectual que se preze, por exemplo, não diminui a literatura do peruano Mario Vargas Llosa, mesmo este sendo um dos grandes entusiastas da política neoliberal. Quem simpatiza com a esquerda tampouco deixa de reconhecer o argentino Jorge Luis Borges, que desprezava o socialismo, como um dos maiores nomes das artes da América Latina.

Boicotar Aquarius, por protestos políticos do elenco em Cannes ou por fazer referências a um Brasil tacanho elitizado, dá a medida dessa mesma elite, que frequentou bons colégios ou faz MBA nos Estados Unidos, mas é incapaz de conhecer história do Brasil e os mais elementares padrões de educação.
Sonia Braga, na pele de Clara, uma jornalista aposentada e escritora de renome que mora em frente à praia de Boa Viagem, no Recife: ícone do cinema nativo  (Divulgação)
Sonia Braga, na pele de Clara, uma jornalista aposentada e escritora de renome que mora em frente à praia de Boa Viagem, no Recife: ícone do cinema nativo

Num recente discurso, o decano da Suprema Corte, ministro Celso de Mello, fez associação entre o atraso e a corrupção do país como uma praga de cupins. Teria Sua Excelência feito tal apontamento depois de refletir sobre o filme que tanto agride aos “cidadãos de bem”? Pelo que registra o noticiário, Celso de Mello nunca poderia entrar na lista de potenciais revolucionários comunistas.

Aquarius, porém, é um filme de luta e resistência. Apesar de ter sido idealizado há quase três anos, serve como nítido retrato para o ano de 2016 e seus drásticos desdobramentos. A tigresa Sonia Braga reafirma seu papel de ícone no cinema nativo, como a personagem Clara, uma jornalista aposentada, escritora de renome, que mora de frente para a praia da Boa Viagem, no Recife, justamente no edifício Aquarius, um dos últimos que conservam o estilo antigo. Nos planos de uma construtora, que compra todos os outros imóveis, Clara deve abrir mão de seu confortável apartamento para que o prédio possa ser demolido e dê lugar a um novíssimo espigão. Não existem escrúpulos. A vida de Clara vira um inferno.

Num tipo de revisão do clássico Casa-Grande & Senzala, de Gilberto Freyre, o diretor Kleber Mendonça Filho não desperdiça um minuto sequer do seu excepcional longa-metragem. Tudo é permeado de metáforas e cutucadas, que mostram um Brasil atrasado, conservador, mas que tem na personagem Clara uma explosão de esperança, de sempre levantar a cabeça, resistir, mesmo exorcizando os próprios preconceitos e equívocos do passado.
Ir sempre contra o sistema falido e dar pequenas deixas de como se comporta quem pensa e não tem nada para barganhar. Nesse quesito, a sequência do encontro de Clara com um amigo publicitário dono de importante jornal num restaurante fino, cheio de retratos na parede de homens velhos, brancos e ricos, escancara toda a sutileza e coragem do brilhante diretor.
 (Victor Juca/Divulgação)

Aquarius não será o representante do Brasil no Oscar. Uma pena. Selecionado pela exigência máxima de Cannes, elogiado e vencedor em diversos festivais, o país perde uma imensa chance de, enfim, ganhar o prêmio de melhor produção estrangeira. O escolhido pela comissão reunida pelo atual Ministério da Cultura permanece uma incógnita. Poucos assistiram a Pequeno Segredo, de David Schurmann. O insuspeito crítico Alcino Leite Neto, do jornal Folha de S.Paulo, classificou como “um dos piores filmes brasileiros recentes”. Outros vestiram a indumentária de entendedores, para cravar que é a escolha certa.

Vou assistir a Pequeno Segredo. Espero, sinceramente, gostar. Jamais simpatizei com bravatas de ex-presidente ditador.
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EDIÇÃO 57 | Setembro de 2017