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ESPECIAL EDUCAÇÃO | Tecnologia »

Teclar para educar

Ao mesmo tempo que ajudam os pais a se organizarem e fortalecem as relações, grupos do WhatsApp podem criar situações embaraçosas. Especialistas dão dicas de como usufruir deles de forma correta

Rebeca Oliveira - Publicação:25/10/2016 09:47
São oito da manhã e o celular de Luciana Gomes da Rocha não para de receber alertas. Ainda cedo, pipocam mensagens no grupo de WhatsApp formado por pais de alunos da mesma classe da filha, Bárbara Rocha, de 3 anos, aluna do colégio Ceav Jr., em Águas Claras. Com emoticons, uma mãe relembra o dever do dia, enquanto um pai recorda a carona solidária que haviam combinado dias antes. "Já cheguei a receber 300 mensagens em uma só manhã", diz a engenheira agrônoma, com postura crítica em relação às conversas extraoficiais promovidas na rede social.

O WhatsApp tem servido como forma de lembrete e sido usado para estreitar laços entre pais que, dada a correria dos tempos modernos, dificilmente se conheceriam. Por outro lado, o uso da rede em excesso pode incentivar condutas levianas, como a interferência em responsabilidades próprias dos estudantes, a resolução de problemas que são dos alunos e as incontáveis mensagens desnecessárias, que desvirtuam e afastam o encontro virtual do objetivo inicial, que é aprimorar a educação. "Tenho uma rotina intensa. Acabei de ter um bebê. Mal consigo acompanhar o real, imagine as postagens no app. Fico no grupo por resistência e obrigação. Muitos pais tentam passar uma imagem de 'perfeição' que não existe", afirma Luciana. 
A engenheira Luciana Gomes da Rocha, mãe de Bárbara Rocha, tem uma rotina pesada e se incomoda com o excesso de mensagens: 'Já cheguei a receber 300 em uma só manhã' (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
A engenheira Luciana Gomes da Rocha, mãe de Bárbara Rocha, tem uma rotina pesada e se incomoda com o excesso de mensagens: "Já cheguei a receber 300 em uma só manhã"

Se, por um lado, mães e pais, como Luciana, se sentem incomodados com o excesso de monitoramento e a troca de informações informais, por outro, há quem se sinta plenamente satisfeito com os grupos. Esclarecimento de dúvidas em relação a atividades escolares, lembretes de lições de casa, excursões da turma e eventos da escola. Para a empresária e consultora de varejo Karla Rosa Vaz, o WhatsApp se tornou ferramenta fundamental dentro da perspectiva de expandir o entendimento da educação formal. "Temos visões com contextos diferentes no grupo. Isso muda alguns conceitos que carregamos e conseguimos fazer trocas pessoais e filosóficas com pais que pensam diferente de nós", diz.

Vez ou outra, quando alguém erra o tom e usa o app para vender algum produto ou fazer propaganda pessoal, a postagem não encontra ressonância e acaba caindo no esquecimento. "Corrigimos o problema sempre que alguém sai da linha", conta Karla, mãe de Pedro Rosa Vaz, de 10 anos, que percebe o aplicativo de forma mais otimista que Luciana: "É mais um canal de informação, que tem por diferencial a criação de laços que jamais construiríamos de outra maneira", afirma. 
Para a empresária e consultora de varejo Karla Rosa Vaz, o grupo de pais do WhatsApp é ferramenta fundamental na educação o filho, Pedro Rosa Vaz: 'Por meio dele criamos laços que jamais construiríamos de outra maneira' (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
Para a empresária e consultora de varejo Karla Rosa Vaz, o grupo de pais do WhatsApp é ferramenta fundamental na educação o filho, Pedro Rosa Vaz: "Por meio dele criamos laços que jamais construiríamos de outra maneira"

Mãe da Melissa Monteiro, de 4 anos, estudante do colégio Cresça, na Asa Sul, a jornalista Estela Monteiro participa do grupo da turma desde que foi formado. Inicialmente, a ideia era apenas combinar os detalhes de uma festinha de aniversário. A comunicação foi tão assertiva que pais e mães decidiram mantê-lo. "É um espaço em que podemos acompanhar a vida escolar dos filhos sob outra ótica. Trocamos experiências, preocupações, anseios. Como é uma turminha de pequenos, que ainda estão se adaptando à escola, sempre surgem alguns impasses. É muito positivo participar do grupo, acho que nos sentimos mais seguras", diz.

Respeito e cautela foram ingredientes fundamentais para que, até agora, não tenha havido atritos ou interpretações equivocadas por parte dos pais, alunos e até da escola. "Da maneira como utilizamos o espaço, hoje, acho difícil que se torne um empecilho na autonomia dos filhos", defende Estela. Por via digital, por exemplo, os pais estão combinando um piquenique para se conhecerem melhor e para propiciar às crianças uma experiência que ultrapasse as fronteiras escolares.
Mãe da Melissa, estudante do colégio Cresça, Estela Monteiro troca experiências, preocupações e anseios  pelo WhatsApp: 'É um espaço em que podemos acompanhar a vida escolar dos filhos sob outra ótica' (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
Mãe da Melissa, estudante do colégio Cresça, Estela Monteiro troca experiências, preocupações e anseios pelo WhatsApp: "É um espaço em que podemos acompanhar a vida escolar dos filhos sob outra ótica"

Diante do potencial da rede - que conta 1 bilhão de usuários, segundo dados do próprio aplicativo - algumas instituições de ensino resolveram abraçar a iniciativa e incorporá-la aos meios mais tradicionais, como a agenda escolar, os bilhetes impressos e o quadro de avisos interno. A Escola da Árvore, no Lago Norte, conta com três grupos, um para cada turma, com pais de alunos de 7 meses a 5 anos.

Curiosamente, a escola tem um perfil mais alternativo e é conhecida por dar aulas ao ar livre, como as lições de ioga e capoeira. Ainda assim, os smartphones integraram-se ao bucólico ambiente escolar: "Usamos o app para dar recados, avisos, mas também para propagar eventos culturais extraclasse", diz a coordenadora pedagógica, Nathália Campos, uma das criadores do grupo no qual estão inclusos pais, professores e direção.

Apesar de assertiva e agregadora, nenhuma tecnologia substitui a conversa. É essa a visão de William Pinheiro, diretor da unidade do colégio Sigma de Águas Claras. Diferentemente da Escola da Árvore, o Sigma não utiliza o WhatsApp como forma oficial de comunicação com os pais. Embora reconheça a popularidade do aplicativo, o diretor afirma que, por ora, essa forma de diálogo permanece no campo da informalidade: "É uma relação social virtual que se limita aos pais, mas que acaba chegando até nós. Em quase 100% dos atendimentos presenciais, eles citam que conversaram sobre o assunto no grupo primeiro, antes de trazer a questão até o corpo docente", afirma.

Para evitar saias justas, Pinheiro incentiva o desenvolvimento de uma cidadania digital, como chama o conjunto de ideias que visam a um comportamento adequado do uso da tecnologia, com condutas responsáveis: "O problema acontece quando um pai ou mãe interpreta a informação que lê na rede fora do contexto e, precipitadamente, começa a fazer críticas ou vem tirar satisfações", diz. Embora ainda não haja projetos para incorporar essa forma de diálogo no Sigma de maneira oficial, o diretor enxerga a iniciativa com bons olhos. "Sou otimista com o uso de WhatsApp em grupos de pais. Como acontece em quase toda a rede, todos se tratam como iguais. Usado de forma ética, é uma ferramenta valiosa", orienta.

Candido Gomes, sociólogo, doutor em educação e professor da Universidade Católica de Brasília, defende que o WhatsApp deve ser usado com delicado equilíbrio pelos pais. "Quando permissivos e muito controladores, eles tendem a pender para extremos perigosos. Então, o aplicativo se torna motivo de disputa e desencontro." No entanto, o especialista não descarta a tecnologia nem a vê como inimiga. "Ela pode estabelecer redes para aprendizagem também", diz.
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EDIÇÃO 59 | novembro de 2017