..
  • (0) Comentários
  • Votação:
  • Compartilhe:

ENTREVISTA | Márcia Abrahão »

Orgulho e responsabilidade

Nova reitora da UnB é a primeira mulher a ocupar o cargo. Conheça os planos para a gestão que vai até 2018 e quais as soluções para alguns dos maiores problemas da universidade

Teresa Mello - Publicação:27/10/2016 09:12
Profissionalismo e competência podem muito bem conviver com bom humor e risos fartos. Que o diga a geóloga carioca Márcia Abrahão, de 51 anos, primeira reitora mulher da Universidade de Brasília (UnB). "As pessoas dizem que já sabem quando eu chego, porque ouvem a minha voz lá do fundo da sala", diz. E é também com disciplina e trabalho em equipe - fortalecidos na época em que jogava vôlei - que ela será gestora de uma comunidade de 50 mil pessoas, entre alunos, professores e técnicos, que frequentam os campi da Asa Norte, do Gama, de Ceilândia e de Planaltina. Para eles, Márcia quer tornar a universidade a melhor do país, por meio da excelência inclusiva - a UnB está em 10º lugar no Brasil no ranking QS World 2016.

O local favorito dela é um laboratório no subsolo do Instituto Central de Ciências, no qual baldes são improvisados para conter a infiltração na época das chuvas. Além de reformas estruturais, Márcia tem pela frente questões graves como segurança e evasão de alunos, além do transporte dos estudantes, dentro de um sistema emperrado pela burocracia. Uma instituição formadora, mas que não se aventura em promover grandes debates. Os problemas se amontoam na agenda da nova reitora. Sorte que ela os espera de portas abertas.
 (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)

ENCONTRO BRASÍLIA - A sra. toma posse em novembro e foi eleita com 53% dos votos. Uma das propostas é a excelência inclusiva. A que se refere?

MÁRCIA ABRAHÃO - A universidade tem de ser excelente, o objetivo é que ela seja a melhor do país. Isso é a excelência acadêmica: no ensino, na pesquisa, na extensão. Mas não adianta querermos ser a melhor instituição e não termos alunos, não nos abrirmos para a sociedade. Hoje, por exemplo, a UnB tem uma evasão muito grande. Dependendo do curso, de mais de 50%. É o caso das licenciaturas - para formação de professores -, principalmente as noturnas. São cursos em que não estamos conseguindo segurar os estudantes. As engenharias também têm muitas desistências. Apesar de terem tido notas boas no vestibular, os alunos são reprovados em disciplinas básicas, como cálculo. Por isso, chamamos de inclusiva, porque hoje temos um perfil de estudante muito variado. Não é mais aquele aluno de classe média alta. Abrimos os campi do Gama, Planaltina e Ceilândia, ampliamos cursos noturnos e temos muitos estudantes de fora de Brasília. Então, excelência inclusiva porque temos de dar condições para eles permanecerem na universidade, com programas de moradia, assistência. Inclusiva também para que nossos professores - contratamos cerca de mil, quase todos doutores, no Programa de Reestruturação Universitária, em 2008 - possam permanecer na instituição, progredir na carreira, entrar no programa de pós-graduação.

Outra proposta refere-se ao transporte, às linhas de ônibus para os campi. O que planeja?

Conversei com o governador [em audiência no Palácio do Buriti, dia 8 de setembro] e ele se colocou à disposição para trabalharmos juntos. Um dos assuntos foi o transporte. Muitos estudantes moram nas cidades do DF e ficamos ainda dependendo de poucas linhas de ônibus e com filas enormes. Temos uma população de 50 mil pessoas e precisamos de ônibus nos horários de maior fluxo - no fim da tarde, à noite e no início do dia. Vamos fazer um estudo e apresentar ao governador as nossas principais demandas. Temos de melhorar os horários dos ônibus intracampi e intracampus, que não atendem aqueles que moram na Casa do Estudante nos fins de semana.
 
Em março, houve um assassinato no laboratório do Instituto Central de Ciências (ICC). Em junho, um grupo racista e homofóbico invadiu a universidade. Quais são os planos para a segurança?

O crime chocou toda a universidade, especialmente por ser em um laboratório. Eu sou do Instituto de Geociências, temos os laboratórios abertos 24 horas e decidimos que vamos continuar abertos. Os estudantes pegam as chaves e vão trabalhar porque não podemos também deixar de fazer as nossas atividades. Foi uma decisão de toda a universidade. Em relação à segurança,  precisamos ter ações que envolvam a UnB e o governo do DF. As mulheres são o grupo de maior vulnerabilidade e o período de maior risco é à noite e na saída das aulas. Então, vamos trabalhar com corredores de iluminação, principalmente nos principais horários de saída e de entrada, mais policiamento externo nos horários e nos locais de maior fluxo. Não adianta ter rondas policiais em locais onde não haja gente saindo. É preciso focar nos horários principais. O governador também já se colocou à disposição para conversar sobre isso. Vamos fazer um seminário logo no início da gestão para traçar um grande plano de segurança para a UnB, talvez em novembro. Há câmeras nos estacionamentos, na biblioteca, mas alguns aparelhos não estão ativados no Darcy Ribeiro. Vamos colocá-los em funcionamento. No Gama, há uma questão gravíssima que é a falta de cercamento do campus. Vamos cercá-lo, e isso já vai melhorar a segurança. Existe ainda a segurança interna, que são funcionários da UnB, e a segurança privada contratada, mas falta diálogo entre eles, não existe uma coordenação.
 
O fato de ser a primeira mulher reitora vai influenciar a sua gestão? Como lidar com as questões de gênero?

Ser a primeira reitora é um orgulho – sou ex-aluna, me formei em 1986 - e uma carga de responsabilidade enorme, porque não podemos errar perante as mulheres, a sociedade e a comunidade. Vamos, sim, ter políticas de gênero. A UnB tem especialistas em muitas áreas e eles acabam não sendo chamados para ajudar a fazer política. Vamos ter uma ouvidoria mais proativa, para que as pessoas se sintam à vontade de procurar, com campanhas de esclarecimento para a comunidade. Vamos conversar com o GDF para que as mulheres possam se reportar a um posto policial ou a uma delegacia específica dentro do campus. Na campanha, conversamos com vários coletivos dentro da UnB, o das mulheres, o LGBT. Muitas vezes o aluno LGBT tem autorização para usar o nome social, e os professores precisam saber como lidar com essa nova realidade na lista de presença, na abordagem respeitosa.

Como envolver a universidade para diminuir o racismo e a homofobia na UnB?

Sou de um tempo em que debatíamos tudo dentro da universidade, com total abertura, mesmo sendo uma época difícil. Hoje, parece que a universidade está fugindo dos grandes debates. A nossa comunidade não é homofóbica nem racista. Existem grupos isolados dentro e fora, que são minoria, que são intolerantes. Não podemos deixar que essas minorias se apropriem da nossa comunidade. O ataque de junho chamou muito a atenção, porque foram pessoas de fora que chegaram de maneira muito agressiva ali na entrada do ICC, vieram gritando, xingando nossos estudantes, com bandeiras e palavras de ordem. Nossos seguranças tiveram dificuldade de detê-los. E a universidade pode ajudar com informação, com debates, para mostrar o risco de uma sociedade se tornar intolerante.
 (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)

Em abril, um calouro em Planaltina foi hospitalizado por ter ingerido bebida tóxica durante um trote. Em 2012, a UnB ratificou a decisão do Conselho Universitário que proíbe os trotes violentos. Qual é o direcionamento?

O trote é proibido dentro da instituição e infelizmente não temos como controlar essas questões externas, mas temos como orientar os estudantes. Não existe uma fórmula para resolver. É informação e orientação. É trabalhar com os coordenadores de cursos de graduação, diretores dos institutos e faculdades, centros acadêmicos e diretórios de estudantes, para que haja consciência dos riscos de uma situação dessas. É uma orientação que deve vir também das famílias.

Na época das chuvas, é comum vermos reportagens sobre as más condições estruturais do ICC, incluindo alagamentos, problemas na fiação e rachaduras. Existe projeto de melhoria?

Eu sou moradora do subsolo do ICC (risos). O ICC foi feito há cerca de 50 anos e passou por poucas reformas. Tem um problema sério de manutenção ao longo desses anos e que foi sendo relegado. Lá mesmo no meu laboratório tem um problema de infiltração e, quando chove, temos baldes para conter as goteiras. Vamos retomar a questão da infraestrutura, que, infelizmente, ficou parada nos últimos anos. Temos engenheiros e arquitetos no planejamento de melhoria do ICC. Há alguns pontos históricos ali que não temos como resolver. O subsolo do ICC foi pensado para não ter aulas, ser mais um depósito, e ao longo dos anos fomos ocupando o espaço. O que temos feito é tentar adaptar alguns espaços. O alagamento também está relacionado à ocupação da Asa Norte, do Setor Noroeste.
 
E a reforma no Hospital Universitário, o HUB?

Ele é responsabilidade da UnB, vai ser tratado como hospital-escola, então a relação com o GDF e o governo federal é importante para o financiamento do HUB. Hoje, a empresa Ebserh faz a gestão dos hospitais universitários, a contratação de uma parte do pessoal e é responsável pela infraestrutura do HUB. A proposta é manter uma relação muito próxima dela para termos tanto pessoal quanto estrutura suficientes. O GDF se propôs a repassar 5 milhões de reais para o HUB por ano, mas nosso custo é de 7 milhões de reais. Então ficou essa lacuna. Esse contrato com a Secretaria de Saúde está pendente e é o que vai dar tranquilidade ao hospital.

Haverá cortes no orçamento anual da UnB, que é de 1,2 bilhão de reais?

É importante dizer que não há cortes na previsão orçamentária para 2017. É óbvio que, ao longo do ano, pode haver contingenciamento, mas isso vamos trabalhando. Ao mesmo tempo que precisamos melhorar a infraestrutura, a universidade é muito lenta nas obras. Então, vamos mudar isso. Quando coordenei o Reuni, se não tivéssemos sido ágeis hoje não teríamos Gama, Ceilândia e Planaltina com a qualidade que temos, com pós-graduação, mestrado, doutorado. Gama só tem mestrado, Ceilândia e Planaltina, mestrado e doutorado. Precisamos, sim, melhorar nossa execução orçamentária, principalmente em obras e compras.
 (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)

A sra. é pesquisadora da área de mineralogia com base em granitos. A pesquisa é um ponto forte da UnB?

Sou de um instituto muito forte em pesquisa, o de Geociências. Somos um dos 10 programas de nível internacional da UnB e temos de avançar nisso. Vamos trabalhar para melhorar as condições de pesquisa, desburocratizar mais a instituição, para existir também mais publicações internacionais, apoiar o professor e o técnico com traduções para os artigos, por exemplo. E temos também a parte de inovação: o Parque Científico e Tecnológico precisa sair do papel.

A sra. foi aluna de geologia na UnB e professora a partir de 1989. Está há 31 anos na universidade. Qual é  seu lugar favorito?

É o laboratório de microscopia, naquele subsolo do ICC (risos). É com o que me identifico, é onde fica a minha sala. Acabei me especializando em estudar bolha dentro de rocha. As pessoas perguntam: mas tem bolha na rocha? Tem, e elas se mexem lá dentro. Eu estudo rochas que têm quase 2 bilhões de anos. Pesquiso essa área de granitos com mineralizados: em ouro, no Matupá (Norte de Mato Grosso), e em estanho, em Monte Alegre (Norte de Goiás). E aí essas bolhinhas nos dão informações sobre o líquido que formou a rocha, sobre a mineralização, a temperatura. Isso é importante para entender o processo. Entendendo o processo em um lugar, replica-se em outros lugares. É isso o que eu estudo, e acabei virando reitora da UnB.

Como é o seu lazer com sua família?

Meus dois filhos foram para a área de exatas. Tomás, de 27 anos, formou-se em estatística, e Renata, de 23, está terminando engenharia florestal. Não sou muito de cozinhar, porque digo que o marido faz isso muito bem, então... Domingo é meu dia de mexer no jardim, nós temos três cachorros, o Bob, um pequinês, e a Flor e a Cristal, essas adotadas, não sei a raça delas. Sempre gostei muito de jogar vôlei. Joguei pela UnB, era atacante de ponta, apesar de ser baixinha, e o vôlei tem isso de ser um esporte de equipe, o que levo para a minha gestão. Minha porta na UnB é sempre aberta, sem barreira. Sempre trabalhei muito, mas gosto de rir também.
COMENTÁRIOS
Os comentários estão sob a responsabilidade do autor.

EDIÇÃO 59 | novembro de 2017