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CULTURA | Novidade »

Museu para todos

Memorial JK investe em alta tecnologia para surdos, cegos e cadeirantes também possam conhecer seu acervo

Paloma Oliveto - Publicação:28/10/2016 10:43
Nos sonhos e projetos de Juscelino Kubitschek e Oscar Niemeyer, a cidade das utopias possíveis sempre esteve à frente de seu tempo. Nada mais justo, portanto, que o memorial do ex-presidente, projetado pelo arquiteto, represente esse ideal. Desde agosto, o museu dedicado ao fundador de Brasília ganhou novos recursos que democratizaram o acervo, contemplando um público pouco incluído nos espaços culturais do país: as pessoas com deficiência.

Majestosamente cravado no Eixo Monumental, o Memorial JK sempre aproximou brasilienses e visitantes do homem, do político e do presidente Kubitschek. O museu, inaugurado em 1981, porém, carecia de reformas e modernização. Outra preocupação, além da acessibilidade a deficientes visuais, auditivos e motores, era atrair o público mais jovem. Tudo isso respeitando o projeto original, que, além de assinado por Niemeyer, é tombado.
Mapas táteis, audiodescrições, textos em braile, vídeos exibidos em modernos monitores por meio de legendas e tradução em libras e equipamentos interativos para quem tem limitações físicas: novidades interativas e inclusivas (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
Mapas táteis, audiodescrições, textos em braile, vídeos exibidos em modernos monitores por meio de legendas e tradução em libras e equipamentos interativos para quem tem limitações físicas: novidades interativas e inclusivas

O desafio ficou nas mãos do arquiteto carioca Celso Rayol, diretor da Cité Arquitetura. Foi ele quem desenvolveu o projeto, coordenado pela museóloga Auta Rojas Barreto e acompanhado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). "Fazer um trabalho no memorial do doutor Juscelino, projetado por Oscar Niemeyer no Eixo Monumental, foi muito motivador", diz Rayol, que também é professor de arquitetura da PUC-Rio.

O arquiteto lembra que um país que sediou as paralimpíadas recentemente não pode limitar o acesso de pessoas com deficiência a espaços culturais por falta de tecnologias inclusivas. No novo projeto do Memorial JK, elas existem de sobra. "Em termos de quantidade de elementos (acessíveis) que conseguimos reunir, o que o museu oferece hoje é inédito no Brasil", comemora.
 
Itens como maquete e mapas táteis, audiodescrições e textos em braile contemplam os deficientes visuais. Já os auditivos podem acompanhar o que é dito nos vídeos exibidos em modernos monitores por meio de legendas e tradução em libras, a língua brasileira de sinais. Pessoas com deficiência motora também não terão dificuldades para se locomover e utilizar os equipamentos interativos, projetados pensando nas limitações físicas dos visitantes.
Maquete tátil, com leitura em braile, do prédio do Memorial JK: reforma de acessibilidade durou quatro anos e custou cerca de 2 bilhões de reais (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
Maquete tátil, com leitura em braile, do prédio do Memorial JK: reforma de acessibilidade durou quatro anos e custou cerca de 2 bilhões de reais

As obras de acessibilidade começaram há quatro anos e as atualizações tecnológicas ficaram prontas em um ano. Foi investido 1,8 bilhão de reais, captado por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura. Para a presidente do Memorial JK, Anna Christina Kubitschek Pereira, "museus são instituições vivas que representam a história de um povo. Por isso mesmo precisam se atualizar, para que os fatos do passado possam ser compreendidos no presente".
Anna Christina Kubistchek, na abertura da mostra Modernização e Acessibilidade, que inaugurou a nova etapa: 'Museus precisam se atualizar, para que os fatos do passado possam ser compreendidos no presente' (Ed Alves/CB/DA Press)
Anna Christina Kubistchek, na abertura da mostra Modernização e Acessibilidade, que inaugurou a nova etapa: "Museus precisam se atualizar, para que os fatos do passado possam ser compreendidos no presente"

Ex-presidente da Associação dos Deficientes Visuais de Brasília (ADVB) e organizador de oficinas inclusivas, César Achkar comemorou a iniciativa: "A vida, sem cultura, não faz sentido. Mas, infelizmente, os projetos culturais para pessoas com deficiência ainda são muito raros", observa. No DF, recursos acessíveis são praticamente inexistentes em espaços culturais que, no máximo, oferecem alguma estrutura para cadeirante, segundo Ackar. "Recursos de acessibilidade não vão fazer o cego enxergar, mas aproximá-lo o máximo possível das informações. Não é porque a pessoa é deficiente que ela precisa estar totalmente privada dos conteúdos culturais", diz. 
César Achkar, que já foi presidente da Associação dos Deficientes Visuais de Brasília, agora organiza oficinas inclusivas: 'A vida sem cultura não faz sentido' (Breno Fortes/CB/ Press)
César Achkar, que já foi presidente da Associação dos Deficientes Visuais de Brasília, agora organiza oficinas inclusivas: "A vida sem cultura não faz sentido"
 
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EDIÇÃO 57 | Setembro de 2017