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ESPECIAL LUXO | CAPA »

Cinco jeitos de morar bem

Entramos nas casas de alguns dos mais respeitados arquitetos de Brasília para ver como vivem e que soluções eles deram para os seus próprios espaços

Hédio Júnior - Publicação:23/11/2016 09:03Atualização:23/11/2016 10:05
Eles aconselham os clientes dos seus escritórios de arquitetura a não construir uma sauna que possa virar um depósito da piscina, a deixar de lado o romantismo da lareira acesa nem cinco vezes no ano, buscar neutralidade nas cores, fugir dos excessos de adorno, mas, acima de tudo, respeitar sua personalidade na hora de construir ou reformar o espaço onde vão morar.

Mas e quando o projeto é para si mesmo? Todas as regras e premissas da arquitetura são aplicadas quando está no comando o desejo pessoal? Cinco dos principais arquitetos da capital abriram as portas de suas residências para mostrar o que planejaram na hora de construir seus lares.

Hélio Albuquerque, George Zardo, André Martins, Juliana Zuba e Isabel Veiga tiveram conceitos bastante distintos quando projetaram a própria casa ou apartamento. Nas páginas a seguir, você vai encontrar um pouquinho do que cada um pensou e descobrir se na casa de ferreiro o espeto é de pau – ou, pelo menos, revestido de madeira.
 
Cores sóbrias e muito verde
 
A porta de entrada de 7 m de altura e quase 1 tonelada de aço revestido de madeira nem parece que por ali há uma família com três crianças. Juliana Zuba seguiu os traços retos dos projetos que costuma fazer para seus clientes em parceria com a mãe, Denise Zuba, e abusou da neutralidade que ela tanto valoriza nas áreas internas de uma residência. “Gosto das coisas simples.” A piscina e um pequeno campo de futebol são frequentemente usados pelos filhos de 12, 10 e 6 anos. “Mas tive de transformar minha garagem numa miniquadra de tênis depois que eles começaram a aprender o esporte”, diz a arquiteta, sobre o que não estava no projeto original, de seis anos atrás. Um elevador interno leva ao segundo pavimento da casa, que tem no total 900 m2 de área construída.
Juliana Zuba, 38 anos, 15 de profissão (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
Juliana Zuba, 38 anos, 15 de profissão

Juliana costuma dizer que é arquiteta desde criança. Ainda menina, saía da escola direto para o escritório que hoje divide com a mãe, Denise Zuba, no Lago Sul. Lá, via revistas de arquitetura e dizia como faria para atender seus clientes. Formada pela Universidade de Brasília (UnB) em 2001, a arquiteta atua em projetos residenciais, comerciais e institucionais, tendo Brasília como seu principal mercado, e defende a arquitetura mais neutra e funcional.

A arquiteta não elege lugar preferido na casa, mas não titubeia em apontar o espaço gourmet de frente para o jardim como aquele em que seus convidados são recebidos e mais gostam de ficar. No projeto original, a sala de jantar acabou sendo substituída por uma área de TV. Tudo porque ela se encantou com uma estante e aquele seria o único lugar onde a peça caberia.
 
As peças preferidas de Juliana: 
Ela gosta mais dos ambientes "limpos", sem muitas peças decorativas espalhadas pelos espaços, mas A Maternidade em Siena, de Carlos Araújo, é destaque na sala de estar. Do outro lado, a estante da Rimadesio fez com que mudasse a proposta de um ambiente único só para ter a peça lá.
 (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
 (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
 
Uma casa para a arte
 
Nascido no Rio de Janeiro, Hélio Albuquerque vive em Brasília desde 1973, e foi depois disso que voltou à sua terra natal para cursar arquitetura e só então firmar sua base profissional no Distrito Federal. A experiência com projetos começou ainda quando era estagiário, tendo passado por diversos escritórios de Brasília. Em temporada no exterior para viagens de pesquisa, passou por um curso de restauração de antiguidades.

Helinho, como é conhecido, já tem engatilhado projeto para construir uma casa onde possa colocar seu acervo de obras, que hoje não cabe no apartamento de 167 m2 da Asa Sul. O imóvel sofreu pouca alteração, mas privilegiou o que ele mais queria: paredes onde pudesse pendurar pinturas e gravuras originais de artistas como Tarsila do Amaral, Dijanira e Milton Dacosta até quadros de Di Cavalcanti ou pintados pelo tetravô. “Minha paixão são as obras em geral, sem compromisso com o estilo ou o valor agregado”, diz.
Hélio Albuquerque, 50 anos, 24 de carreira (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
Hélio Albuquerque, 50 anos, 24 de carreira

Projetar o próprio espaço não foi tarefa fácil para quem, como Hélio, sente na expectativa dos seus clientes e amigos uma pressão maior para que corresponda ao esperado sem errar. Parte de sua coleção de quadros está guardada esperando a hora de ser exposta na casa nova. Lugar preferido de estar com os amigos, a sala é composta por livros e outras peças de arte.

Um olhar mais atento é capaz de perceber que o artesanato não está representado nela. “Não é a minha pegada”, afirma. 
 
As peças preferidas de Hélio:
A Pomba, de João Ceschiatti, já "voou" por mostras e exposições de amigos de Hélio Albuquerque. Apesar do desapego, é uma das obras preferidas que o arquiteto tem em casa. Na parede, a gordinha de Milton Dacosta é uma das que ele mais gosta.
 (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
 (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
 
Moderno cartão de visitas
 
O goiano André Martins é de uma escola de profissionais que se formou em Goiânia e logo tomou conta do mercado de Brasília. Amante da cultura brasileira, ele opta pela valorização dos artistas nacionais na hora de direcionar seus projetos. O foco na brasilidade é seu mote, e por isso André tem na sua cartela de clientes jovens e núcleos familiares. O escritório montado em casa fez com que seu projeto pessoal se tornasse um showroom que influencia quem o visita.
André Martins, 47 anos, 20 de profissão (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
André Martins, 47 anos, 20 de profissão

Quando se entra em seu apartamento da superquadra modelo da Asa Sul, a impressão é de que onde há paredes estão armários e onde estariam as portas não há nada por trás. Tudo foi revestido com compensado. Na cozinha, moderna e integrada, também estão escondidos geladeira e outros eletrodomésticos dentro de armários. A residência do arquiteto, recém-inaugurada, é também seu escritório – e um cartão de visitas e tanto. Uma estante na sala dá a falsa impressão de estar suspensa e os objetos, em sua maioria, valorizam o artesanato mineiro.

A intervenção no projeto original do imóvel – que tem a mesma idade de fundação de Brasília - foi trabalhosa para André e exigiu bastante pesquisa, inclusive em outros imóveis do bloco. O estilo de labirinto, com tantas paredes, foi logo desfeito. O piso original de sinteco foi uma das poucas coisas que permaneceram. “Mantive os tacos, as janelas e o endereço. O resto, troquei tudo”, brinca. A mesa da sala de estar leva sua assinatura. Ah, poltronas e cadeiras Sérgio Rogrigues estão espalhadas pelo ambiente - um xodó do arquiteto.
 
As peças preferidas de André: 
A brasilidade está em toda parte do apartamento de André Martins. Peças de Sérgio Rodrigues, como a poltrona Mole, um ícone do design em jacarandá, compõem a sua sala de estar, onde há uma obra do artesanato marajoara, um vaso da fertilidade em cerâmica, que ele trouxe do Pará.
 (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
 (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
 
Projeto Clean, como ele
 
As cores são os elementos dos trabalhos que levam a assinatura de George Zardo. Formado em arquitetura há 30 anos, ele vive em Brasília há 40, depois de ter nascido e passado parte da infância em Uberlândia, no Triângulo Mineiro. Zardo também formou-se em gastronomia pelo Iesb e costuma basear seus projetos na funcionalidade dos ambientes. Transita bem entre o moderno e o clássico, com arquitetura de traços mais simples e soluções limpas.
George Zardo, 55 anos, 30 de carreira (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
George Zardo, 55 anos, 30 de carreira

E nada paredes livres. George Zardo fez questão de tirá-las na casa que planejou e construiu há seis anos no Setor de Mansões Dom Bosco. A proposta era otimizar os 700 m2 de área construída e integrar os ambientes. Todas as quatro suítes têm saída para o jardim e para a piscina, onde também há uma hidromassagem com vista para um telão retrátil na varanda. A cozinha, espaço preferido do “chef” Zardo, é interligada à sala e isolada por portas corrediças quando não há visitas. “Preferi limar o espaço gourmet e fazer uma área única. Quando há duas, sempre uma delas fica desequipada. “O arquiteto só quis ter em casa espaços em que pudesse constantemente ocupar com os filhos e futuramente netos. “Minha mulher pediu para construir uma lareira. Eu relutei, mas como negar?”, brinca.

Como as paredes foram eliminadas do projeto que valoriza os vidros e a integração dos ambientes, pouco se vê de obras de arte penduradas na parede do arquiteto. Ele também preferiu colocar o mínimo possível de objetos expostos sobre as mesas e aparadores da casa - que foi intensionalmente térrea, sem o segundo pavimento comum na vizinhança. Para ele, projetar para si é muito mais simples. “Nesse caso, não há necessidade de interpretar o desejo do cliente. Você já sabe exatamente o que quer”, afirma.
 
As peças preferidas de george: 
Para Zardo, menos é mais em se tratando de adornos e peças de decoração. Mas sua predileção por peças em preto e branco fez com que ele deixasse em destaque na sala de estar uma zebra que tinha sido da sua mãe – e carrega uma memória afetiva – e uma caixa que ganhou de um cliente, também das mesmas cores. 
 (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
 (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
 
O lago é o destaque
 
"A casa de festa da Bel" já virou o point dos amigos da arquiteta. Claro, não há ali um espaço para eventos, mas a skyline de Brasília e uma ampla vista do lago Paranoá – com direito à vista da ponte JK de brinde – são convidativos para uma constante celebração. O projeto, elaborado há 12 anos, foi pensado para atender o visual e se adaptar ao que mais valorizava o terreno – mesmo que isso custasse deixar os quartos todos voltados para o poente. O pé-direito da sala tem cerca de 4,5 m, assim como a porta que dá para a área gourmet, sauna e piscina, com abertura de 10 m. “Num projeto temos de prestar bastante atenção no entorno”, observa Isabel, que gosta de cozinhar.
Isabel Veiga, 47 anos, 21 de profissão (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
Isabel Veiga, 47 anos, 21 de profissão

A integração dos espaços internos e externos da casa é sua marca. Formada em arquitetura e urbanismo pela UnB e bacharel em direito pelo Uniceub, ela tem assinatura em projetos comerciais como a Loja Amelie e o restaurante Duo, na Asa Sul. Seu foco é a escala grande dos projetos, deixando para os sócios o cuidado com os detalhes. Atende muitos jovens de Brasília que querem um projeto mais contemporâneo na aquisição do primeiro imóvel e tenta sempre valorizar a iluminação natural.

No interior, pilares em concreto aparente e uma sala de TV equipada para virar boate, além de jardim de inverno e lareira, compõem o ambiente. As janelas do piso superior são largas e em peitorais baixos, para que, mesmo se a pessoa estiver deitada, o Paranoá seja contemplado. “Minha casa é usual, não há espaços aqui que não sejam constantemente ocupados”, diz a arquiteta.
 
As peças preferidas de Isabel: 
A rodoviária do Plano Piloto estampa a sala de TV da arquiteta. É com orgulho que ela exibe uma das obras de seu artista favorito, o brasiliense Paulino Aversa, filho de um dos homens que trabalhou na construção da cidade, que retrata a antiga rodoviária. Ela também gosta de colecionar esculturas de casais, como esta em madeira que trouxe da Ásia. 
 (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
 (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
 
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EDIÇÃO 59 | novembro de 2017