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CULTURA | Comportamento »

Palco para quem não é artista

Muita gente procura nos cursos teatrais livrar-se da timidez, explorar a criatividade, ter mais autoconfiança ou simplesmente ocupar o tempo. Conheça algumas histórias de quem faz oficinas para se desestressar ou apenas para se divertir

Paloma Oliveto - Publicação:23/11/2016 14:15Atualização:23/11/2016 14:25
Júlia Rodrigues é estudante de biblioteconomia e diz que as oficinas a ajudaram a desinibir-se: 'Tinha muita vergonha de apresentar trabalhos da escola. O teatro me ensinou a ser espontânea e mais extrovertida' (Raimundo Sampaio/Esp.Encontro/DA Press)
Júlia Rodrigues é estudante de biblioteconomia e diz que as oficinas a ajudaram a desinibir-se: "Tinha muita vergonha de apresentar trabalhos da escola. O teatro me ensinou a ser espontânea e mais extrovertida"
Durante o dia, ele é o farmacêutico e vendedor Marcílio Mendes de Freitas, de 60 anos. Nas noites de segunda-feira, porém, é Play quem entra em cena. Das 19h30 às 22h, preocupações e estresse do dia a dia ficarão para trás. Nessas duas horas e meia, só há espaço para a alegria proporcionada pelo teatro, atividade que sempre lhe agradou e que ele resolveu abraçar como hobby no início deste ano. “Eu sempre gostei muito de humor. Acho que demorei a começar. Devia ter feito isso antes para ter divertido mais gente e me divertido também”, diz Marcílio, que prefere interpretar comédias.

Assim como ele, muita gente busca nos palcos uma forma de se expressar sem, necessariamente, profissionalizar-se. São estudantes, empresários, servidores públicos, professores. Pessoas de ocupações diferentes que dedicam algumas horas da semana a uma atividade que lhes permite viver outras vidas e extravasar emoções muitas vezes sufocadas pelas obrigações do cotidiano. “Uma oficina de teatro é uma grande válvula de escape. Você expressa aquilo que está entalado”, define o ator Benetti Mendes, professor da escola Espaço Teatral, no Sudoeste.

Para o farmacêutico Marcílio de Freitas, o Play, a atividade ajuda a lidar com várias situações, inclusive no trabalho: 'Acabo não só fazendo teatro à noite, mas durante o dia também, até na minha profissão' (Raimundo Sampaio/Esp.Encontro/DA Press)
Para o farmacêutico Marcílio de Freitas, o Play, a atividade ajuda a lidar com várias situações, inclusive no trabalho: "Acabo não só fazendo teatro à noite, mas durante o dia também, até na minha profissão"
Quem decide entregar-se ao hobby garante que as vantagens são muitas: “O teatro ajuda a nos expressarmos melhor, a não termos vergonha, a sermos mais sociáveis, a lidarmos com pessoas diferentes”, enumera a estudante de educação física e professora de sapateado Helena Macedo, de 21 anos, aluna do curso de teatro musical do Centro de Artes Integradas Empório Cultural, na Asa Norte.

Ela sempre fez dança, mas em 2011 decidiu aprender a atuar em espetáculos que também exigem o conhecimento de interpretação e de canto. Desde então, já participou de 10 montagens, incluindo o clássico Os Miseráveis. Para tanto, tem aulas de balé, street jazz, teatro, teoria musical e canto. Aos sábados, é dia de ensaio dos musicais. Apesar de tanta dedicação e estudos, Helena garante que não quer ser atriz profissional. “Minha paixão mesmo é ser professora”, diz.

O ator Benetti Mendes, professor da escola Espaço Teatral: 'Uma oficina de teatro é uma grande válvula de escape' (Raimundo Sampaio/Esp.Encontro/DA Press)
O ator Benetti Mendes, professor da escola Espaço Teatral: "Uma oficina de teatro é uma grande válvula de escape"
A regente Michelle Fiuza, coordenadora da Escola de Teatro Musical de Brasília, que faz parte do Empório Cultural, explica que o perfil dos alunos que buscam esse tipo de atividade artística é o mais variado possível: “Tem desde as pessoas que fizeram teatro quando pequenas e quiseram retomar depois de estabilizadas a outras que se descobriram apaixonadas pelo teatro musical já mais velhas. Muitos têm profissões estressantes e procuram os cursos como formas de desopilar a cabeça.”

A engenheira Viviane Piccinin, de 36 anos, trabalha no departamento de recursos humanos de uma empresa das 8h às 17h e à noite faz aulas de musical. Na infância e na adolescência, estudou balé e interpretação, mas deixou as atividades de lado quando começou a primeira faculdade. “Depois, comecei a trabalhar, e também iniciei outro curso superior”, conta. Já no fim da segunda graduação, surgiu a oportunidade de fazer uma aula de extensão em teatro. “Eu sentia falta de fazer alguma coisa ligada à arte, mas, trabalhando e estudando o dia inteiro, não tinha como. Depois, quando eu já tinha me estabelecido, resolvi voltar”, diz. “São muitas horas de dedicação. Às vezes pode ser difícil, custoso, porque são muitos ensaios. Mas também é gratificante”, reconhece Viviane, que não pretende se afastar do teatro nunca mais.

Helena Macedo é aluna de musical do Empório Cultural e já participou de 10 montagens, mas diz que não quer ser atriz profissional: 'Minha paixão mesmo é ser professora' (Divulgação)
Helena Macedo é aluna de musical do Empório Cultural e já participou de 10 montagens, mas diz que não quer ser atriz profissional: "Minha paixão mesmo é ser professora"
Algumas pessoas jamais tiveram contato com o palco nem haviam sonhado em pisar em um até se descobrirem apaixonadas pelo teatro. Foi assim com o analista de sistemas Jefferson Fabrício Ferreira do Nascimento, de 33 anos. “Já tenho 15 anos na área de TI (tecnologia da informação) e queria fazer algo totalmente fora daquilo que é do meu conhecimento e que me desafiasse ao mesmo tempo”, diz. No fim do ano passado, Jefferson ficou sabendo que o ator Benetti Mendes, do grupo de comédia G7, muito popular em Brasília, começaria a dar aulas no Espaço Teatral. “Confesso que, até então, era algo totalmente novo. Nunca tinha passado na minha cabeça fazer teatro”, diz.

Jefferson fez uma aula experimental e se apaixonou. “Cada dia que venho aqui descubro algo novo. Tenho uma filosofia de vida: aquilo que não me incomoda não me evolui. E eu estava muito acomodado com a minha situação. Eu quis fazer algo diferente”, justifica. Ele reconhece que, no começo, foi um pouco difícil pelo cansaço: “Mas fui descobrindo no teatro um passatempo que me relaxava e me desestressava. A alma sai leve, é muito gostoso. Aqui é onde esqueço os problemas, é um momento de descontração. Não sou um Tarcísio Meira; estou aqui para me divertir”, diz.

O aprendizado do palco não se encerra quando as cortinas são fechadas. Marcílio Mendes de Freitas, o Play, diz que leva para a vida o que aprende ali: “Aqui, somos treinados para a vida. O Benetti passa os ensinamentos para usarmos no dia a dia. Acabo não só fazendo teatro à noite, mas durante o dia também, até na minha profissão”, diz. O professor destaca uma das importantes lições que os alunos acabam incorporando: a tolerância. “Muitas vezes, são pessoas que nem se falariam na rua. Numa oficina de teatro, a pessoa desconstrói cada estereótipo e acaba convivendo com outras que, talvez, se as visse na fila do banco, teria raiva só de olhar”, diz Benetti.

A engenheira Viviane Piccinin vai para as aulas à 
noite: 'Às vezes pode ser difícil, custoso, porque são muitos ensaios. Mas também é gratificante' (Divulgação)
A engenheira Viviane Piccinin vai para as aulas à noite: "Às vezes pode ser difícil, custoso, porque são muitos ensaios. Mas também é gratificante"
O ator e professor de teatro Jhony Gomantos, das companhias Teatro Concreto e Teatro Cafona, concorda que o palco ajuda a fazer uma autoanálise. “O teatro tem a força de questionar o ser humano, então todos acabam se questionando também. As pessoas sempre saem com uma outra visão”, afirma Gomantos, que ministra oficinas para adultos, crianças e adolescentes. Para os mais jovens, ele destaca outra vantagem da interpretação: ajudar a vencer a timidez, tão comum nessa fase da vida.

Dos 12 aos 17 anos, a estudante de biblioteconomia Júlia Rodrigues da Silva, hoje com 18 anos, participou das oficinas de Gomantos. Teve de parar quando entrou para a universidade. “Quando eu era criança, sonhava em ganhar um Oscar”, brinca. As aulas não a levaram para Hollywood, mas a ajudaram a se desinibir. “Eu tinha muita vergonha de apresentar trabalhos na escola e precisava conhecer bem as pessoas para me soltar. O teatro me ensinou a ser espontânea e mais extrovertida. Ao fazer vários papéis diferentes, acabamos descobrindo muitas coisas de nós mesmos. Cresci e amadureci demais”, afirma.
 
 
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EDIÇÃO 59 | novembro de 2017