..
  • (0) Comentários
  • Votação:
  • Compartilhe:

NEGÓCIOS | Tendências »

Faça você mesmo

A cultura DIY (do it yourself), que prega a prática de fazer produtos em casa, abandonando o intermédio da indústria, cresce e pode até virar fonte de renda

Alexandre de Paula - Publicação:23/11/2016 14:26Atualização:23/11/2016 14:43
Lucy Aguirre gosta de compartilhar experiências e conhecimento: 'Percebi que tinha muita coisa que eu mesma podia fazer, não precisava comprar pronto ou contratar um serviço' (Raimundo Sampaio/Esp.Encontro/DA Press)
Lucy Aguirre gosta de compartilhar experiências e conhecimento: "Percebi que tinha muita coisa que eu mesma podia fazer, não precisava comprar pronto ou contratar um serviço"
Se no passado o movimento DIY (do it yourself, ou, na tradução literal, faça você mesmo) ficou marcado como uma tendência da cultura punk, muito associada à prática de gravar e distribuir música, no século XXI a onda de botar a mão na massa e fazer sozinho os próprios produtos foi além. É cada vez mais comum ver quem resolva confeccionar desde roupas ou peças mais simples a itens de decoração e móveis bem elaborados. O DIY pode ser também uma alternativa eficaz para os tempos de “vacas magras”. Além da óbvia economia de fazer em casa com as próprias mãos em vez de comprar, a prática pode se transformar em negócio e virar fonte de renda. Para se ter uma ideia do potencial desse tipo de iniciativa, o PIB da economia criativa (ramo em que se encaixa esse tipo de negócio) cresceu quase 70% em uma década, segundo os últimos dados da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan) em 2014. Até o fim de 2013, as atividades movimentaram cerca de 126 bilhões de reais.

Mesmo sem saber o que era DIY, a artista visual Lucy Aguirre se interessou desde criança pela ideia de faça você mesmo. “Mas foi na vida adulta, por necessidade de independência e economia, que percebi que tinha muita coisa que eu mesma podia fazer, no lugar de comprar pronto ou contratar um serviço”, conta. Foi aí, por meio da internet, que ela descobriu a cultura do DIY e o movimento de compartilhar experiências e conhecimento. Depois disso, a rede social Pinterest (que se define como um catálogo virtual de ideias) tornou-se fonte de projetos que Lucy replicou em casa. Ela viu aí uma oportunidade de ganhar dinheiro fazendo algo que lhe dava prazer.

O primeiro passo foi confeccionar garrafas decorativas e colocá-las à venda na internet. “Eu fazia um exemplar daquele produto, publicava fotos nas redes sociais, anunciava que faria por encomenda e esperava o retorno das pessoas”, lembra. O negócio começou a crescer e transformou-se em marca, a Glas. Um pouco depois, ela se juntou à amiga e atual sócia, Luiza Rezende, para fazer algumas edições da Virada Verde, uma feira de produtos sustentáveis. Da ideia, elas criaram uma lojinha temporária que logo se transformou, quando perceberam que estava dando certo, em fixa.

Para o designer Matheus Fernandes, o DIY sempre foi uma 
maneira de ter o que desejava, mesmo que lhe faltasse 
dinheiro para comprar: 'Acho que já nasci 'maker'' (Raimundo Sampaio/Esp.Encontro/DA Press)
Para o designer Matheus Fernandes, o DIY sempre foi uma maneira de ter o que desejava, mesmo que lhe faltasse dinheiro para comprar: "Acho que já nasci 'maker'"
Transformar esse prazer de criar e ensinar em renda foi também o que fez o designer Matheus Fernandes, que mantém um blog em que ensina como fazer vários objetos. Para ele, o DIY sempre foi uma maneira de ter o que desejava, mesmo que lhe faltasse dinheiro para isso. “Eu acho que já nasci ‘maker’. Sempre gostei de ‘inventar moda’ e, quando queria muito alguma coisa e não tinha dinheiro para adquirir, eu fazia uma versão com minhas próprias mãos”, afirma.

A cultura DIY abre também, segundo ele, uma possibilidade de repensar os hábitos de consumo e reaproveitar. “É importante dizer que reaproveitar nem sempre tem a ver com customizar – gastando mais materiais – para transformar algo. Apenas repensar as possibilidades de uso para um objeto qualquer já é um caminho”, completa.

A designer e jornalista Thaís Antônio tem tamanha identificação com colocar a mão na massa que, quando chegou a hora de se casar, ela não teve dúvidas: faria ela mesma a decoração. Contratar outras pessoas para fazer algo tão pessoal foi uma opção logo descartada. A cerimônia, que ocorreu em uma praia de Alagoas, foi toda pensada com a ajuda de amigos. “Eu queria inventar um monte de coisas diferentes que sequer estariam disponíveis no mercado”, diz.

A decoração do casamento de Filipe Monte Serrat e Thaís Antônio foi feita por eles próprios, familiares e amigos: personificação e economia nos enfeites que deram a cara da festa, como os filtros dos sonhos que ornaram o altar (Arquivo Pessoal)
A decoração do casamento de Filipe Monte Serrat e Thaís Antônio foi feita por eles próprios, familiares e amigos: personificação e economia nos enfeites que deram a cara da festa, como os filtros dos sonhos que ornaram o altar
Além do marido, Filipe Monte Serrat, amigos do casal ajudaram a definir a identidade e a confeccionar os objetos que estariam na cerimônia, como os filtros dos sonhos, feitos de tecido. “Não saberia nem precisar a quantas mãos foi construído nosso casamento, só sei que todo este amor envolvido nos preparativos fez com que o processo fosse todo mais especial”, relata Thaís. Para ela, fazer toda a decoração com os amigos trouxe um valor emocional muito mais forte do que se uma empresa fizesse o trabalho: “O resultado não foi apenas o somatório das habilidades de quem fez alguma coisa, mas o somatório das emoções e sentimentos de quem torcia por nós.”
COMENTÁRIOS
Os comentários estão sob a responsabilidade do autor.

EDIÇÃO 57 | Setembro de 2017