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DEZ PERGUNTAS PARA | Isabella Ballalai »

"Vacinar é mais rápido do que controlar o Aedes aegypti"

Especialista comemora a primeira vacina contra a dengue, mas ressalta o desafio de imunizar jovens e adultos

Marina Dias - Redação Publicação:24/11/2016 10:15Atualização:24/11/2016 10:30
A época não é a de grande preocupação com a dengue, cuja incidência é historicamente maior no primeiro semestre do ano. O tema, no entanto, esteve em pauta nos últimos meses, devido à aprovação pela Anvisa da comercialização da primeira vacina contra a doença no país. Desenvolvida por um laboratório francês, ela já está disponível na rede privada, mas ainda não é oferecida pelo SUS. De qualquer maneira, é considerada um avanço, já que a primeira ocorrência de dengue documentada clínica e laboratorialmente no Brasil aconteceu em 1981 – e os primeiros relatos de casos datam do início do século XIX. A novidade não significa, claro, que o combate ao Aedes aegypti possa diminuir. “Não devemos apenas vacinar e achar que, por isso, o mosquito virou amigo”, afirma a presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), Isabella Ballalai. Ela realizou em setembro, em Belo Horizonte, a XVIII Jornada Nacional de Imunizações, que reuniu especialistas para discutirem desafios e avanços da vacinação no país e no mundo. Na ocasião, Isabella conversou com Encontro sobre a novidade da vacina francesa, a vacina de HPV - ainda polêmica por aqui - e os movimentos antivacina, entre outros temas. 
 (Samuel Gê)

1 | ENCONTRO - Quais podem ser considerados os principais avanços dos últimos anos em termos de imunização no país?
Isabella Ballalai - Nos últimos cinco anos, conseguimos eliminar a rubéola e o sarampo. Essas são as conquistas concretas mais recentes. Além disso, vimos muitas vacinas serem incluídas no calendário nacional de imunizações, como aquela contra a doença pneumocócica. Reduzimos em 70% a meningite meningocócica em menores de 2 anos. Em termos de saúde do indivíduo (e não exatamente de saúde pública), tivemos também a chegada da vacina da dengue, uma vacina nova contra uma doença potencialmente grave. Falo do ponto de vista individual, porque ainda não está disponível na rede pública. Por fim, vimos o Ministério da Saúde voltar as atenções para as adolescentes, com a vacina contra o HPV. Os países que adotaram essa vacina têm resultados concretos de redução de verrugas genitais, lesões de colo do útero que precedem o câncer.

2 | Por que ainda não temos uma vacina nacional para a dengue?
Estamos adotando a única vacina licenciada no mundo. Não há outra. O processo até se chegar a uma vacina é longo. Essa que foi lançada agora tem uma história de mais de vinte anos de estudo. Hoje, temos outras indústrias, inclusive no Brasil, pesquisando essa vacina. O Instituto Butantan está entrando em fase 3, que é a fase de teste em pacientes.  

3 | Por que o SUS ainda não adotou essa vacina?
Sei que é difícil as pessoas entenderem. Elas pensam “estou aqui, morrendo de dengue, já há uma vacina e o governo não faz nada”. Mas é preciso ter muito critério na hora de incluir uma vacina no SUS. Certamente, em determinado momento, ela será incluída. Para que isso aconteça é preciso ter dinheiro e contarmos com vacinas suficientes. Ainda mais importante, é que ela só pode ser incluída quando soubermos o que se pode esperar dela, sob o ponto de vista público. É preciso descobrir qual é a faixa etária que, vacinada, vai dar o maior impacto na redução de doença. Os mais infectados são os jovens, mas quem mais morre por causa da doença são as pessoas acima dos 60 anos. Apesar disso, a vacina está licenciada apenas para pessoas entre 9 e 45 anos, que é a pior faixa etária para aderir à vacinação. Elas não se vacinam, não têm a cultura. Será que vale a pena o governo disponibilizar a vacina se há a possibilidade de as pessoas não aderirem? Se elas não aderem, não há cobertura vacinal e, portanto, resultados.

4 | Vacina é a solução para as doenças causadas pelos vírus que o mosquito Aedes aegypti transporta?

Há quanto tempo estamos tentando eliminar esse mosquito? Realmente, não é nada fácil, e precisamos eliminá-lo. E, a partir do momento em que temos uma vacina eficaz e segura, não faz sentido deixar as pessoas esperando a eliminação do vetor e adoecendo. Também não devemos apenas vacinar e achar que, por isso, o mosquito virou amigo.

5 | A luta contra o vírus é mais fácil de ganhar do que contra o mosquito?
O resultado com a vacinação é mais rápido do que conseguir controlar o vetor. Existe jeito de controlá-lo, mas ainda não o encontramos. Contudo, não se deve abandonar o combate ao vetor. Fazendo um paralelo, vacinar contra HPV não significa poder fazer sexo sem camisinha.

6 | A vacina de HPV sofre certa resistência por ser destinada a crianças, sendo que previne contra doenças resultantes de relações sexuais...
O importante não é quando a pessoa vai começar a fazer sexo. Temos de vaciná-la bem antes de começar. Quanto mais novos, melhor os meninos e meninas respondem à vacina. É importante dizer que 80% da população já foi infectada pelo HPV. É uma doença de homens e mulheres, é precoce e não é de grupos de risco. Além disso, a camisinha, nesse caso, está longe de ser 100% segura, porque não é o esperma que transmite o vírus, é o contato de pele com pele. Então a vacina é com 9 anos mesmo! Se tivéssemos dados para dizer que ela poderia ser aplicada aos 2 anos, seria aos 2. E aí todo mundo iria se vacinar. A vacina contra hepatite B, que também é uma doença sexualmente transmissível, é dada em bebês e ninguém tem problemas com isso.

 (Samuel Gê)
7 | Temos no Brasil um grupo antivacina relevante, como nos EUA e Europa?
Não. O brasileiro adere bem à vacinação. Temos coberturas, para crianças, de 95%, 100%. Está na cultura da mãe levar os filhos para serem vacinados. É claro que, nas mídias sociais, vemos algumas coisas, mas não é exatamente um antivacinismo como o americano ou europeu, que já existe há anos e é algo mais formal. Aqui, o que se tem, às vezes, na internet, são casos de mães que relacionam um evento adverso do filho com a vacina. 

8 | Qual é a real relação entre vacina e autismo?
Vamos parar para pensar: se vacinas causassem autismo, quantos autistas nós teríamos? O mesmo com esclerose múltipla, Guillain-Barré... É preciso acompanhar qual é a incidência normal das doenças na população e se essa incidência muda após uma campanha de vacinação. Se isso ocorrer, há algo errado. Mas nunca aconteceu.

9 | Pode contar de onde surgiu essa associação?
Em 1998, foi divulgado um estudo na publicação científica inglesa The Lancet que demonstrava a relação entre o autismo e a tríplice viral. Mesmo que nenhuma outra pesquisa tenha conseguido demonstrar essa associação, a notícia se espalhou e teve um impacto grande. Com isso, as pessoas passaram a não querer vacinar seus filhos e até médicos passaram a não prescrever a vacina. Passado algum tempo, foi solicitada uma investigação do trabalho, pois, enquanto vários países já estavam a caminho da eliminação do sarampo, a Europa não estava, o que colocava o resto do mundo em risco. Aí viram que era uma fraude deliberada.

10 | Quais são os principais desafios, em termos de imunização, no Brasil?

O maior deles é fazer com que pessoas continuem vacinando suas crianças em cada município, em cada estado. Não pode haver “bolsão” de pessoas não vacinadas em meio a uma população imunizada. E conseguirmos também vacinar essa faixa etária de adolescentes e adultos.
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EDIÇÃO 59 | novembro de 2017