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NAS TELAS »

A simplicidade da coroa

José João Ribeiro - Colunistas Publicação:16/01/2017 10:29
Em 2006, ao escrever o roteiro de A Rainha, filme que deu um Oscar à magnífica Helen Mirren, o escritor e roteirista Peter Morgan, sem saber, prestava um imenso favor à monarquia britânica. Desde a morte da princesa Diana, a simpatia do povo inglês pela rainha Elizabeth II esfarelava-se. Ao retratar justamente esse episódio, Peter mostrou o lado humano, sensato e a fragilidade da mulher que ocupa o trono da Grã-Bretanha. A rejeição praticamente desapareceu. Agora, com a total responsabilidade de sua caneta, Peter Morgan conta como a filha e moça dedicada ocupou o lugar do pai, o rei George VI, na série The Crown.

Com produção da Netflix, em parceria com a Sony, The Crown é o produto feito para a televisão mais caro de todos os tempos. Trata-se de cinema de primeiríssima qualidade, sobretudo técnica, em direção de arte, figurinos, cenários, ao alcance do controle remoto pelo espectador. Porém, sem contar a excelência visual, a série é um primor ao resgatar fatos históricos e no elenco, nitidamente apaixonado pela produção, que tem entre seus diretores o notável Stephen Daldry, de As Horas (2002) e Billy Elliot (2000).
Claire Foy é a jovem princesa Elizabeth II: talento e sensibilidade para um papel de peso  (Robert Viglasky/Netflix/Divulgação)
Claire Foy é a jovem princesa Elizabeth II: talento e sensibilidade para um papel de peso

Já no primeiro episódio, a suntuosidade da proposta revela-se no casamento da jovem princesa Elizabeth (Claire Foy) com Philip, o duque de Edimburgo (Matt Smith). Uma união, por amor, que teve o apoio do rei George VI (Jared Harris), mesmo com os laços sanguíneos do noivo, que de alguma forma se misturaram ao ideário nazista. Vencida a guerra, a Inglaterra celebra a boda da princesa herdeira, na ânsia de ter o mito Winston Churchill (John Lithgow), reconduzido ao cargo de primeiro-ministro.  

Se no longa-metragem de 2006 o autor Peter Morgan foi bem-sucedido ao mostrar a intimidade de Sua Majestade e família, em The Crown o perfil se torna completo. Elizabeth II é uma imperatriz modesta, simples, que valoriza os instantes de isolamento, apesar de toda a pompa e os ritos que o cargo traz. Talvez, por ter visto a guerra tão de perto, as concessões de seu povo, a rainha tenha se transformado na mãe que abomina desperdícios e mantém a doçura escondida por uma armadura de conservadorismo e respeito aos seus antepassados.

A jovem atriz Claire Foy sustenta o difícil dever de dar vida à protagonista, com evidente talento e sensibilidade. Matt Smith, como príncipe Philip, carrega os mesmos cacoetes que Peter Morgan traçou há 10 anos. Um nobre mimado, sempre desconfortável pela representatividade da esposa, indiferente à opinião pública e às consequências de duras decisões. Mas os aplausos da crítica são para o estupendo John Lithgow, no papel de Sir Winston Churchill. Uma velha raposa sempre astuta para virar o jogo e garantir os melhores conselhos para a novíssima rainha.

Os fatos históricos podem ter pequenas imprecisões ou, quem sabe, leves atenuantes, para preservar reputações. A aparição do duque de Windsor, ou o rei Eduardo VIII (Alex Jennings), que renunciou ao trono para se casar com a socialite americana Wallis Simpson (Lia Williams), dá a dimensão dos tempos turbulentos e atrasados do velho continente na segunda metade do século XX.
The Crown é a escolha certa para uma maratona nestes dias de festas do fim de ano.
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EDIÇÃO 57 | Setembro de 2017