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ENTREVISTA | Regis Guimarães »

Meditar para viver melhor

Engenheiro de formação, o presidente da Sociedade de Meditação Vipassana explica por que trocou a vida de executivo de multinacional por uma filosofia mais zen

Paloma Oliveto - Publicação:16/01/2017 11:05Atualização:16/01/2017 11:34
 (Raimundo Sampaio/Esp.Encontro/DA Press)
Quem o vê sentado placidamente sobre o zafu – almofada para apoiar os joelhos e as pernas – não consegue imaginar que Regis Guimarães, casado e pai de três filhos, já tenha sido um executivo workaholic com passagens pelo alto escalão do governo e por empresas privadas de grande porte. Mas a serenidade da fala não deixa enganar: ele é um homem de inquietudes. No melhor sentido de todos.

Graças a esse desassossego, Regis decidiu, há mais de três décadas, buscar respostas para dúvidas que ultrapassavam a praticidade da vida. Por uma série de coincidências, que atribui ao próprio universo, descobriu a meditação vipassana, conhecida no mundo ocidental como mindfulness, ou plena atenção. Sem deixar o trabalho de lado, o homem de negócios partiu para viagens e retiros que o levaram a um caminho sem volta.

Já aposentado e morando em Brasília, o engenheiro decidiu compartilhar o aprendizado com amigos que, como ele, questionavam o sentido da existência. Começou recebendo três pessoas na sala de casa. Dali a pouco já eram mais de 20. Regis precisou procurar outro local e passou a ensinar meditação em um clube. O espaço também se apequenou perto da procura.

Desde 2010, a Sociedade Vipassana de Meditação funciona na 909 Norte. Uma vez por mês, é oferecido o curso de três dias, para iniciantes. O evento é concorridíssimo: sempre passa de 150 inscritos e muitos precisam esperar o seguinte para conseguir se inscrever. Hoje, 10 mil já passaram pelo treinamento. O interesse é justificado: “Os fatores de estresse estão presentes em todos os nossos movimentos na sociedade moderna. Eu não posso eliminar os estressores; eles existem, fazem parte da sociedade”, diz o mestre.

ENCONTRO BRASÍLIA: Como o sr. se envolveu com a meditação?
REGIS GUIMARÃES: Chega um momento da vida, não posso especificar a idade, pois isso varia de pessoa para pessoa, que começamos a ter algumas dúvidas existenciais – o que quero, para onde vou? E por uma série de coincidências o universo meio que conspira para isso. Comecei a buscar o que é que existia neste mundo de conhecimentos diversos há mais de 30 anos. Estava no fim do (trabalho no) governo, em 1986. Comecei a conviver com alguns amigos que também estavam nessa busca. Em meio a todas essas indagações, descobri a meditação, inicialmente com um viés hinduísta, mas não o hinduísmo em si. A prática da meditação é que realmente me empolgou. Depois disso, encontrei um grupo em São Paulo que se reunia toda semana para meditar e trocar conhecimento e leituras.

E:Isso foi na década de 1980?
RG: No final dela, por volta de 1988-89. Comecei a me interessar inicialmente por hinduísmo e descobrimos um mestre chamado Ramana Maharshi, que foi muito divulgado no mundo ocidental. Ele foi um guru indiano meio independente, não vinculado a nenhuma linha específica dentro do hinduísmo, que ficou a vida inteira num local só, na Índia. Esse camarada foi divulgado no Ocidente por um inglês chamado Paul Brunton, que escreveu A Índia Secreta, um livro famoso na década de 1980. Aliás, até hoje ele está disponível. O autor conta os mistérios de vários gurus, entre eles o Ramana Maharshi. Eu me empolguei ao ler esse livro e acabei aprofundando os estudos sobre o Ramana Maharshi e sua meditação. Ele simbolizava o ensinamento dele na frase “quem sou eu?”, quer dizer, a busca do entendimento de si mesmo. Com isso, fui procurando me aprofundar. Fui à Índia nos anos 1980, para meditar, fazer um retiro e conhecê-lo, mas ele já tinha morrido.

E: Até então o sr. não tinha muitas experiências com religiões, filosofias, ou sempre teve um pezinho ali?
RG: Eu tinha curiosidade. Fui criado num ambiente livre de questões religiosas. Meu pai era protestante; minha mãe, católica. Então, tivemos muita liberdade de escolha religiosa. Acabei indo para o catolicismo, pois a família toda da minha mãe era católica e isso me influenciou. Depois, tive um tio espírita que me influenciou no espiritismo. Quando entrei na universidade, e engenheiro tem de ser agnóstico, entrei nessa de agnosticismo. Eu me formei e fui seguir minha vida profissional. Discutia filosofia, que sempre gostei muito, mas religião, propriamente espiritualidade, não.
 
E: Como o sr. chegou à vipassana?
RG: Essa experiência toda foi me levando a querer mais, a responder à pergunta “quem sou eu?”. E, lá pelas tantas, o hinduísmo não me respondia muito isso. Foi quando descobri o budismo. Fui fazer um primeiro retiro vipassana no fim dos anos 1990, que era o retiro do Goenka [o hindu Satya Narayan Goenka], uma figura interessante que morreu recentemente. Ele era um empresário muito rico, de família muito rica, e com forte formação hinduísta. Goenka tinha uma enxaqueca violentíssima e andou pelo mundo todo, mas não consegui curar sua enxaqueca. Um dia, ele descobriu em sua cidade um monge budista chamado U Ba Khin, de uma linha que pratica mais a vipassana, e esse líder lhe disse que curaria sua enxaqueca se ele fizesse uma meditação séria, durante muito tempo, muito intensa. Goenka criou, então, esse retiro de 10 dias, uma tradição da meditação vipassana. E se empolgou, porque deve ter resolvido a questão da enxaqueca dele e passou a propagar isso. Ele se tornou um organizador de ensino da prática vipassana. Depois, foi para a Índia e a meditação se espalhou por lá e pelo mundo. No Brasil, a sede da vipassana dessa linha fica em Miguel Pereira, no estado do Rio. Em Brasília, eles fazem o retiro duas vezes por ano e estão criando um centro aqui perto, em Paraíso.

E: O que é a meditação vipassana?
RG: A vipassana significa ver a si mesmo em profundidade e literalmente significa ver em profundidade. No mundo ocidental, é conhecida como mindfulness, ou plena atenção. Esse ver profundamente ou intensamente a si mesmo é uma interiorização de autoconhecimento, a busca de autoconhecimento. Temos, hoje, uma vivência extremamente agitada e os transtornos mentais já são um problema social em todos os aspectos da sociedade humana. No mundo ocidental e até no mundo oriental já se reconhece que o transtorno mental tem se agravado intensamente. E não há remédio apropriado para isso. Por isso, a ciência vem descobrindo, cada vez mais intensamente, que a prática meditativa é uma das maneiras mais úteis para trabalhar essa intensificação de transtornos mentais que a sociedade vem tendo. Hoje, ela é estudada em universidades do mundo todo. Nos Estados Unidos e na Europa há grandes centros de pesquisa interessados em estudar a meditação.
E: Por que a vipassana é adequada para isso?
RG: Pelo fato de ela nos dar as ferramentas. É uma metodologia organizada para que possamos nos aprofundar em nós mesmos. Usar o autoconhecer de forma intensa, profunda, para que possamos ir ao âmago de nossos valores reais. O que, afinal de contas, nos faz feliz? É a busca de todos nós. Intuitivamente, o que buscamos é sermos felizes e ficamos martelando o sofrimento sem saber como lidar com isso. A prática da meditação vipassana nos dá condições para que evoluamos nesse processo de nos conhecer. E, ao nos conhecer, vemos como alterar os processos mentais, a ponto de nos permitirmos ser mais pacientes diante das condições de sofrimento que enfrentamos na vida. Não é propriamente eliminar o sofrimento, mas criar uma forma de nos relacionarmos com ele.

E:Como funciona a meditação?
RG: A essência do ensinamento da vipassana vem do budismo, mas ela não tem conotação religiosa nenhuma, é importante que se entenda isso. É um método de treinamento mental para que possamos nos conhecer melhor e saber como diminuir o efeito que o sofrimento traz. Ou até eliminar a causa do sofrimento. Num primeiro nível, conhecer as causas do sofrimento, saber lidar com elas e até poder eliminá-las. Isso é a essência do ensinamento da filosofia budista: conhecer o sofrimento, conhecer as causas do sofrimento, saber como eliminar ou reduzir os efeitos do sofrimento.

E: E como ela pode ajudar?
RG: Vivemos numa sociedade estressante. Os fatores de estresse estão presentes em todos os nossos movimentos na sociedade moderna. Eu não posso eliminar os estressores. Eles existem, fazem parte da sociedade. Computador, informática, telefones celulares, televisão, jornal. Somos uma máquina de receber informações e não vamos eliminar isso. A ideia que está por trás é de, se não consigo eliminar os estressores, posso aprimorar minha capacidade de conviver e não ser vitimizado por eles. É a tendência moderna: as pessoas vão ficando cada vez mais angustiadas, mais ansiosas, mais medrosas, culpando-se porque não sabem lidar com as causas desses elementos estressores. Então, se tenho melhor compreensão sobre mim, posso mudar minha atitude perto dos problemas. Eles não dependem de mim, mas a maneira como me relaciono com os estressores depende de mim. A base da vipassana é criar condições, preparar e treinar a mente para que possamos vivenciar melhor as questões da nossa vida.

E: Estamos vivendo uma era de paradoxos, com uma sociedade de consumo exagerado, de um lado, e, de outro, pessoas que querem se ver livres disso? Por quê?
RG: Tem um dado da Organização Mundial de Saúde, um indicador chamado Dale, que mede o número de dias perdidos por alguma incapacidade. Pode ser gripe, dor, depressão... O ser humano está vivendo mais, com as melhorias da medicina, mas os dias perdidos têm aumentado. Está ganhando dias de vida, mas perdendo dias úteis. Esse indicador avalia quais as causas dessa perda. Nitidamente, as causas mais prementes eram as doenças convencionais, como câncer e doenças cardíacas. Mas, atualmente, os transtornos mentais já são a segunda causa. A projeção é de que em 2020 já sejam a maior causa de perda de qualidade de vida do ser humano. Há um quadro de agitação mental em que as pessoas estão se deixando cada vez mais levar. Temos um excesso de informação e a quantidade que recebemos por dia é uma violência.

E: Inclusive com as crianças?
RG: Hoje, uma criança de 7 anos tem mais informação do que um imperador romano tinha. E nosso cérebro é o mesmo do tempo das cavernas. Ele evolui, mas não tão depressa. Informação traz demanda, traz condições comparativas. Então como lidar com isso? A farmacologia não desenvolveu ainda um método claro para isso. E não é à toa que muitas pessoas vêm indicadas para fazer o nosso curso por seus psiquiatras, terapeutas, cardiologistas e neurologistas. Vinte por cento do tempo de aula do curso é perdido com disciplina. Por que esse excesso de indisciplina? Por que essa agitação mental, esse déficit de atenção que não existia no meu tempo? Isso é muito grave e surge do excesso de informação. Todo esse avanço está nos trazendo uma doença embutida com a qual não sabemos lidar. Da mesma forma que temos educação física, temos de ter educação emocional, e ninguém fala disso. Antes, essa educação emocional vinha da religião, da família, de jogar bola na rua, do convívio social. Hoje, não existe mais isso. As escolas aumentam o conteúdo e não preparam o indivíduo. Precisamos ter cuidado com o emocional das crianças. Nos nossos cursos, tem sempre um pai que pergunta como lidar com o emocional dos filhos e ninguém sabe cuidar desse aspecto.

E: Além do curso, passaram a oferecer também práticas semanais?
RG: O forte da propagação da vipassana foi o curso para ensinar as pessoas a meditar. Todos os meses o oferecemos e a procura é enorme, ultrapassa o limite de inscrições. A procura continua crescente porque as pessoas têm angústia de aprender. Mas só aprender não adianta, o mais importante é praticar. A prática exige uma dose de esforço, de intencionalidade. Então começamos com uma reunião, a sanga, que significa “reunir para meditar”. Começamos aos sábados, com uma pessoa conduzindo. Mais pessoas começaram a pedir e temos também às quartas à noite uma prática não guiada. Depois ampliamos para as segundas. Então um grupo sugeriu uma prática de meditação guiada temática, com um tema a cada vez, o que acontece às quintas. Os temas normalmente são vinculados à compaixão, seguido por uma prática relacionada, o que tem sido a mais procurada. Começou há dois meses e já tem mais de 130 pessoas participando.
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EDIÇÃO 59 | novembro de 2017