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BRASILIENSES DE 2016 | Antonio Anastasia »

Cavaleiro do impeachment

Há menos de dois anos no Senado Federal, o ex-governador de Minas Antonio Anastasia foi figura-chave na queda de Dilma Rousseff, o evento político mais importante do ano

Alessandro Duarte - Publicação:18/01/2017 11:38Atualização:19/01/2017 10:10
POLÍTICA
 
Ao término da entrevista para esta reportagem, o senador Antonio Anastasia colocou sua mochila nas costas, carregou o guarda-chuva e saiu de seu escritório, em Lourdes, na região Centro-Sul de Belo Horizonte, para ir a uma consulta médica. De lá, ele se encaminharia para seu apartamento, em uma rua próxima. Tudo a pé. Quem percorre as calçadas do bairro aos fins de semana já se acostumou a ver o senador por ali, muitas vezes em companhia de seu cachorro de estimação, o schnauzer Palacinho, de 6 anos. “Quando não estou em Brasília, faço questão de levá-lo para passear pessoalmente”, conta. A rotina só foi quebrada nos cinco meses que antecederam o impeachment da presidente Dilma Rousseff. Escolhido relator do processo que culminou com a deposição da presidente, Anastasia teve de ler milhares de páginas e ouvir centenas de horas de depoimentos. Depois, precisou escrever outras centenas de páginas. Só a leitura de seu parecer durou quatro horas. Suas vindas a Belo Horizonte, claro, ficaram bem mais raras no período.
Antonio Anastasia no Senado, onde brilhou como relator do impeachment: 'Fui escolhido não só por causa da minha formação jurídica, mas também por meu estilo mais sereno' (Raimundo Sampaio/ESp Encontro/DA Press)
Antonio Anastasia no Senado, onde brilhou como relator do impeachment: "Fui escolhido não só por causa da minha formação jurídica, mas também por meu estilo mais sereno"

Mas ele garante que a trabalheira valeu a pena. Seu relatório foi claro e bastante técnico. Chegou, inclusive, a ser elogiado pelo então advogado-geral da União, José Eduardo Cardoso, por ter se limitado às duas acusações que pesavam sobre a então presidente. “Fui escolhido não só por causa da minha formação jurídica, mas também por meu estilo mais tranquilo, mais sereno”, diz. Como relator, ele acompanhou todas as sessões pessoalmente e manteve a fleuma, não aceitando provocações dos aliados de Dilma. Sua atuação no Senado, neste ano, no entanto, não se limitou a ser relator do processo de impeachment. Anastasia é o relator também da Comissão Especial para o Aprimoramento do Pacto Federativo e titular de diversas comissões, como a de Constituição, Justiça e Cidadania e a de Transparência e Governança Pública. Acaba de ser designado relator da reforma do Código Penal.

Ex-governador de Minas Gerais, o belo-horizontino conta que ainda está se acostumando com a dinâmica do Legislativo, que é muito mais lenta que a do Executivo. “De modo geral, o parlamentar trabalha bastante, mas nem sempre o trabalho aparece”, diz. Não que esse estranhamento influencie em sua produção. Pela segunda vez, ele foi escolhido pelo Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (DIAP) um dos “cabeças do Congresso Nacional”. Uma honraria e tanto para quem está no Senado há apenas dois anos.

Eleito com mais de 5 milhões de votos, Anastasia sofreu pressões para sair candidato a prefeito nas últimas eleições. Foi irredutível: “Não podia deixar um mandato no início. Eu gosto de concluir as coisas que começo”. Sobre a eleição para governador em 2018, ele mostra que não pretende sair candidato outra vez. “Hoje, minha tendência é continuar como senador.” E se as pressões se repetirem? “Serão enfrentadas a seu tempo.” A respeito do momento delicado que o país atravessa, ele confessa que a situação está, como se diz em Minas, de “vaca estranhar bezerro”. Mas é um otimista: “O Brasil é jovem, rico e com um povo ordeiro e trabalhador, mas precisa ter boa gestão.” E é exatamente aí que Anastasia pode fazer – e vem fazendo – a diferença.
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EDIÇÃO 59 | novembro de 2017