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BRASILIENSES 2016 | Wellington Oliveira »

A força do teatro

Por meio das artes cênicas, o arte-educador transforma a vida de comunidades como Planaltina e Vale do Amanhecer

Diego Ponce Deleon - Publicação:19/01/2017 09:47Atualização:19/01/2017 11:00
AÇÃO SOCIAL
O professor Wellington Oliveira no Centro Educacional Stella dos Cherubins, em Planaltina: ele ajuda a transformar vidas por meio das artes cênicas (Raimundo Sampaio/Esp. Encontro/DA Press)
O professor Wellington Oliveira no Centro Educacional Stella dos Cherubins, em Planaltina: ele ajuda a transformar vidas por meio das artes cênicas
 
Assim que se adentra o Centro Educacional Stella dos Cherubins, em Planaltina, pode-se ler uma das frases máximas de Augusto Boal: “Atores somos todos nós, e cidadão não é aquele que vive em sociedade: é aquele que a transforma”. A citação de Boal, que revolucionou o teatro brasileiro ao jogar luz sobre os oprimidos, foi parar ali a pedido de Wellington Oliveira, professor de artes do colégio. E a escolha não foi por acaso. As lições do diretor e dramaturgo são agora responsabilidade de Wellington, que tenta intervir no dia a dia dos alunos por meio do universo cênico.

Embora seja um nome recente da rede pública do DF, com apenas três anos de casa, Wellington nunca se contentou com a sala de aula. Desde que terminou o mestrado em artes na Universidade de Brasília (UnB), o arte-educador se dedica à pesquisa do teatro comunitário, que busca a inserção social e política da população por meio de interferências teatrais e dramatúrgicas. Ou seja, o teatro deixa os palcos e invade as ruas, acolhendo quem passa, quem o assiste, tornando a plateia protagonista da própria história.

E assim foi feito, por exemplo, com o trabalho Muro de Promessa no Vale do Amanhecer: “O espetáculo devolveu um pouco da autoestima de quem mora ali, restabeleceu laços afetivos e criou um senso coletivo de orgulho”, conta o professor, o primeiro da família Oliveira a chegar à faculdade. O processo se revelou tão producente que ele não tardou a transgredir a sala de aula novamente.

A partir da provocação do diretor Jonathan Andrade, um dos mais concorridos artistas de Brasília atualmente, e da experiente atriz e também professora Ana Flávia Garcia, Wellington abriu as portas da escola onde leciona para o projeto Tsunâmi, um espetáculo em desenvolvimento.

Semanalmente, os alunos adolescentes de Wellington participam de ensaios abertos conduzidos por Jonathan e protagonizados por Ana Flávia. Mais que isso, os jovens são convidados a interferir diretamente no processo por meio de relatos pessoais, depoimentos e críticas, colaborando diretamente com a criação dramatúrgica. Em uma semana, por exemplo, foram encorajados a levar objetos pessoais de valor afetivo e falar sobre eles. Sempre sensível ao que dizem, Ana Flávia incorpora esses sentimentos à personagem, Jonathan desenvolve novas cenas e Wellington alimenta esse espaço de compartilhamento promovido pelo teatro.

Aos poucos, vidas são transformadas. Da mesma maneira que a do Wellington foi quando ainda pequeno teve contato com o teatro na escola. E ninguém melhor que os próprios alunos para ratificar o valor dessas lições: “Eu só estou participando por causa do professor Wellington. Antes, eu achava besteira o projeto, mas comecei a me envolver e perceber que a arte se manifesta em nós de um jeito ou de outro. Ver o resto do trajeto de Tsunâmi vai ser uma honra”, relata Luiz Pedro de Jesus, de 16 anos.

E logo ele terá essa oportunidade: em 2017, o espetáculo será apresentado em várias escolas da rede pública, levando toda a profusão dos alunos de Planaltina a outros estudantes. Uma corrente em prol da formação de público a partir do próprio público. E, em alguma dessas sessões, vai que encontramos um novo Wellington disposto a perpetuar a arte como força de transformação?
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EDIÇÃO 57 | Setembro de 2017